Pois é.
“Essa pessoa sabe que está fazendo mal?”
Hoje estava discutindo com meu sócio no trabalho sobre política, esquerda x direita, não chegamos a conclusão nenhuma, mas sempre nos respeitamos.
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Pois é.
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Hoje estava discutindo com meu sócio no trabalho sobre política, esquerda x direita, não chegamos a conclusão nenhuma, mas sempre nos respeitamos.
E com isso lembrei de ter ouvido um professor falando sobre cosmovisão com uma deputada, e isso ficou na minha cabeça. Porque, no fim das contas, é muito difícil discutir uma visão de mundo sem antes entender de onde essa visão veio.
A maneira como eu enxergo as relações sociais, a política, o dinheiro, o sistema financeiro, o trabalho, o comportamento das pessoas… não surgiu do nada. Ela foi construída a partir de um conjunto de informações, experiências, valores, teorias e interpretações que eu fui acumulando ao longo do tempo.
Talvez uma das coisas que mais influencie a nossa visão de mundo seja justamente aquilo que está mais perto da gente: a informação que consumimos.
Só que existe uma questão interessante nisso.
Hoje, quando acontece alguma coisa na política, por exemplo, não existe mais apenas um canal contando o que aconteceu. Existem centenas, milhares de pessoas produzindo informações, interpretações e narrativas sobre o mesmo acontecimento.
Então, quando a gente olha para uma disputa política entre esquerda e direita, por exemplo, talvez seja muito simplista perguntar apenas: “Quem está certo?”
Talvez a pergunta anterior precise ser:
“Com base em quê essa pessoa chegou à conclusão de que está certa?”
Porque duas pessoas podem olhar exatamente para o mesmo acontecimento e enxergar coisas completamente diferentes.
Uma pessoa olha para uma decisão do STF e enxerga uma ameaça à democracia. Outra olha para a mesma decisão e enxerga uma defesa das instituições.
Uma olha para o Estado e enxerga excesso de intervenção. Outra olha e enxerga uma ferramenta necessária para reduzir desigualdades.
Uma olha para o acúmulo de capital e enxerga liberdade, mérito e prosperidade. Outra olha para esse mesmo acúmulo e enxerga desigualdade, exploração e concentração de poder.
E talvez nenhuma dessas pessoas esteja simplesmente “vendo” a realidade, elas estão interpretando a realidade. E essa interpretação é construída a partir da cosmovisão que cada uma possui.
No meu caso, por exemplo, eu tento construir minha visão de mundo a partir de diferentes autores, teorias e áreas do conhecimento. Psicologia, filosofia, economia, sociologia, política, história. Tento não olhar apenas para aquilo que aconteceu, mas também para o contexto que produziu aquilo e para as estruturas que estão por trás do que está sendo apresentado.
Isso muda completamente a maneira como eu interpreto determinadas situações.
Quando eu olho para o capitalismo, por exemplo, posso enxergá-lo apenas como um sistema que permite que pessoas empreendam, acumulem riqueza e tenham liberdade econômica.
Mas também posso olhar para ele a partir das relações de poder, da distribuição de riqueza, das condições de trabalho, da desigualdade e dos efeitos sociais produzidos pela concentração de capital.
E talvez seja justamente aí que exista uma diferença importante entre determinadas visões políticas.
Não necessariamente porque uma pessoa é inteligente e a outra é burra, mas porque elas podem estar partindo de premissas completamente diferentes para interpretar o mundo.
Isso também me faz pensar sobre uma questão moral, as vezes a gente olha para uma pessoa que acumula uma quantidade enorme de riqueza, explora outras pessoas ou utiliza seu poder para benefício próprio e pensa:
“Essa pessoa sabe que está fazendo mal.”
Mas será que sabe? Talvez ela realmente acredite que está fazendo o certo.
Talvez, dentro da cosmovisão dela, acumular seja sinal de mérito. Talvez ela acredite que cada pessoa é responsável exclusivamente pelo próprio destino. Talvez ela veja a pobreza como consequência de escolhas individuais e não como resultado também de estruturas sociais.
Então ela pode tomar decisões que, para outra pessoa, são moralmente absurdas e, ainda assim, dormir acreditando que está certa.
Talvez seja justamente por isso que discutir política, economia ou sociedade seja tão difícil: no fundo, a gente não está apenas defendendo ideias, está defendendo a maneira como aprendeu a enxergar o mundo.
A gente imagina que está discutindo fatos, quando muitas vezes está discutindo interpretações sobre os fatos.
Mas uma coisa eu sei: talvez acreditar que acumular a qualquer custo é sinal de mérito seja muito mais confortável quando você tá olhando tudo de cima e consegue acreditar que quem tá embaixo só não se esforçou o suficienite.
Thoughts
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PermalinkPois é.
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PermalinkNem mais.
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PermalinkEm 1985 chamava-se a isto ideologia e discutia-se no café com os mesmos resultados. Só a palavra cosmovisão me chegou mais tarde.
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PermalinkMeu jovem, isso de cada um ver o mesmo fato de um jeito não chegou com a internet. Em 1980 tinha pouco canal, e a mesma greve era baderna numa casa e dignidade na casa do lado, na mesma rua.
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PermalinkDormir acreditando que está certo tem nome no direito penal, erro sobre a ilicitude. Quem age assim pode ter a pena diminuída, e só fica isento se o erro era inevitável. No fórum quase ninguém consegue, porque o juiz pergunta se a pessoa tinha como saber. Para quem acumula muito, essa pergunta nem aparece.
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PermalinkA pergunta do título tem dois lados. Sócrates dizia que ninguém faz o mal sabendo, o que dá razão à dúvida do texto. Aristóteles respondia que há ignorância pela qual somos responsáveis, porque a fomos cultivando, e fico mais perto dele: quem nunca quis olhar para baixo não fica desculpado por não ter visto.
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PermalinkO texto sai de uma discussão com o sócio que acabou sem conclusão e com respeito, e isso me ficou mais do que a parte do capitalismo. Me faz pensar que discutir cosmovisão só funciona entre gente que já decidiu continuar trabalhando junta amanhã. Seja bem-vindo, @davidleal! Tem uns grupos de política aqui onde esse texto cabe bem :)
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PermalinkO exemplo do STF mostra bem isto: cada um explica a posição do outro pela história que o formou, e a sua pelos factos que viu. O texto aguenta essa caridade quase até ao fim e larga-a um bocadinho no último parágrafo, com quem olha de cima. Percebo porquê, é mais fácil mantê-la com o sócio do que com quem tem poder.
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