Hoje chove,
assim como eu.
Os olhos embaçados,
como o vidro da janela,
e o mundo do lado de fora
parece tão distante
quanto tudo aquilo
que um dia me fez querer ficar.
As gotas escorrem pelo vidro,
uma depois da outra,
sem saber onde vão parar.
Às vezes, penso que sou assim,
um acúmulo de coisas não ditas
procurando alguma superfície
onde finalmente desabar.
Os trovões,
esses percorrem
minha mente,
me incapacitando
de alguma forma.
Fazem morada entre os pensamentos,
derrubam as poucas certezas
que ainda tento conservar
e transformam o silêncio
em um lugar insuportável.
Tenho medo de mim mesma.
Depois de uma noite em claro,
havia escuridão para todo o lado,
menos em mim.
Eu era um quarto aceso
quando todas as casas dormiam,
uma janela aberta no inverno,
um corpo que pedia descanso
e uma cabeça que não sabia
como concedê-lo.
A madrugada me conhece
melhor do que muita gente.
Sabe quantas vezes encaro o teto,
quantas perguntas deixo sem resposta,
quantas vezes tento convencer a mim mesma
de que amanhã será diferente,
mesmo sem saber
o que fazer com o hoje.
Hoje chove,
e dentro de mim há uma tempestade
de saberes,
de lembranças que não pedi,
de verdades que não me salvam
e de perguntas que se multiplicam
sempre que encontro uma resposta.
E do que me vale saber tanto,
se o leite estava azedo?
Se não percebi a tempo
aquilo que estava diante dos meus olhos?
Se posso compreender a vastidão do mundo
e ainda assim não compreender
o que acontece dentro de mim?
De que vale conhecer as palavras
se nenhuma parece suficiente
para explicar o cansaço?
De que vale reconhecer as próprias ruínas
se não se sabe por onde começar
a reconstruir a casa?
Há coisas que aprendi nos livros,
outras que aprendi com a dor,
e algumas que preferia
nunca ter conhecido.
Carrego todas comigo,
como quem guarda pedras nos bolsos
e depois se pergunta
por que é tão difícil caminhar.
Sinto-me podre por dentro,
como uma fruta esquecida
no fundo de uma gaveta,
como as folhas que apodrecem
sob a chuva insistente
e já não sabem distinguir
a terra de onde vieram
da terra que as receberá.
Os cortes logo irão cicatrizar,
mas há dores que não obedecem
ao calendário da pele.
Há noites que permanecem,
mesmo quando o sol retorna,
e lembranças que encontram abrigo
nas partes de nós
que ninguém consegue alcançar.
Hoje chove,
e não sei se é o céu
tentando lavar o mundo
ou apenas desabando
sob o peso das próprias nuvens.
Talvez a chuva não tenha respostas.
Talvez apenas caia,
sem precisar justificar
a tristeza de existir.
Observo as poças se formando
junto ao meio-fio,
a terra escura bebendo o temporal,
as pequenas flores curvadas
sob o peso das gotas.
Penso em como até a natureza
tem permissão para parecer cansada,
para perder algumas folhas,
para atravessar o inverno
sem precisar prometer primavera.
E eu, que tanto me cobro,
que transformo cada falha
em uma sentença definitiva,
não sei me conceder
a mesma delicadeza.
Hoje chove,
e como a água benzida que cai do céu,
queria ser eu, então,
apenas lama.
Sem nome,
sem passado,
sem a obrigação de ser alguma coisa.
Queria repousar na terra
sem que ninguém me perguntasse
por que não floresço,
sem que esperassem de mim
uma beleza que não consigo oferecer.
Queria ser apenas matéria,
não pensamento.
Ser chuva,
não tempestade.
Ser chão,
não o peso que carrego sobre ele.
Mas a chuva continua caindo
e eu continuo à janela,
com os olhos embaçados
e os trovões ainda dentro da cabeça.
Hoje chove.
E não sei dizer
se estou triste pelo mundo
ou se o mundo parece triste
porque já não sei olhar para ele
sem encontrar alguma coisa de mim.
Só sei que chove,
que a noite foi longa
e que há um cansaço em meu peito
que não cabe na palavra cansaço.
Hoje chove.
E, por enquanto,
não sei ser nada além
daquilo que a chuva deixou
sobre a terra.