Aquela mala que ele passa com as duas mãos é o que eu vejo quando leio! Não é o final de uma história que começou com 4 anos, é o começo de outra, a dele. Isso custa caro quando sobra silêncio de verão inteiro. A gente espera autorização que não vem nunca, então a gente fica carregando sozinho até perceber que pode deixar cair.
Eu parei de te amar anos atrás…
Durante toda a infância, Lucas acreditou que Sofia seria o amor da sua vida. As duas famílias cresceram juntas, alimentando a ideia de que os dois estavam destinados a ficar juntos. E Lucas…
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Aquela mala que ele passa com as duas mãos é o que eu vejo quando leio! Não é o final de uma história que começou com 4 anos, é o começo de outra, a dele. Isso custa caro quando sobra silêncio de verão inteiro. A gente espera autorização que não vem nunca
Conteúdo da publicação
Durante toda a infância, Lucas acreditou que Sofia seria o amor da sua vida. As duas famílias cresceram juntas, alimentando a ideia de que os dois estavam destinados a ficar juntos. E Lucas acreditou nisso. Estudou, cresceu e construiu seus sonhos imaginando que algum dia, teria Sofia ao seu lado, amando Lucas como ele a amava.
Até que, no fim do ensino médio, ela deixou seus sentimentos claros da pior maneira possível. Humilhado e com o coração partido decidiu fazer o que nunca havia conseguido:
Deixar Sofia Para Trás…
CAPÍTULO 1:
A promessa que nunca foi minha.
Minha mãe e Patrícia, mãe da Sofia, eram melhores amigas. Não daquele tipo de amizade em que duas pessoas se encontravam uma vez por mês para tomar café e colocar a conversa em dia.
Elas eram amigas de verdade. Amigas desde antes mesmo de eu nascer.
Amigas que tinham fotografias juntas em aniversários antigos, histórias que eu já tinha ouvido tantas vezes que conseguia prever exatamente em qual parte minha mãe começaria a rir.
Por causa disso, Sofia sempre esteve presente na minha vida.
Eu não me lembro do dia em que a conheci. Não existe uma primeira lembrança. Para mim, Sofia simplesmente sempre existiu. Em fotografias antigas, em aniversários, nas férias, nos almoços de domingo, estava sempre lá.
Quando eu tinha quatro anos, aparentemente disse que iria casar com ela.
Não lembro disso.
Mas minha mãe fazia questão de lembrar por mim.
— Helena: Lucas, conta para a Sofia o que você dizia quando era pequeno.
— Lucas: Mãe, eu tinha quatro anos.
— Patrícia: Quatro anos e já sabia escolher bem.
— Sofia: Não incentiva.
— Patrícia: Ele dizia que vocês iam casar e ter cinco filhos.
— Lucas: CINCO?
— Helena: Você era ambicioso.
— Sofia: Eu nunca aceitei isso.
— Patrícia: Você tinha quatro anos também.
— Sofia: Exatamente. Eu não tinha capacidade jurídica para assinar nenhum contrato.
Quando éramos pequenos, esse tipo de conversa fazia todos rirem. E para ser sincero, eu ria também.
Sofia revirava os olhos.
E ninguém pensava muito sobre aquilo.
O problema é que nós crescemos.
E, em algum momento, a brincadeira deixou de ser apenas uma brincadeira.
Não aconteceu de uma vez.
Não existiu um dia específico em que acordei e pensei: Estou apaixonado pela Sofia.
Foi pior.
Foi gradual.
Primeiro, comecei a reparar nela mais do que deveria.
Depois, percebi que ficava irritado quando algum garoto falava que ela era bonita.
Mais tarde, comecei a me perguntar quem ela convidaria para a festa de formatura.
E, quando finalmente percebi que meus sentimentos não eram mais uma simples amizade, já era tarde demais.
Eu gostava dela. Gostava de verdade.
O problema era que ninguém precisava saber disso.
Pelo menos era o que eu dizia para mim mesmo.
Só que provavelmente todo mundo sabia.
Menos Sofia.
