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Eloquência da Fome - Parte 4

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— Desculpe-me, Render... é difícil discutir isso comigo. Liberdade e fome...

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Pensamento

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Ovid

A Ceres jejuando antes de cada entrevista pra falar de fome com a barriga fazendo barulho ao vivo, isso ficou na minha cabeca. Me fez pensar em quanto discurso sobre fome a gente ouve de quem nunca pulou um almoco. Meu palpite e que ela levou a historia d

A Ceres jejuando antes de cada entrevista pra falar de fome com a barriga fazendo barulho ao vivo, isso ficou na minha cabeca. Me fez pensar em quanto discurso sobre fome a gente ouve de quem nunca pulou um almoco. Meu palpite e que ela levou a historia da manjedoura ja pronta pra entrevista. Valeu por trazer a serie pra ca!

Conteúdo da publicação

— Desculpe-me, Render... é difícil discutir isso comigo. Liberdade e fome...

Mesmo que eu use esse argumento da fome, a liberdade precisa entender que, sem responsabilidade, não existe comida na mesa.

Sei que, às vezes, alguns reviram os olhos. Ou dão aquele sorriso enviesado... Como posso discutir liberdade com estômagos de milhões de pessoas que estão vazios?

É fácil revirar os olhos com o estômago cheio. Fica corriqueiro para quem sempre teve alimento farto à mesa.

Eu tenho fome de matar a fome.

Faço jejuns sempre que tenho discursos ou entrevistas, para ter a eloquência da fome.

A origem de Mãe Ceres veio do primeiro ronco de seu filho.

Uma penitência nobre.

Eu dou da minha boca aos meus filhos. Sou a última a comer em Ceres.

Suportar, Render... suportar é real. Mais concreto que a fé.

Tenho mais fome do que fé.

Mãe Ceres não precisa de fé.

Precisa de filhos.

Filhos que suportam Ceres.

Estes são os filhos de Ceres.

O barulho da troca de ar cessa lentamente, como se a cidade inteira rezasse.

A câmera principal chora a solução em silêncio.

— Água, meu filho... está bem?

Render permanece em silêncio.

Foram as palavras mais sinceras que já ouviu.

Naquele instante, a liberdade parecia se vingar de quem não merecia a liberdade.

Estômagos cheios e mentes vazias pareciam ser atualizados como um software.

O silêncio da compreensão concreta da fome.

O que é fome.

E o que é a liberdade abstrata.

Render continua.

— Mãe Ceres... a senhora se considera uma boa mãe?

Neste instante, a sala está acústica novamente.

Um som único.

Um grunhido.

Um som mais horrível que uma bomba atômica caindo.

Um ruído comum, que todos nós temos.

Um ruído que a liberdade nunca terá.

Era o estômago de Mãe Ceres.

O jejum.

A câmera balança um pouco.

Aquele ruído, captado pelos microfones, faz o câmera chorar em silêncio e balançar o corpo, tentando conter o choro.

— Não se preocupe, Render.

Uma leve risada.

— Estou bem... vou continuar.

Todos ali ficam atônitos diante de Mãe Ceres. Por um instante, pensaram que ela desabaria.

— Todos os dias me pergunto isso... Sou tão humana quanto qualquer mãe.

Ser mãe é ter o primeiro contrato social biológico com um filho. Nós nos alimentamos, nos protegemos e damos propósito uns aos outros.

Olho para a cidade à noite. Vejo tudo funcionando.

Mesmo assim, eu duvido todos os dias se sou uma boa mãe.

Sempre quero mais.

— Não se preocupe. Eu me alimento. Como, descanso... mas só depois de todos estarem satisfeitos.

Meus filhos primeiro.

Depois, eu.

Render permanece olhando para ela.

— E por que, Mãe, duvida?

Ceres fica em silêncio por alguns segundos.

— Há um senhor que nasceu em uma terra distante. Foi caçado desde que nasceu, ainda em uma manjedoura. Sua família fugiu para que não o matassem. Mesmo assim, sua família continuou falando a verdade diante daqueles que queriam destruí-lo.

Ela respira.

— Foi recusado até mesmo em um quarto. Ficou em um estábulo. E ainda eram imigrantes.

A sala permanece em silêncio.

— Cresceu e ensinou o amor ao próximo. Não teve bens. Não teve riquezas. Não teve uma casa. Andou entre ladrões, leprosos e meretrizes.

Ceres baixa os olhos por um instante.

— No final, foi crucificado.

Uma pausa.

— E, em meio à dor, duvidou que seu Deus o havia abandonado... mas não deixou de acreditar Nele.

Ela olha diretamente para Render.

— Render, meu filho... você acha que eu não duvido?

Silêncio.

— Deuses e profetas ensinam algo que nenhum ser humano consegue compreender completamente. Não que eu compreenda... mas eu duvido.

Uma pequena pausa.

— Todos os dias.


Thoughts

  • Ovid

    A Ceres jejuando antes de cada entrevista pra falar de fome com a barriga fazendo barulho ao vivo, isso ficou na minha cabeca. Me fez pensar em quanto discurso sobre fome a gente ouve de quem nunca pulou um almoco. Meu palpite e que ela levou a historia da manjedoura ja pronta pra entrevista. Valeu por trazer a serie pra ca!

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  • mariinha

    Vixe, a barriga dela roncando no meio da entrevista e todo mundo calado, li em voz alta pra minha avo e ela mandou repetir essa parte

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