Eu te dei os melhores conselhos
Esperei de ti mil cortejos
Apostei tudo que tinha
Graças a Deus eu nunca tive nada
Perdoei o imperdoável porque eu também quero ser perdoado
Permaneci solenemente
E te dei segundas chances
Mas você não me alcançou
Uma pena, que havia perdido minha habilidade de voar
Com uma pena eu escrevo os versos que um dia vou cantar
Um jabuti de companhia deva vir a calhar
E você, com certeza não será bem-vinda lá
Amo a sensação de não pertencer a lugar nenhum
Não mereço nada
Eu nunca fui nada
Além de um palhaço contando uma piada de desgraça que tem a cor que te agrada
Sinto muito, Dona Morte, com seu preto e lindo véu
Ainda me lembro do dia que te conheci:
Assustado, olhando pro céu
Estremeci a pele, quase voei de medo
Mas isso eu faço com tudo, inclusive hoje cedo
Sinto muito, Dona Morte, mas no meu lar não vai entrar
É que você é muito fria
E quem amo espero que nunca sinta sua agonia
E eu peço que você cuide muito bem da minha tia
Você me ama, Dona Morte, é um amor de verdade
Mas eu não posso aceita-la, porque eu sou muito covarde
Você nunca irá embora
E embora eu sinta sua falta, só aceitarei isso outrora
Te agradeço, Dona Morte, com você consigo me entender
Me deu a tinta
Que junto de minha pena
Pude então me descrever
Você me mostrou, Dona Morte, todas as cores do agrado
Sinto muito por mim mesmo
Mas pra sempre será meu fardo
Demonstrar o lamento sagrado
E seus cortejos finalmente chegaram
Sepultamentos, típicas coisas que marcaram
Dona Morte, me prometa nunca mais me visitar
Não quero que você se depare com minha família quando eu me personificar
Graças a ti, Dona Morte, eu conheci a boemia
Graças a ti, Dona Morte, eu conheci a poesia
Por tua causa, Senhorita (viúva de todos os seres), eu me tornei um pássaro amarrado
E por tua causa, minha devota, eu pararei de ser tão fraco
E como pode um ser como eu, minúsculo, inútil e sem razão
Receber atenção da existência de algo com tamanha imensidão
Eu não entendo por que você me dá tanta importância
Deve ser porque carrego uma grande ignorância
Minha boemia deve ser o motivo de tudo isso
Talvez você, Dona Morte, também esteja na beira do precipício
Não se preocupe, pois intolerância é algo que nunca sentirei por ti
Você é minha amiga e diferente dos outros, amor é algo que eu sei retribuir
Este poema é eterno
E contigo pra sempre eu posso cantar
Contando todas as estrelas
No céu que te conheci, na beira do luar
Eu poderia viajar para todos os planetas
Me embriagar com todas as cervejas
Derramar todas as gotas d'água
E chorar por todas as minhas mágoas
Mas eu, Dona Morte, sou um pássaro
Eu, Dona Morte, preciso voar
E mesmo que você tenha me dado motivo pra viver
Não é você quem vai me acompanhar
Te agradeço, pois na boemia entendi o que é a razão
É uma inconsequência
Para nossa sobrevivência
Que nos tenciona a emoção
Agora, o pássaro se despede
Pois pelo inferno congelado irá vagar
Buscando um jeito de se tornar o próprio Dante
Buscando uma epopeia que de sua possa chamar
Até mais, Dona Morte
Rainha da Sorte
Devota do ser que,
Infelizmente, para ninguém irá valer
(Até o dia em que morrer)