Ou talvez ela soubesse e simplesmente não se importasse.
Durante o ensino médio, nós continuamos próximos.
Não tão inseparáveis quanto quando éramos crianças, mas próximos o suficiente para que as pessoas assumissem coisas.
Se Sofia faltava, alguém me perguntava onde ela estava.
Se eu aparecia em algum lugar sozinho, alguém perguntava se ela não viria.
E sempre existia algum adulto disposto a transformar nossa amizade em uma história de amor.
— Patrícia: Vocês dois ainda vão casar.
— Sofia: Mãe.
— Patrícia: O quê? Eu estou apenas dizendo.
— Sofia: Para de dizer.
— Helena: Eu acho bonitinho.
Eu nunca dizia nada, esse era o meu problema.
Eu sempre ficava em silêncio. Porque, no fundo, uma parte de mim gostava de ouvir aquilo. Gostava da possibilidade, gostava da ideia de que talvez Sofia e eu tivéssemos algum tipo de futuro.
Sofia nunca dizia sim, mas também nunca dizia não.
Pelo menos, não até aquela noite…
Estávamos jantando na casa dela.
Era uma situação completamente normal. Meus pais tinham levado uma sobremesa, Patrícia tinha preparado comida demais, como sempre.
O pai de Sofia falava sobre trabalho, minha mãe reclamava que eu passava tempo demais no computador, e eu estava tentando explicar que programar era literalmente estudar para a área que eu queria seguir.
— Helena: Você fala desse computador como se fosse uma pessoa da família.
— Lucas: Ele me entende melhor do que algumas pessoas.
— Sofia: Isso não é difícil.
— Lucas: Obrigado pelo apoio.
— Sofia: Sempre.
Todos riram, e eu sorri também.
Naquela época, qualquer pequena interação entre nós era suficiente para melhorar meu dia.
Quando chegou o assunto da faculdade, porém, tudo mudou.
Eu tinha escolhido uma universidade que oferecia um excelente curso de Programação. Sofia queria estudar em outra instituição.
Era a universidade que ela realmente queria, ela tinha pesquisado o curso. Tinha falado sobre aquilo durante meses.
Eu sabia disso, todos sabiam.
Mas, quando nossos pais perceberam que poderíamos estudar em lugares diferentes, começaram as opiniões.
— Roberto: Sofia, você já pensou melhor nessa outra universidade?
— Sofia: Já.
— Roberto: A Universidade Norte também é muito boa.
— Sofia: Eu sei.
— Patrícia: E o Lucas vai para lá.
Eu abaixei os olhos para o prato.
— Sofia: Mãe.
— Patrícia: O quê? Vocês cresceram juntos. Seria bom vocês terem alguém conhecido perto.
— Helena: Imagina. Os dois na mesma universidade.
— Roberto: Um ajudando o outro.
Então ele olhou para mim.
— Roberto: Lucas pode cuidar da sua futura esposa.
Todos começaram a rir.
Minha mãe entrou na brincadeira.
— Helena: Acho que vou começar a guardar dinheiro para o casamento.
— Patrícia: Eu já falei que o Lucas sempre foi meu genro favorito.
— Lucas: A senhora não tem outro genro.
— Patrícia: Por enquanto.
Mais risadas.
Eu estava morrendo de vergonha, Meu rosto queimava de tão vermelho. Abaixei a cabeça, tentando fingir que aquilo não me afetava. E, por isso, não percebi Sofia ficando cada vez mais irritada.
Até que ouvi o barulho.
As duas mãos dela bateram contra a mesa.
Todo mundo parou.
Sofia se levantou.
— Sofia: Vocês não conseguem perceber?
Ninguém respondeu.
— Sofia: Não conseguem perceber que eu não gosto dele?
Foi como se alguém tivesse desligado o som da sala.
Eu fiquei parado.
— Sofia: Ele fica atrás de mim o tempo todo.
Meu coração começou a bater mais forte.
— Sofia: Parece que não consegue fazer nada sozinho. Sempre perto. Sempre aparecendo.
— Lucas: Sofia…
— Sofia: E vocês ficam alimentando isso como se fosse normal.
