A parte quando Cláudio fala 'porque eu já fui você' é de quem sabe mesmo. Alguém que tava ali, conhece o caminho, não precisa fingir que é fácil
Compasso Proibido - Capítulo 1
Cláudio e Ana tinham o tipo de vida que parecia, de fora, quase perfeita demais.
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Pensamento
A parte quando Cláudio fala 'porque eu já fui você' é de quem sabe mesmo. Alguém que tava ali, conhece o caminho, não precisa fingir que é fácil
Conteúdo da publicação
Capítulo 1 — Antes do Passo
I. O Casal
Cláudio e Ana tinham o tipo de vida que parecia, de fora, quase perfeita demais.
A casa era num bairro tranquilo, daqueles onde as calçadas têm árvore e os vizinhos se cumprimentam pelo nome. Sobrado antigo, reformado com cuidado ao longo de anos, parede por parede, cômodo por cômodo, do jeito que se constrói quando se tem projeto e não pressa. O andar de cima era deles. O andar de baixo virou a escola.
Ideia dos dois, execução dos dois. Mas na prática, como quase tudo na vida deles, as funções foram se dividindo de um jeito natural, quase sem conversa, como casal que dança junto há tempo suficiente para saber a hora de liderar e a hora de ceder.
Cláudio acordava cedo.
Não por disciplina forçada, era feitio mesmo, coisa de corpo. Às seis da manhã já estava na cozinha, pé no chão frio, café coando, a cabeça já organizando o dia antes de qualquer palavra ser dita.
Ele tinha quarenta e um anos e usava bem cada um deles. Alto, ombros trabalhados por décadas de dança e academia, uma presença que ocupava o ambiente sem precisar de esforço. Quando entrava numa sala, as pessoas percebiam, não por arrogância, mas por algo mais difícil de nomear. Autoridade suave. O tipo que não precisa levantar a voz porque o corpo já fala.
Trabalhava como consultor de eventos corporativos durante o dia, empresas que queriam confraternização, integração de equipe, aquele tipo de coisa. Pagava bem, exigia deslocamento, reunião, aeroporto às vezes. Era o dinheiro que bancava a estrutura. A escola de dança ainda não se sustentava sozinha, estava perto, mas ainda não.
Ele sabia disso. Ana sabia disso. Nenhum dos dois falava sobre isso com frequência, mas o conhecimento estava lá, silencioso e organizado, como uma conta em dia.
Ana acordava depois.
Não muito depois, meia hora, talvez. O suficiente para que o café já estivesse pronto quando ela descesse, o que ela nunca mencionava mas Cláudio sabia que ela notava. Eram essas as linguagens deles. Pequenas, precisas.
Ela tinha trinta e seis anos e uma qualidade rara: estava completamente à vontade no próprio corpo. Não de forma exibida, ao contrário. Era uma consciência quieta, construída em anos de dança desde criança, de entender que o corpo é instrumento antes de ser imagem. Movia-se assim pelo mundo, com intenção, sem afetação.
Bonita do jeito que incomoda um pouco. Não pela simetria do rosto ou pela forma, embora tivesse as duas coisas. Mas pelo modo como olhava, direta e sem pressa, como se tivesse tempo para ver o que os outros passavam rápido demais.
A escola era dela de um jeito que o CNPJ não explicava completamente.
O espaço tinha sido pensado por ela, a disposição dos espelhos, a acústica, as cores neutras que não poluíam a atenção durante a aula. A agenda era dela: horários, turmas, mensalidades, lista de espera. O relacionamento com os alunos era dela. Quando alguém sumia por duas semanas, era Ana que mandava mensagem, não cobrança, só presença. "Tudo bem por aí?"
Cláudio era o nome na fachada, o professor principal, a referência técnica que dava peso ao projeto. E era isso com mérito, era genuinamente excepcional no que fazia. Mas a escola respirava pelo ritmo dela.
Eles sabiam disso também. Isso também não precisava ser dito.
