Do escritor desconhecido, por sua opção.
Caminhando pela minha quebrada, deparei-me com um homem que dividia o mesmo chão que eu. Era um morador de rua. Seu nome? Não sei. Tinha um machucado na perna, coberto por um curativo malfeito, e uma sacola amarrada à cabeça para se proteger da chuva.
Na mesma hora, fui até uma loja tentar conseguir algum dinheiro daqueles que sequer conseguem olhar nos nossos olhos. Do lado de fora, encostado na vitrine, havia outro morador de rua, mas esse não devia ter mais de nove anos. Na saída, encontrei um idoso do outro lado da rua, seguido por uma trilha de lixo espalhada aos seus pés. Apesar do cheiro da pizza estragada, jogada ali dias antes, ninguém olhava para o velho, muito menos para o medo que ele carregava do inverno que batia à porta.
Então fui para a praça. Lá encontrei o homem que me colocava naquela situação: sempre bem vestido, sempre carregando o mesmo pacote que, na primeira vez, me entregara em mãos. Agora, já valia um cinquentão.
Naquela grama, crianças eram abandonadas como objetos. Às vezes, as mães as deixavam ali; outras vezes, trocavam-nas pelo desejo que se transformara em servidão. Diziam que depois voltariam para buscar os pequenos, mas poucos deles duravam muito. O último foi levado por um homem de terno e gravata, vindo daqueles condomínios que nem uma vida inteira de trabalho conseguiria pagar.
Aquilo era uma selva de bichos selvagens, cercada por arranha-céus gigantescos, onde quem vive no topo não ousa olhar para baixo.
Aquele dia estava difícil. Eu não encontrava comida para matar a fome, e minha manta havia encharcado depois do balde de água fria que me acordou, acompanhado das palavras que estou cansado de ouvir.
Saí andando sem rumo, procurando qualquer coisa para comer. Entrei na “Padaria de Família” e pedi apenas um pão. O dono mandou que eu saísse enquanto me olhava com desdém.
Foi a primeira vez, naquele dia, que alguém realmente olhou para mim.
Fiquei parado por um instante. O desprezo no rosto daquele homem deu lugar ao ódio. Sua mão se fechou em punho enquanto ele me encarava de cima a baixo, como se minha existência o insultasse.
Sem reação, virei as costas e caminhei em direção à saída. Uma garoa fina começou a cair e, a cada passo, aquele dia parecia ficar mais pesado.
Entrei em um beco, tentando fugir da chuva que já encharcava minhas roupas. Sentei-me no chão molhado e, quando ergui o rosto, vi o dono da padaria parado na entrada. Ele apontava uma arma para mim.
Três tiros atravessaram minha garganta e, de repente, a chuva deixou de fazer barulho.
Agora restam apenas lama, ratos e silêncio.
Gostaria de dedicar minhas memórias póstumas a alguém, mas nem tábuas para meu caixão eu tenho. Meu nome ninguém nunca perguntou e agora, se sorte eu tiver, estará na minha cova indigente.