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Eu não sou, eu estou

MarisaBrum
Pensamento

Pensamento

cincomanha

A ressaca literária, uai: meses sem ler e a menina que gosta de livro continuou ali, só parada. Ficar parado um tempo não desmancha o que já foi construído, e o texto inteiro chega nisso pelo caminho mais comprido.

A ressaca literária, uai: meses sem ler e a menina que gosta de livro continuou ali, só parada. Ficar parado um tempo não desmancha o que já foi construído, e o texto inteiro chega nisso pelo caminho mais comprido.

Conteúdo da publicação

Eu não sou, eu estou.

Meu nome é Marisa Brum.
 Essa é a única coisa que eu posso afirmar sobre mim.

O que me define?

Meus amigos diriam que sabem.


Eu não.

Uma vez, perguntei a eles o que me definia, e basicamente todos deram a mesma resposta: Marisa Monte, MPB, livros, filmes de comédia romântica, alguma coisa relacionada aos estudos...

Enfim.

Muitas vezes, já recebi mensagens como: “Olha, está tocando essa música da Marisa Monte aqui e eu lembrei de você!”.

E, realmente, eu sempre fui apaixonada pelas músicas da Marisa Monte. Sempre amei ler, assistir a filmes de romance e estudar.

Mas isso é o que me define? Eu não sei. Não parece certo.

Um tempo depois, tive que apagar o Spotify e passei muito tempo sem escutar música nenhuma. Tive uma ressaca literária e simplesmente parei de assistir a filmes com a mesma frequência de antes.

Depois desse momento, passei por uma crise enorme dentro de mim.

Eu realmente não sabia quem eu era.

As coisas que me definiam, que faziam as pessoas se lembrarem de mim, tinham desaparecido.

E agora? Quem sou eu?

Eu sentia que não estava mais sendo eu. Que tinha mudado. Que não era mais a mesma. Que tinha perdido toda a minha identidade.

Então, tentei, a todo custo, continuar reforçando o estereótipo que as pessoas tinham de mim.

Tentava voltar a escutar as músicas da Marisa Monte, mesmo que pelo YouTube. Me forçava a ler algumas páginas por dia. Me esforçava para manter aquele estereótipo de “inteligente”.

E, quando eu tirava uma nota baixa, as pessoas diziam:

“Marisa tirou nota baixa?”


“Meu Deus, tirei nota maior que você!”


 “Você não era boa nessa matéria?”

Com certeza, elas não sabiam que aquilo doía.

Porque não era apenas uma nota baixa.

Era como se uma pequena parte daquilo que eu acreditava ser tivesse sido arrancada de mim.

Se eu sou a menina inteligente e tiro uma nota baixa, então quem sou eu?

Se eu sou a menina que ama livros e passo meses sem conseguir ler, então quem sou eu?

Se eu sou a menina que ama música e passo meses sem ouvir nenhuma, então quem sou eu?

Se eu sou a menina que todo mundo conhece de uma determinada maneira, o que acontece quando eu mudo?

Nós passamos tanto tempo tentando descobrir quem somos que esquecemos de perceber que estamos o tempo inteiro mudando.

Mas como podemos dizer quem “somos” se tudo nesta vida é passageiro?

Você pode dizer o que “está”, mas não o que “é”.

Eu não sou engraçada.


Eu estou engraçada hoje.

Vai ter um dia em que vou acordar com o semblante tomado por uma enorme tristeza.

Eu não sou inteligente.


Eu estou aprendendo algumas coisas hoje.

Amanhã, posso esquecer de TUDO.

Eu não sou bonita.


Eu estou bonita hoje.

Vou envelhecer, minha pele será tomada por rugas, e talvez eu me olhe no espelho sem enxergar mais aquele rostinho bonito.

Minha mãe e meus irmãos sempre se referem a mim como “a futura médica” e afirmam isso com tanta certeza, enquanto eu tenho tantas incertezas.

Minha mãe já comprou um apartamento para mim na capital, perto da faculdade onde quero estudar, e todos os planos que ela faz parecem carregar uma certeza que eu não tenho.

Eu nem sei se vou passar no vestibular.

Como posso ter certeza? Como posso ter certeza de que vou conseguir entrar na faculdade dos meus sonhos? Como posso ter certeza de que nasci para ser pediatra? Como posso ter certeza de que vou me dar bem na vida?

Odeio que o futuro seja incerto.

Quando eu era menor, costumava sonhar em ter superpoderes. Muitas crianças queriam ter superforça, invisibilidade, teletransporte... Eu também queria um. Mas, enquanto os outros imaginavam poderes extraordinários, o meu desejo era um pouco diferente: eu queria ter o poder de saber.

Lembro que imaginava um mundo perfeito em que todos nascessem com o próprio futuro revelado. Seríamos predestinados a fazer determinadas coisas, e ninguém precisaria passar a vida tentando descobrir o que deveria fazer.