O casamento tinha oito anos.
Bom casamento, essa era a conclusão honesta de qualquer um que os observasse de perto. Sem o tipo de felicidade performática que envergonha, mas com algo mais sólido: respeito construído, afeição real, uma cumplicidade de quem partilhou suficiente para conhecer o peso e a leveza um do outro.
Brigavam como adultos brigam, sobre dinheiro às vezes, sobre cansaço outras vezes, sobre aquela coisa vaga e difícil de nomear que é o espaço que vai surgindo entre dois corpos que vivem a vida em alta velocidade.
Cláudio viajava demais. Ana ficava na escola demais. Nos últimos meses, havia noites em que se deitavam e a distância entre os dois lados da cama parecia maior do que a medida física justificaria.
Não era crise. Não era desamor.
Era vida, acumulada, cansada, honesta.
E como toda vida honesta, carregava, sem saber, espaço para o que ainda estava por vir.
Numa terça de tarde comum, enquanto Cláudio estava numa reunião no centro e Ana arrumava as cadeiras da salinha antes da turma das dezoito horas, o celular dela vibrou.
Era Carla, aluna antiga, agora amiga.
"Ana, uma coisa: vou mandar um amigo meu essa semana. Jon. Tá precisando aprender a dançar e tá negando. Mas vai. Pode encaixar?"
Ana sorriu pro celular.
"Pode mandar."
Voltou a arrumar as cadeiras. Lá fora, o fim de tarde esquentava o assoalho de madeira do andar de baixo, e o bairro fazia o barulho manso que ele sempre fazia naquele horário.
Ela não pensou mais no assunto.
II. Jon
Jon tinha dezenove anos e a aparência de quem ainda estava esperando o corpo decidir o que ia ser.
Magro do tipo que não é estilo, é metabolismo e esquecimento de comer. Ombros estreitos, pescoço comprido, mãos grandes demais pro resto do corpo, como se tivessem chegado antes do combinado. Usava camiseta e calça jeans em qualquer ocasião porque pensar em roupa era uma variável que ele preferia eliminar do dia. O cabelo era o que a manhã decidia, e a manhã geralmente decidia mal.
Não era feio. Era o tipo de rosto que precisava de atenção pra ser visto, ossos bons, olhos fundos e atentos, uma boca que raramente sorria mas quando sorria mudava tudo. O problema era que quase ninguém tinha paciência de olhar com atenção suficiente, e Jon, por sua vez, raramente dava motivo.
Tinha entrado na faculdade de sistemas de informação seis semanas atrás. Vivia num apartamento de um quarto a vinte minutos do campus, escolhido por proximidade e aluguel, nenhum outro critério. A geladeira tinha queijo, ovos e duas latas de atum que estavam ali desde a mudança. Cozinhava o suficiente pra não passar fome. Dormia bem. Estudava muito. Não saía.
Era, em todos os sentidos práticos, invisível.
Carla tinha aparecido na sua vida de um jeito que Jon ainda não tinha conseguido explicar completamente.
Eles tinham feito o mesmo cursinho no ano anterior, ela repetindo o ENEM por escolha própria, querendo medicina em federal, ele na primeira tentativa, querendo qualquer coisa em TI longe da cidade pequena onde cresceu. Sentaram lado a lado numa aula de redação por acaso geográfico, eram as últimas cadeiras disponíveis, e Carla tinha iniciado conversa com a naturalidade irritante de quem nunca precisou aprender como se faz isso.
"Você escreve torto", ela disse, olhando pro caderno dele sem ser convidada.
"Sei", ele respondeu, sem olhar pra ela.
"Eu também. A gente pode ser amigos então."
Jon tinha achado a lógica completamente absurda. Não disse isso. Não disse nada. Mas Carla interpretou o silêncio como concordância e a partir dali tratou a amizade como fato consumado, o que, Jon descobriu com o tempo, era o método dela pra tudo.
Carla era o oposto dele em quase tudo.
