O Sol amava a Lua em silêncio,
desde antes de compreender o que era amar.
Havia nela uma tristeza tão bonita
que até sua luz parecia querer descansar.
A Lua, por sua vez, amava o Sol de longe,
guardando seu calor na memória da pele,
como quem conhece a existência do fogo,
mas nasceu sob o destino de nunca pertencer a ele.
E assim viveram, amantes do impossível,
separados não pela falta de amor,
mas pelas leis antigas do universo,
que lhes deram o mesmo céu
e lhes negaram o mesmo tempo.
O Sol partia quando ela chegava.
A Lua se escondia quando ele nascia.
E entre um adeus e outro,
cada um aprendia a existir
com a ausência daquilo que mais queria.
Talvez esse fosse o castigo de amarem tanto:
conhecer a existência um do outro
sem poder transformar esse conhecimento
em uma vida compartilhada.
Porque o Sol não podia abandonar o dia,
assim como a Lua não podia renunciar à noite.
E nenhum dos dois, por mais que amasse,
poderia destruir a própria natureza
para caber no mundo do outro.
Até que, certa vez,
o universo alinhou os seus caminhos.
Não houve promessas,
nem pedidos para que o tempo parasse.
Houve apenas um instante
em que a Lua atravessou a luz do Sol,
e o céu, por alguns minutos,
testemunhou aquilo que os dois
haviam sonhado em silêncio.
O dia escureceu.
As sombras se curvaram sobre a Terra.
E, diante de um mundo que mal compreendia
a grandeza daquele encontro,
o Sol e a Lua finalmente se tocaram.
Não como quem vence uma guerra,
mas como quem encontra descanso
depois de uma eternidade de saudade.
Ele a envolveu com sua luz.
Ela atravessou o seu brilho.
E, naquele breve abraço celeste,
não existiram distância,
nem espera,
nem o doloroso desencontro
que lhes acompanhara desde sempre.
Existiram apenas os dois.
Mas o universo não lhes prometera eternidade.
Prometera somente aquele instante.
E talvez seja isso que torne o amor tão doloroso:
nem tudo o que é verdadeiro pode permanecer,
nem tudo o que é intenso pode durar,
e nem todo encontro foi feito
para se transformar em morada.
A sombra começou a desaparecer.
A luz voltou a ocupar o céu.
A Lua seguiu sua órbita,
e o Sol retomou o seu caminho.
Não houve culpa.
Não houve abandono.
Nenhum dos dois escolheu amar menos.
Apenas chegou a hora
em que a natureza pediu de volta
aquilo que, por alguns instantes,
havia emprestado ao amor.
E o mundo voltou a ser mundo.
O Sol continuou a iluminar os dias.
A Lua continuou a velar as noites.
E, embora separados outra vez,
ambos carregavam a lembrança
de terem se encontrado além da distância.
Talvez nunca mais pudessem se tocar
daquela mesma maneira.
Talvez o céu jamais lhes concedesse
um encontro sem despedida.
Ainda assim, o Sol não deixou de brilhar.
E a Lua não deixou de iluminar a escuridão.
Porque amar não significava
deixar de ser quem eram.
E a despedida não tornava mentira
aquilo que viveram.
O eclipse terminou.
Como tudo o que pertence ao tempo,
o instante passou.
Mas, por alguns minutos,
o impossível não foi uma promessa,
nem um sonho,
nem uma espera sem resposta.
Foi real.
E talvez o amor entre o Sol e a Lua
nunca tenha sido sobre permanecerem juntos,
mas sobre descobrirem que,
mesmo destinados a caminhos diferentes,
eram capazes de se encontrar
e reconhecer um no outro
algo que a distância jamais conseguiu apagar.
Pois há encontros que não mudam o destino.
Há amores que não vencem o tempo.
E há despedidas que não anulam a beleza
daquilo que um dia existiu.
O Sol voltou a ser Sol.
A Lua voltou a ser Lua.
E o universo continuou girando,
indiferente à saudade dos dois.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu.
Por um breve instante,
no silêncio imenso do céu,
dois amantes contrariaram a distância.
E, embora não pudessem ficar,
por alguns minutos
foram exatamente onde desejavam estar:
um no caminho do outro.