Recentemente, vi uma jovem fazendo um vídeo sobre os direitos das mulheres no Afeganistão. Ela dizia que falar sobre as mulheres afegãs estava se tornando uma “trend”. O que mais me chamou atenção, porém, foi a forma como ela tratava o assunto: falava sobre uma situação extremamente séria e, ao mesmo tempo, ria de maneira irônica.
Nos comentários, algumas pessoas relacionavam o assunto à política. Ela respondia dizendo que estavam levando tudo para o lado político e que, dessa forma, estávamos desrespeitando nós mesmas. Mas como podemos separar completamente esse assunto da política?
Tudo é política. A política está presente na nossa vida muito mais do que muitas pessoas percebem. Se algo que deveria ser barato fica caro, isso envolve decisões políticas. Se uma escola recebe ou deixa de receber investimentos, isso também é política. Se uma lei garante ou retira direitos de determinado grupo, isso também é política.
O próprio caso das mulheres do Afeganistão demonstra isso. Em 2020, durante o governo de Donald Trump, os Estados Unidos assinaram com o Talibã o Acordo de Doha, que estabelecia, entre outras coisas, a retirada das tropas americanas do Afeganistão. Trump não assinou pessoalmente o documento, mas o acordo foi negociado e assinado pelo governo dos Estados Unidos durante sua presidência.
Depois da retomada do poder pelo Talibã, em 2021, mulheres e meninas passaram a enfrentar novamente fortes restrições. Muitas foram impedidas de continuar os estudos, tiveram o acesso ao trabalho limitado e perderam espaço na vida pública.
Por isso, acredito que as pessoas precisam pensar antes de votar e antes de simplesmente digitar um número na urna. Não significa que todos precisam ter a mesma opinião política. Significa que precisamos conhecer a história, pesquisar as decisões dos governos e entender suas possíveis consequências antes de defender uma ideia ou um político.
Também precisamos entender que apoiar uma pessoa politicamente não significa concordar com absolutamente tudo o que seu governo fez. Mas, justamente por isso, é importante conhecer o que aconteceu, inclusive quando determinado acontecimento envolve alguém de quem gostamos ou em quem votamos.
Não deveríamos tratar o sofrimento de milhões de mulheres como uma “trend”. Antes de transformar um assunto sério em conteúdo para a internet, precisamos entender sua história e, principalmente, lembrar que por trás dessas discussões existem pessoas reais que tiveram direitos retirados.
Política não está apenas nas eleições. Ela está nas leis, na educação, na saúde, no trabalho, nos preços e nos direitos que temos. Por isso, estudar política e história não é escolher um lado: é entender o mundo em que vivemos.