Falava demais, ria alto, conhecia todo mundo pelo nome e lembrava de detalhes que a maioria descartava. Tinha o tipo de energia que enche um ambiente sem pedir licença, não por falta de consciência, mas por excesso de presença. Às vezes irritava. Frequentemente encantava.
Com Jon ela tinha desenvolvido uma paciência específica, calibrada. Sabia que ele precisava de silêncio antes de qualquer conversa real. Sabia que ele não atendia chamada de número desconhecido. Sabia que se ela mandasse mensagem e ele não respondesse não era descaso, era processamento. Esperava. Ele sempre respondia.
O que Jon nunca disse mas Carla provavelmente sabia era que ela era a única pessoa fora da família com quem ele falava de verdade.
A história do forró tinha começado, como a maioria das histórias com Carla, sem que Jon percebesse que estava sendo conduzido.
Havia três semanas, ela tinha aparecido no apartamento dele numa quinta à noite, Jon nunca entendia como ela aparecia, parecia não precisar de convite, com uma sacola de lanche e disposição de ficar duas horas. Sentaram no chão da sala porque Jon não tinha sofá ainda, só uma cadeira de escritório e o colchão no quarto.
"Você precisa sair mais", ela disse, entre uma batata e outra.
"Eu saio."
"Faculdade não conta."
"Por quê não conta?"
"Porque você vai, fica quieto, aprende, volta. Não é sair. É commute intelectual."
Jon não respondeu porque não tinha argumento eficiente contra isso.
"Eu danço forró", Carla continuou, no tom de quem está apenas compartilhando informação. "Numa escola aqui perto. É muito bom. Você devia ir."
"Não sei dançar."
"Óbvio. Por isso é uma escola."
"Não tenho jeito pra essas coisas."
"Que coisas?"
"Ficar perto de gente. Tocar em desconhecido." Ele disse isso como quem lista especificações técnicas, sem drama. "Forró é tudo isso junto."
Carla ficou um momento em silêncio, o que era raro o suficiente pra Jon olhar pra ela.
"Exatamente por isso", ela disse. Simplesmente.
Jon ficou pensando nisso por uma semana.
Não que concordasse. Mas a lógica tinha alguma coisa que não saía da cabeça, como um bug que você sabe que existe mas não consegue localizar. Ele passava os dias no campus entre aulas e laboratório, comia sozinho por escolha e não exatamente por conforto, voltava pro apartamento que ainda não tinha cara de lugar habitado.
Na sexta seguinte Carla mandou mensagem.
"então"
Jon ficou olhando pro celular por um tempo. Digitou, apagou, digitou de novo.
"qual é o endereço"
Carla demorou trinta segundos pra responder, o que devia ser um recorde pra ela, e Jon imaginou que ela estava sorrindo demais pra digitar.
O endereço veio. Depois:
"vai numa terça. turma das 18h. já avisei a Ana"
"quem é Ana"
"a professora. você vai gostar dela. todo mundo gosta"
Jon não respondeu essa última parte.
Na terça seguinte, às dezessete e quarenta, ele estava parado na calçada em frente ao sobrado, papel com o endereço na mão apesar de ter conferido no mapa quatro vezes.
Ficou parado por uns dois minutos.
Não era medo exatamente. Era aquela resistência física que o corpo faz quando vai entrar num lugar novo cheio de gente desconhecida, como uma estática, um chiado interno que diz: você não precisa disso, pode ir embora, ninguém vai notar.
Jon conhecia bem esse chiado. Tinha aprendido, com os anos, que ele não desaparecia esperando. Só desaparecia atravessando.
Então ele atravessou a porta.
III. O Estranho
Ana estava de costas quando ele entrou.
Arrumava o aparelho de som na prateleira lateral, conectando o celular pelo cabo de sempre que vivia caindo, e estava nessa batalha menor quando ouviu a porta. Não virou imediatamente. Tinha aprendido com os anos que dar atenção demais à entrada de aluno novo às vezes intimidava mais do que acolhia. Deixava a pessoa pousar primeiro.