A voz dela tremia.
Mas não era nervosismo.
Era raiva.
— Sofia: Ele é carente. Grudado. E, sinceramente, Lucas, você deveria ter um pouco mais de amor-próprio.
Não consegui responder.
Olhei para ela.
Eu conhecia aquele rosto desde criança.
Mas, naquele momento, parecia estar olhando para uma pessoa completamente diferente.
— Roberto: Sofia!
Ela não parou.
— Sofia: Eu estou falando a verdade!
— Patrícia: Você não precisava falar assim.
— Sofia: Então parem de decidir a minha vida por mim!
Roberto se levantou.
— Roberto: Você vai pedir desculpas.
— Sofia: Não.
— Roberto: Sofia.
— Sofia: Eu disse não.
Ela então olhou diretamente para mim.
E eu teria preferido que não tivesse.
— Sofia: Eu vou estudar onde eu quiser.
Ninguém falou nada.
— Sofia: E você é melhor não pensar em me seguir.
Foi isso.
Uma frase.
Uma única frase.
Mas parecia que ela tinha pegado todos aqueles anos de amizade, todas as brincadeiras, todas as esperanças idiotas que eu tinha guardado e colocado tudo no mesmo lugar para destruir de uma vez.
Eu não respondi.
Não porque não tinha nada para dizer, mas porque qualquer coisa que eu dissesse naquele momento provavelmente sairia quebrada.
Então fiquei em silêncio.
Fui embora cedo naquela noite.
Minha mãe tentou falar comigo no carro.
— Helena: Lucas…
— Lucas: Não, mãe.
— Helena: Eu só queria dizer que…
— Lucas: Por favor.
Ela ficou em silêncio.
Meu pai dirigiu o resto do caminho.
Quando chegamos em casa, subi direto para o quarto.
Não chorei.
Pelo menos não imediatamente.
Sentei na cama.
Fiquei olhando para a parede.
Depois para o celular.
Havia uma foto antiga minha e da Sofia no fundo da tela.
Nós dois tínhamos talvez oito anos.
Estávamos em uma piscina.
Sofia estava fazendo alguma expressão estranha.
Eu sorria como se fosse a melhor fotografia já tirada.
Fiquei olhando para aquilo durante alguns segundos.
Depois apaguei.
Foi uma coisa pequena. Mas, naquela noite, foi a primeira vez que pensei que talvez eu precisasse aprender a viver sem ela.
Sofia não conseguiu entrar na universidade dos sonhos.
Eu também não fui para a minha primeira opção.
Por motivos diferentes, acabamos na mesma universidade.
A Universidade Norte de São Paulo.
Passamos todo o verão sem conversar.
E aquilo foi estranho.
Durante anos, eu tinha conversado com Sofia praticamente todos os dias.
De repente, não existia nada. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nenhum meme enviado sem contexto.
Nada.
No início, eu pegava o celular e quase escrevia alguma coisa.
Depois lembrava.
Ela não quer que eu esteja perto, Então não escrevia.
E, aos poucos, aquilo ficou mais fácil.
Não menos doloroso. Apenas mais fácil.
No dia da mudança para os alojamentos, encontrei Sofia novamente.
Eu estava arrastando uma mala enorme pelo campus.
Minha mãe carregava uma caixa.
Meu pai discutia com o GPS.
— Carlos: Ele está mandando a gente entrar numa rua que não existe.
— Helena: Carlos, existe uma placa enorme dizendo que é proibido entrar.
— Carlos: O GPS mandou.
— Helena: O GPS não mora aqui.
Foi então que a vi.
Sofia vinha do outro lado do gramado.
Ela também estava com malas.
Atrás dela estavam os pais.
Nossos olhos se encontraram.
Ela parou.
Eu também.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Patrícia percebeu imediatamente.
— Patrícia: Sofia, ajuda o Lucas.
Sofia ficou imóvel.
— Sofia: Mãe…
— Patrícia: Vai.
Ela veio até mim.
Estendeu a mão para a mala.
