Voltando ao tormento, vejo que tu também estás a sofrer. Há confusões indecifráveis em meus pensamentos, e, agora, tu viraste uma delas. Soltei palavras, pensei em palavras, e quando tentei escrever-te, senti meus olhos desintegrarem-se, meu cérebro enrolar-se, e a confusão acabar por levar-me. Ando a gemer às madrugadas, à procura de meu amor; o mesmo foi-se, e sumiu-se, e vê-lo-ei apenas quando a senhora morte, que a todos busca, vier buscar-me. Se este sentimento fosse a banalidade chamada de amor, sê-lo-ia pela incompetência de meu inconsciente; o mesmo que diz que a vida é inconsistente. Saio eu pelas portas e caminho pelo céu, mas nada encontro lá, a não ser o seu cordel; cordel este que é imaginário, que rima oira com vertigem, diz-me que tenho eu rescendência, entretanto após cinco passos, acusa-me de fraudulência, pois toda a sua farsa é, para ele, coerência. Sei que devo explicações à lua e aos céus justificações. Contudo, é verídica uma coisa: o amargo transformou-se em doce e o sal diluiu-se no sangue de minha alma; gozá-la-ei, minha benevolência, pois tu és benéfica e sempre serás minha ingênua fraudulência.
— David Raul.