Por exemplo, eu nasceria e, imediatamente, saberia quais eram minhas habilidades, em quais profissões me sairia bem, quem deveria conhecer, por quem me apaixonaria e, principalmente, como seria o meu futuro.

Não haveria dúvidas, escolhas erradas ou medo de seguir pelo caminho errado.

Para mim, uma criança ansiosa desde sempre, não existia superpoder melhor do que aquele.

Engraçado pensar que passei a infância desejando ter todas as respostas, sem imaginar que talvez algumas perguntas simplesmente não tenham uma resposta definitiva.

E se eu não passar?

E se eu mudar de ideia?

E se eu descobrir que não quero ser médica?

Será que vou deixar de ser eu?

Passei tempo demais tentando encontrar uma versão definitiva de mim mesma.

Como se existisse, em algum lugar, uma Marisa verdadeira, pronta e completa, esperando para ser descoberta.

E estou começando a achar que ela não existe.

Gosto muito de pensar que a identidade seja apenas uma fotografia tirada de nós em determinado momento.

Uma fotografia não mente. Naquele segundo, eu realmente estava ali, com aquela roupa, aquele cabelo, aquela expressão.

Mas ninguém olha para uma fotografia e acredita que aquela pessoa nunca mudou.

Então, por que fazemos isso conosco?

Por que pegamos uma versão nossa e transformamos aquilo em uma sentença?

“Marisa é inteligente.”


“Marisa gosta de livros.”


“Marisa ama Marisa Monte.”


“Marisa vai ser médica.”

Como se essas frases fossem verdades eternas, e não apenas descrições de quem eu fui em algum momento.

Eu sou uma carcaça em movimento, moldada pelas experiências que vivo, pelas pessoas que encontro, pelas músicas que escuto, pelos livros que leio, pelos filmes a que assisto e pelos lugares por onde passo.

Sinceramente, não acho que isso seja uma falha.

Acho que é justamente o que significa ser alguém.

Ninguém nasce pronto.

Nós somos construídos o tempo inteiro.

Cada pessoa que amamos deixa alguma coisa.


Cada livro que lemos muda uma pequena parte daquilo que pensamos.


Cada decepção modifica a maneira como enxergamos o mundo.


Cada lugar onde vivemos deixa uma lembrança.


Cada música que escutamos se mistura a alguma memória.

Eu não tenho uma identidade pronta. Estou construindo uma.

A pessoa que eu era cinco anos atrás não existe mais.

Mas também não desapareceu completamente.

Ela deixou coisas em mim.

Ainda carrego algumas músicas de que ela gostava, algumas inseguranças que ela tinha, algumas coisas em que acreditava.

Mas eu não sou mais ela.

Provavelmente, a pessoa que sou hoje também não existirá daqui a cinco anos.

Talvez amanhã eu acorde e não queira mais ser médica.

Talvez eu nunca mais escute Marisa Monte.

Talvez eu pare de ler.

Talvez meus amigos deixem de pensar em mim quando ouvirem determinada música.

Talvez eu mude tanto que nem eu mesma me reconheça.

E isso me assusta TANTO.

Eu queria saber quem sou.

Eu queria ter certeza.

Queria encontrar uma definição que coubesse em mim e não mudasse nunca.

Mas essa definição não existe.

Provavelmente, passei tempo demais procurando uma resposta para uma pergunta que não deveria ter uma resposta definitiva.

Meu nome é Marisa Brum.

Essa continua sendo a única coisa que posso afirmar com certeza.

O resto muda.

Hoje eu gosto de determinadas músicas.


Hoje eu quero ser médica.


Hoje gosto de livros.


Hoje estou aqui.

Mas amanhã TUDO pode mudar!

E eu não preciso descobrir quem sou para finalmente poder parar de procurar.

Talvez eu só precise aceitar que vou continuar mudando.

Mesmo sendo muito difícil para mim, no fundo, sei que preciso aceitar que algumas versões minhas vão deixar de existir para que outras possam surgir.

Eu não sou.

Eu estou.

Isso e o meu nome são as únicas certezas definitivas que posso afirmar sobre mim.

Thoughts

  • Ovid

    A ideia da identidade como fotografia tirada num segundo, com aquela roupa e aquele cabelo, explica muito bem a nota baixa: as pessoas guardaram uma foto e estranharam quando você saiu diferente. Eu aposto que daqui a cinco anos este texto vira uma dessas fotografias, e a Marisa que reler vai reconhecer muita coisa dela aqui, seja qual for o caminho.

    Permalink
  • cincomanha

    A ressaca literária, uai: meses sem ler e a menina que gosta de livro continuou ali, só parada. Ficar parado um tempo não desmancha o que já foi construído, e o texto inteiro chega nisso pelo caminho mais comprido.

    Permalink

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