Ouviu os passos. Lentos. Alguém que estava medindo o espaço antes de ocupar.
Aí virou.
O primeiro pensamento foi involuntário e ela nem saberia depois explicar de onde veio: esse não é daqui.
Não era julgamento. Era observação. Tinha a ver com o jeito que ele estava parado perto da porta, o papel dobrado na mão, os olhos percorrendo a sala com uma atenção que não era curiosidade comum. Era o olhar de quem cataloga. Quem precisa entender o ambiente antes de existir dentro dele.
Magro. Jovem, mais novo do que ela esperava. Camiseta simples, tênis que já tinha história. Nada que se destacasse. E ainda assim havia algo na qualidade da atenção dele que era diferente, uma presença quieta que ocupava o espaço de um jeito que ela não esperava de um corpo tão retraído.
Esquisito, ela pensou. E então, quase no mesmo instante, sem conexão aparente: interessante.
Não pensou mais nisso. Já estava atravessando a sala.
"Você é o Jon?" ela perguntou antes de chegar perto, porque Carla tinha mandado mensagem avisando e ela tinha uma memória boa para nomes.
Ele se surpreendeu. Visivelmente, um pequeno recuo nos ombros, como quem não esperava ser reconhecido.
"Sou."
"Ana." Ela estendeu a mão, firme. "Bem-vindo."
O aperto foi rápido, firme do lado dela. Ele correspondeu com a mão grande que parecia grande demais pra ele, e aí ela notou os dedos. Longos, um pouco calejados nas pontas. Violão, ela pensou, sem saber por quê. Ou talvez só teclado. Alguma coisa.
"Carla disse que você vem por indicação dela", Ana continuou, já se movendo de volta pro centro da sala, porque a turma estava chegando e havia coisas pra organizar.
"Ela não indicou exatamente", ele disse. "Ela decidiu."
Ana parou um meio segundo. Virou o rosto só um pouco, o suficiente.
Havia humor naquilo. Seco, sem enfeite, mas era humor. E ele tinha dito com uma naturalidade tão morta que ela quase duvidou ter ouvido certo.
Quase sorriu. Não sorriu. Voltou a organizar a turma.
Cláudio chegou cinco minutos depois com a energia de sempre, porta aberta, cumprimentos, palmada nas costas dos alunos mais antigos, aquela presença que preenchia o ambiente inteiro sem esforço. Apertou a mão de Jon com a força confortável de quem está acostumado a receber pessoas.
"Novo aqui? Relaxa não, todo mundo começa do zero." Sorriu. "Ana vai te encaminhar no começo, você tá em boas mãos."
Jon assentiu. Cláudio já tinha se virado pro resto da turma.
A aula começou e em dois minutos ficou claro que Jon não tinha nenhum vocabulário corporal para o que estava sendo pedido.
Não era falta de coordenação, ele não tropeçava, não era desastrado. O problema era mais sutil e mais profundo: ele não sabia como habitar o próprio corpo quando havia outro corpo por perto. Era como se os circuitos não tivessem sido instalados ainda. Forró pedia entrega, e entrega pedia confiança física que ele simplesmente não tinha.
Ana trabalhava com a turma inteira mas mantinha um olho nele, discreta. Observava o jeito que ele tentava seguir os passos, cerebral, calculado, como se estivesse resolvendo um problema de lógica em vez de sentir um ritmo.
A parceira do momento era uma aluna de nível intermediário, Fernanda, que tentava com boa vontade. Mas Jon estava tão dentro da própria cabeça que o corpo dela poderia estar mandando sinais em morse que ele não receberia.
"Relaxa os ombros", Ana disse, passando perto.
Ele relaxou. Por três segundos. Depois voltou.
Dez minutos. Quinze.
Jon errava o básico, não o passo em si, mas o peso. No forró, o corpo precisa ceder pro eixo do outro, e o corpo dele se recusava com uma consistência quase impressionante. Era como tentar dobrar madeira seca.
