Vagantes condenados: Él
“Eu sou o espelho dos opostos, a vida que queima e dela a civilização se guia. Da morte se ergue a vida e da vida se encontra a morte. No fim, são um só.”
O vento cortava o deserto enquanto ele caminhava sem propósito ou direção, seus longos cabelos azul-marinho esvoaçando com a brisa escaldante. Nascido nas profundezas de uma linha de pensamentos de caos sem fim e vazio, ele havia surgido entre seus irmãos para vagar por um mundo solitário, eternamente preso às próprias reflexões.
“Quem sou eu? Por que existo? Por que... por que continuo a caminhar neste deserto sem fim? O que eu fiz?”, perguntava-se, a mente inundada pelas mesmas questões que o atormentavam desde o início de seu castigo. Seus passos eram lentos e pesados, arrastando grilhões presos a enormes bolas de ferro.
Não muito longe dali, um casal enfrentava a mesma imensidão de areia. A mulher reclamava do calor e da jornada extenuante.
“Ah... por quanto tempo mais iremos continuar a andar por este deserto, querido?”, perguntou, irritada.
“Irá demorar mais três noites para finalmente chegarmos ao nosso destino!”, respondeu o marido, tentando acalmá-la.
“Droga! Pelo menos...”, suas palavras foram cortadas quando avistou uma figura estranha no horizonte: um homem sem roupas, com orelhas semelhantes às de um morcego.
“Hã?” A mulher esfregou os olhos, incrédula. Ao olhar novamente, a figura havia desaparecido. “Ufa! Era só coisa da minha cabeça, só isso!”, suspirou, aliviada.
“Do que está falando, querida?”, perguntou o marido, antes de se virar e dar de cara com o misterioso homem de cabelos azuis e sem boca.
“Argh!”, gritou, assustado.
O homem de cabelos azuis observava a cena em silêncio. Seus olhos refletiam uma tristeza e uma solidão infinitas. Ele continuaria sua jornada solitária, enquanto o casal prosseguia em sua própria caminhada, perturbado pela repentina aparição.
“Mary! Corra!”, o homem gritava com todas as suas forças, implorando para que ela fugisse. Porém, contrariando as súplicas, a mulher não se movia, paralisada pelo ser que a encarava. Seus belos olhos azuis reluziam como joias, hipnotizados pelo terror.
“Por que está parada?! Fuja, Mary!” Mesmo com os gritos desesperados do marido, ela permanecia imóvel, como se não pudesse ouvi-lo. Tarde demais, ele percebeu que algo estava errado.
Sentimentos sombrios tomaram conta do coração dela — pensamentos tristes, vazios e cheios de dor que a afundavam em uma espiral negativa. Finalmente, para pôr fim àquela agonia, ela mordeu a própria língua.
“Por que não vai logo?”, ele a indagou, a voz carregada de frustração e desespero.
“Hã?” Uma voz estranha surgiu na mente dela, confusa e desorientada.
“Sou eu quem está falando.”
Mais uma vez, a voz misteriosa ressoou em sua mente.
“Por quê?”
“Por que está viva? Não está”, a voz respondeu, revelando uma verdade perturbadora.
Só então ela pôde notar que já não estava presa àquele mundo aterrorizante. Seguindo a luz, olhou para trás pela última vez, apenas para ver o estranho desaparecer pelo horizonte, deixando-a com mais perguntas do que respostas.