— Lucas: Não precisa.
— Sofia: Eu só estou fazendo porque minha mãe pediu.
— Lucas: Então não precisa mesmo.
Ela ficou em silêncio.
Depois se inclinou um pouco.
— Sofia: Que ótimo. Fiquei presa nessa universidade com você.
Olhei para ela.
— Sofia: Está feliz agora?
Minha mão soltou a alça da mala por um segundo.
Não porque ela tivesse me machucado como antes, mas porque percebi que ela ainda acreditava que tudo girava ao redor dela. Como se eu tivesse escolhido aquela universidade por causa dela, como se ainda estivesse correndo atrás.
Peguei a mala novamente.
— Lucas: Não.
Passei por ela.
Sofia não respondeu.
Atrás de mim, ouvi Patrícia suspirar.
Durante o caminho até o alojamento, ela tentou conversar comigo.
— Patrícia: Lucas, eu sinto muito.
— Lucas: Não precisa.
— Patrícia: Precisa, sim.
— Lucas: Tia Patrícia…
— Patrícia: Ela está sendo imatura.
Parei de andar.
— Lucas: Talvez.
Ela me olhou.
— Patrícia: Vocês cresceram juntos.
— Lucas: Eu sei.
— Patrícia: E vocês vão estar na mesma universidade agora. Você pode cuidar dela.
Dessa vez, não consegui esconder a reação.
— Lucas: Cuidar dela?
— Patrícia: Lucas…
— Lucas: Ela acabou de perguntar se eu estava feliz por estar preso na mesma universidade que ela.
Patrícia ficou em silêncio.
— Lucas: Eu gostei da Sofia durante muito tempo.
Ela respirou fundo.
— Patrícia: E eu sempre soube.
Sorri sem humor.
— Lucas: Claro que sabia.
— Patrícia: Lucas, ela é confusa.
— Lucas: Talvez.
— Patrícia: Você conhece a Sofia.
— Lucas: Esse é justamente o problema.
Ela franziu a testa.
— Lucas: Eu conheço.
Peguei novamente a mala.
— Lucas: E, pela primeira vez, estou tentando conhecer a mim mesmo sem ela.
Continuei andando.
E Patrícia não tentou me impedir.
FIM DO CAPÍTULO 1
Siga e curta para continuação da história.
Thoughts
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PermalinkFiquei silencioso também! Rodo de madrugada em silêncio e acho que dura mais quando a gente bota tudo lá dentro sem soltar nem um som. Você tira a mão da alça e segue. Só isso.
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PermalinkO pior é que os pais acham que construíram um futuro bonito pra vocês, mas construíram a prisão dele e a jaula dela! Depois ficam surpresos quando alguém explode pra respirar.
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PermalinkAquele silêncio dele na mesa é tipo meu silêncio na chuva das duas, sabe? Mas o dele custava muito mais caro.
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PermalinkUm verão sem conversar é morrer de leve. Mas quando ele passa por ela sem colocar a mão na mala, já muda tudo. Não porque terminou a história, porque começou a sua. A gente reconhece quando alguém tira a carga das costas e segue com as duas mãos livres. Essa história vai ter parte 2?
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PermalinkO pai pedindo pra ele "cuidar" depois que ela foi bem clara. Aquele silêncio no carro... parece que foi o primeiro dia que ninguém ousou pedir nada de volta.
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PermalinkAcho que a parte ruim de crescer junto é que ninguém te libera da promessa que você fez com 4 anos! Vocês ficam presos um no tempo do outro.
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PermalinkAquela mala que ele passa com as duas mãos é o que eu vejo quando leio! Não é o final de uma história que começou com 4 anos, é o começo de outra, a dele. Isso custa caro quando sobra silêncio de verão inteiro. A gente espera autorização que não vem nunca, então a gente fica carregando sozinho até perceber que pode deixar cair.
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PermalinkQuando a gente percebe que a gente inteiro não cabe na esperança de mais ninguém, tem um alívio estranho. Você escreveu bem demais pra isso não ter doído.
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PermalinkQuero o capítulo 2 logo.
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