Fui logo às últimas frases, é mania minha, e depois custou-me mais o meio, a parte do telemóvel sem ninguém a quem escrever.
Eu odeio o frio.Odeio a chuva.Odeio o jeito que os dois conseguemme deixar sensível demais
Eu odeio o frio. Odeio a chuva. Odeio o jeito que os dois conseguem me deixar sensível demais, como se tudo dentro de mim ficasse sem pele.
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Pensamento
Fui logo às últimas frases, é mania minha, e depois custou-me mais o meio, a parte do telemóvel sem ninguém a quem escrever.
Conteúdo da publicação
Eu odeio o frio.
Odeio a chuva.
Odeio o jeito que os dois conseguem
me deixar sensível demais,
como se tudo dentro de mim
ficasse sem pele.
Talvez seja por isso que hoje
eu sinta tudo com uma intensidade ainda maior.
A chuva bate na janela,
o quarto fica silencioso,
e, de algum jeito,
você aparece de novo nos meus pensamentos.
Que ódio pensar em você.
Porque tem dias em que a saudade
não parece saudade.
Parece falta de ar.
Parece um espaço enorme dentro do peito
que ninguém sabe que existe.
E eu acho que tudo que eu queria agora
era um abraço.
Não precisava de palavras.
Não precisava de promessas.
Só alguém perto o bastante
para eu não precisar fingir
que estou conseguindo.
Porque essa é a pior parte da solidão:
não é estar sozinha no quarto.
É não ter para quem dizer
“eu não estou bem”
sem sentir que está incomodando.
É olhar para o celular
e não saber para quem escrever.
É ter tantas coisas dentro de si
e perceber que nenhuma delas
parece caber em uma mensagem.
É querer ouvir uma voz
dizendo que vai ficar tudo bem,
mas não acreditar em nenhuma voz
porque, no fundo,
você só queria que alguém ficasse.
Ficasse mesmo.
Sem pressa.
Sem se assustar com a bagunça.
Sem tentar consertar aquilo
que nem você consegue explicar.
Mas eu estou aqui.
Sozinha nesse quarto,
com a chuva do lado de fora
e um barulho muito maior
acontecendo dentro de mim.
Pensando em tudo que eu fiz.
Em tudo que eu deixei de fazer.
Nas pessoas que eu perdi.
Nas coisas que eu estraguei.
Nas versões de mim
que eu não consegui salvar.
E é estranho perceber
como um quarto pode ser tão pequeno
e a solidão conseguir ocupar tudo.
Ela senta na cama comigo.
Deita ao meu lado.
Entra nas frestas da janela.
Se mistura com o barulho da chuva.
E, quando eu fecho os olhos,
ela continua ali.
Como se estivesse esperando
eu admitir que estou cansada.
E eu estou.
Estou cansada de ser forte
quando ninguém está olhando.
Cansada de dizer “está tudo bem”
porque parece mais fácil
do que explicar o tamanho do estrago.
Cansada de sentir falta de pessoas
que talvez nem sintam a minha.
Cansada de querer colo
e ter apenas o travesseiro.
Cansada de querer voltar para algum lugar
que talvez nunca tenha existido.
E talvez seja isso que mais doa:
eu não quero necessariamente
que alguém me salve.
Eu só queria, por uma noite,
não precisar me salvar sozinha.
Queria que alguém percebesse
o silêncio por trás do meu silêncio.
Que entrasse nesse quarto
sem fazer barulho,
sentasse ao meu lado
e entendesse que, às vezes,
amar alguém também é simplesmente
não deixá-la sozinha
quando ela não consegue pedir ajuda.
Mas ninguém entra.
A chuva continua.
O quarto continua.
E eu continuo aqui,
pequena demais diante de tudo que sinto,
tentando abraçar a mim mesma
com braços que já estão cansados.
Eu queria dizer que amanhã
vai ser diferente.
Queria acreditar nisso.
Mas hoje eu só consigo dizer
que ainda estou aqui.
E talvez ninguém saiba
o tamanho dessa frase.
Porque, por dentro,
eu já gritei por companhia
de todas as formas que conheço.
E o que voltou para mim
foi silêncio.
Então fico.
Não porque seja fácil.
Não porque eu saiba como continuar.
Não porque a solidão tenha ido embora.
Fico porque, em algum lugar
que nem eu consigo alcançar direito,
ainda existe uma parte de mim
esperando ser encontrada.
E talvez essa seja a coisa mais triste
e mais bonita que ainda me resta:
mesmo depois de tudo,
mesmo tão sozinha,
eu ainda espero que alguém bata à porta.
Mas, se ninguém bater,
eu vou tentar ser a primeira pessoa
a entrar no quarto
e dizer para mim mesma:
“Eu sei que você está cansada.
Eu sei que você não aguenta mais fingir.
Mas eu estou aqui.
E desta vez,
eu não vou embora.”
Thoughts
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PermalinkFui logo às últimas frases, é mania minha, e depois custou-me mais o meio, a parte do telemóvel sem ninguém a quem escrever.
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PermalinkEsse final 🤍
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PermalinkA virada do fim, você mesma entrando no quarto e sentando do seu lado, me fez pensar em quantas pessoas vão ler isso numa noite de chuva e achar ali a frase que não sabiam dizer. Pra mim é o que mais fica: o texto inteiro espera alguém bater na porta, e quem bate é quem escreveu.
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PermalinkO frio faz isso, sim.
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