A garoa começou no fim da tarde e se transformou em tempestade no momento em que ela colocou o jantar à mesa. Que porcaria de clima, pensou. Uma merda por atrapalhar suas responsabilidades e deixar tudo nojento.
Sim, com a água tudo ficava úmido, pegajoso, mofado, embolorado e nojento. Até ela.
Esta noite teriam frango empanado, arroz com cenoura, lentilha e salada de rúcula. Também teriam uma sessão grátis de surto, só que isso ninguém sabia.
Nem ela.
Mentirosa.
Não de todo. Seu radar interno de furacões estava desligado havia dois belos anos. Uma coleção de memórias maravilhosas e terríveis, mas que ela lembrava.
"Está tudo bem, amor?", Daniel perguntou, pela quinquagésima vez em sete anos, e graças a Deus.
Só que, naquele momento, não foi uma graça.
"Sim, só estou pensando." Resposta ok. "Pode colocar comida para o Pedro? Preciso ir ao banheiro." Rezou para o rosto estar tão neutro quanto sabão.
"Claro. O que você quer comer, moço?" Pergunta idiota: uma criança nunca quer comer o que vai fazer bem de verdade. Mas Daniel sabia jogar com o menino melhor que ela.
Ao sair, conseguiu escutar o "Só arroz e carne" de sempre, seguido da voz autoritária do marido.
Amava aquilo.
Um raio cortou o céu e mais chuva caiu quando ela parou e sentou na tampa da privada. Finalmente sozinha, só olhou para os azulejos brancos e cedeu ao chamado do corpo. O bicho era egoísta e faminto por sonhos, então deu ao desgraçado o que ele tanto queria.
Pensou, pensou e pensou. Abriu todas as portas da mente e nenhuma parecia suficiente. Boa ou ideal.
Preciso fazer algo.
Tum.
Não posso continuar assim.
Tum tum tum.
Respira fundo e enche a barriga, solta o ar pela boca e foca em alguma parte do corpo.
Cala a porra da boca, Bruna! O que sua psicóloga estava fazendo ali? Aquilo nunca ajudou ninguém.
Visualize e respire. Conte cinco objetos que consegue ver. Bom... Ótimo. Tá borbulhando legal aí? Agora conta três que quer quebrar na cabeça de alguém.
"Amor, está tudo bem?" A voz do marido soou fraca nos ouvidos dela, mas ela reuniu forças para mentir outra vez.
"Sim, acho que estou para menstruar. Já saio, pode comer sem mim."
"Tá." Ele não comprou a história. "Qualquer coisa me chama ou grita." Mas aceitou do mesmo jeito.
Que homem bom e compreensível ela tinha.
Fraco.
Ei, você parou de contar. Volte e respire.
Tum tum tum tum tum.
Esse merda não me deixa nem me acalmar em paz.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8...
Tum tum tum tum tum tum tum tum tum.
Era um azul forte e escuro, e eu sabia que devia estar longe, mas só fiz o que não devia até agora, então por que não arriscar uma última vez?
Alguém sempre estava presente, sempre um homem e sempre perto. O toque não me incomoda aqui, nada me alcança de verdade aqui. Só ele.
Queria perguntar o nome do estranho que usava rostos familiares às vezes, mas não esta noite. Hoje ele era um borrão denso do seu tamanho.
Tum tum tum tum tum tum tum tum.
A lembrança do sonho alimentou a mente e acelerou o coração. Sentiu as bochechas esquentarem e o corpo se erguer naquele minúsculo lugar.
Estava com tanta energia que poderia explodir.
Tudo em que colocava os olhos tinha uma segunda camada linda, como aquela geleia de brilho horrível que colocam nas tortinhas de morango do mercado.
Comeria duzentas dessas, sim.
Não notou que estava batendo os pés num ritmo que lembrava sua música favorita do momento, nem percebeu quando abriu a porta do banheiro cantando e sorrindo. Leve, finalmente.
Foi direto para a cozinha e olhou o marido e o filho sentados à mesa, lindos.
Dela.
Antes de processar, seus olhos já estavam cheios (água do bem) e o sentimento de afeto crescia, maior que o corpo. Queria envolver os dois e guardá-los ali.
O bicho não existia mais; ela matara aquela coisa no banheiro.
Agradeceu a Bruna pela ajuda e sentou para comer, quase derrubando a cadeira com a força.
Pedro e Daniel a encaravam meio agoniados.
"O quê?", perguntou com um leve sorriso.
"Está tudo bem mesmo?" E cortou o frango.
"Por que não estaria?" A geleia também cobrira a raiva e essa pingou no prato do marido.
"Nada, você só ficou diferente do nada. Quero me certificar de que está tudo bem. Qualquer coisa, estou aqui."
Sete anos ao lado dela tornaram Daniel um general de guerra.
Trovão e mais chuva. Pedro voltou a comer e Daniel a encarou uma última vez antes de voltar para o prato.
Joga uma bomba no seu colo e volta ao normal como se nada tivesse acontecido.
E nada aconteceu, na verdade. Estava feliz e animada, queria dançar.
Onde estão meus fones?
Olhou a comida e não sentiu vontade de tocar. Na verdade, o brilho daquelas coisas misturadas deu vontade de jogar tudo fora e lavar o prato.
Foi o que fez, e dessa vez ninguém perguntou Se Estava Bem, o que era perfeito.
Lavou toda a louça, a pia, o escorredor e o dispenser. Foi para o fogão e fez a mesma mágica. Limpou a cozinha inteira em meia hora.
Nos dias seguintes não houve cochilos cansados, leituras interessantes ou desenhos. Ela trabalhou como nunca, o amor pelo trabalho manual voltara e queria construir um mundo de doces.
Recompensou Daniel com um desejo desenfreado, e o brilho cobriu os dois até a madrugada. Não teve sono nem sonhos, não viu seu Estranho.
Não sentiu saudade, não sentiu nada.