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Eloquencia da Fome - Parte 2

aleroz
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Naquele momento, Mãe Ceres havia pedido a Al Acram que não pegasse leve com ela.

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mariinha

Vixe, a Mãe Ceres chama o moço de meu filho e dois minutos depois diz que devora, eu ia ficar com medo de fazer a proxima pergunta

Vixe, a Mãe Ceres chama o moço de meu filho e dois minutos depois diz que devora, eu ia ficar com medo de fazer a proxima pergunta

Conteúdo da publicação

Naquele momento, Mãe Ceres havia pedido a Al Acram que não pegasse leve com ela.

Na primeira entrevista, as perguntas tinham ficado rasas. Não por falta de capacidade do jornalista, mas pelas tensões entre os países e pelo delicado equilíbrio político do continente.

Mesmo assim, a entrevista havia repercutido enormemente. Fora capa de revistas, quebrara recordes de vendas e levara o artigo a números de acesso nunca vistos.

Desta vez, Mãe Ceres queria profundidade.

Todos estavam sentados.

Mãe Ceres permanecia plena, imóvel, aguardando.

À frente dela, uma mesa posta com frutas, queijos, vinhos e iguarias de Ceres. Ao lado, um estandarte com a bandeira da República: cinza-escuro, marcada pelas duas chaves cruzadas.

— Vamos entrar no ar em cinco segundos...

— Três... dois... um... no ar.

— Boa noite.

A câmera enquadrava apenas Hermes.

Atrás dele, o mármore negro de Ceres preenchia o cenário. Era a primeira vez que aquele material, abundante em Ceres e extremamente valioso para quem desejava tornar-se eterno, era mostrado ao vivo para todo o continente.

— Meu nome é Hermes Render. Estou aqui com Mãe Ceres.

A câmera mudou.

Mãe Ceres apareceu.

— Boa noite, Render. E boa noite a todos em suas casas, nas ruas e em seus lares. Espero que tenham alimento suficiente para se sustentar... Espero.

Era um comentário quase sarcástico.

Mas não havia maldade.

Era simplesmente a maneira de Mãe Ceres desejar que ninguém passasse fome, que todos tivessem uma casa e algum sossego.

Era difícil debater com ela.

Não porque fosse uma mulher impossível de enfrentar, mas porque discutir a fome de barriga cheia era uma tarefa desconfortável.

Para muitos, falar de fome era banal.

Para ela, não.

Muitos acreditavam que Mãe Ceres se escondia atrás da fome porque não tinha argumentos.

Ela fazia o contrário.

Ela mostrava a fome.

Hermes respirou fundo.

— Estamos aqui com a Mãe Ceres. Mas vou chamá-la apenas de Mãe.

— Sim, meu filho. Pode ser sincero comigo.

Hermes ajeitou os papéis.

— Mãe, Ceres controla a maior produção agrícola do planeta e ainda mantém programas de doação de alimentos. Sei que o racismo não faz parte da agenda política de Ceres. Então por que vocês continuam alimentando os exércitos de Oplan, uma sociedade assumidamente racista e supremacista? Por que não condicionam esse fornecimento a políticas de mudança ou melhorias nas atitudes do governo?

Mãe Ceres ficou alguns segundos em silêncio.

— Render, meu filho... eu não posso mudar a doutrina de um país apenas porque alimento esse país.

Hermes permaneceu atento.

— Mudanças acontecem com o tempo. Não acontecem na velocidade que eu quero. Somos claros quanto a isso: não compartilhamos as mesmas ideias, mas compartilhamos comida.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Meu papel principal é combater a fome.

— Mesmo quando o alimento chega ao exército?

— Mesmo assim.

Hermes franziu a testa.

— Por quê?

— Porque Oplan é uma nação soberana e independente. Provoca suas crises com outros países, toma suas próprias decisões e responde por elas. Temos cidadãos de Oplan vivendo em Ceres. Compartilhamos informações. Existem aberturas significativas entre nossas sociedades.

Uma pequena pausa.

— Não estou dizendo que somos nações amigas.

Mãe Ceres olhou diretamente para a câmera.

— Mas, se o soldado de Oplan tem comida, para mim isso é melhor do que um soldado com fome.

Hermes tentou interromper.

— Mas isso não significa—

— Não significa que concordamos com eles — completou ela. — Significa apenas que a fome não é uma arma que eu aceite usar.

Silêncio.

— Não vim para mudar o mundo, Render. O mundo está constantemente em guerra. A paz, muitas vezes, é apenas um acidente.

Hermes passou para a próxima pergunta.

— Mãe, percebi que está sem a coroa, sem a tiara de cristal. Está usando roupas mais formais hoje.

— Sim. Eu, por incrível que pareça, sou tão humana quanto você.

Hermes sorriu.

— Então por que a máscara?

Mãe Ceres levou a mão ao rosto.

— Sem ela, sou apenas uma cidadã comum de Ceres. Uma mulher. Uma mãe. Com ela...

Ela fez uma pequena pausa.

— Sou o reflexo que todos querem enxergar.

Hermes esperou.

— Sou Ceres. Sou Mãe Ceres. A que alimenta, a que educa...

Ela inclinou o rosto.

— E a que devora.

Hermes ficou alguns segundos em silêncio.

Então avançou.

— Mãe, nós vivemos em um mundo cada vez mais moderno. As pessoas têm mais acesso à informação, mais liberdade, mais possibilidades de escolha. Por que você ridiculariza a liberdade? Por que sufoca seus próprios filhos?

As perguntas haviam mudado.

Já não eram perguntas diplomáticas.

Eram mais pesadas.

Mais diretas.

Hermes queria apertar Mãe Ceres.

E, pela primeira vez naquela noite, Ysa sorriu discretamente.

Thoughts

  • Ovid

    Ela alimenta um exército que despreza porque se recusa a usar a fome como arma, e essa resposta sobre o soldado de Oplan ficou comigo. Vai ver essa frase vira contra ela na parte 3, quando o Hermes chegar de vez na pergunta da liberdade. Muito bom ver o volume 3 andando por aqui, @aleroz!

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  • mariinha

    Vixe, a Mãe Ceres chama o moço de meu filho e dois minutos depois diz que devora, eu ia ficar com medo de fazer a proxima pergunta

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