Fernanda era paciente mas havia um limite.
Ana notou o momento exato em que ele percebeu que estava atrapalhando a parceira. Foi sutil, um olhar rápido pra ela, uma pequena contração na mandíbula. Não disse nada. Mas algo fechou nele.
Ele vai embora, Ana pensou.
Faltavam uns cinco minutos pra completar vinte quando ela viu Jon se afastar com cuidado da parceira, murmurar um obrigado baixo demais pra ser ouvido na música, e começar a caminhar em direção à porta com aquele passo calculado de quem está tentando não ser notado.
Ela estava do outro lado da sala. Não chegaria a tempo.
Mas Cláudio estava mais perto da porta.
Jon já tinha a mão na maçaneta quando ouviu a voz.
"Ei."
Baixa, sem urgência. Mas o tipo de voz que faz o corpo parar antes da cabeça decidir.
Cláudio estava a uns três passos, braços cruzados, expressão sem julgamento.
"Vai embora?"
Jon ficou um segundo com a mão ainda na porta. "Acho que não é muito pra mim."
"Primeira aula?"
"Sim."
"Então você ainda não sabe o que é pra você." Cláudio disse isso como quem constata o tempo lá fora. Simples. "Demorei dois meses pra pegar o primeiro passo de verdade. Dois meses. E eu já dançava outra coisa antes."
Jon não respondeu.
Cláudio descruzou os braços, olhou rápido pra turma que continuava, Ana já tinha assumido o centro como sempre fazia quando ele se ausentava por um momento, e voltou pra Jon.
"Me faz um favor." A voz era do tipo que não pede, mas também não ordena. Fica num meio que é difícil de recusar. "Fica mais meia hora. Mas não aqui com a turma, você tá na sua cabeça e com gente em volta não vai sair disso. Tem uma sala menor nos fundos. Eu peço pra Ana trabalhar com você separado, sem pressão, sem parceiro querendo evoluir. Só o passo. Meia hora."
Jon olhou pra ele.
"Por que você tá fazendo isso?"
Cláudio pensou um segundo. Honesto. "Porque eu já fui você. E alguém me convenceu a ficar."
Silêncio.
Lá dentro a música continuava. Zabumba e triângulo vazando pelo corredor, misturado com o chiado dos pés no assoalho.
Jon tirou a mão da maçaneta.
"Meia hora", ele disse.
Cláudio assentiu, sem sorrir. Foi em direção à sala, encostou a cabeça pela porta, chamou Ana com um gesto breve.
Ela veio até a soleira. Ele falou baixo, poucas palavras: sala dos fundos, o novo aluno, meia hora de particular. Ana ouviu, olhou rápido pra Jon no corredor, voltou pra Cláudio.
Assentiu.
Cláudio voltou pra turma.
Ana pegou o celular, selecionou uma playlist diferente, mais simples, mais lenta, e passou pelo corredor em direção à sala dos fundos com a leveza de quem faz isso todo dia.
Passou por Jon sem parar.
"Vem."
Ele foi.
A sala dos fundos era menor. Sem espelho no teto, só numa parede. Uma caixa de som portátil no canto. O chão era o mesmo assoalho de madeira, mas o silêncio ali era de outro tipo, mais contido, mais próximo.
Ana colocou a música. Volume baixo.
Virou pra ele.
"Sem parceiro ainda", ela disse. "Só você e o passo. Me olha."
E Jon olhou.
E alguma coisa, muito pequena, muito quieta, começou ali, sem nome ainda, sem forma, como o primeiro compasso de uma música que você ainda não reconhece mas já não consegue ignorar.
IV. Compasso
Ana começou pelo básico. O mais básico possível.
"Esquerda. Direita. Esquerda." Ela demonstrava sem música primeiro, só o passo no assoalho. "Não é marcha. Não tem rigidez. É como se o chão fosse mole. Você afunda um pouco em cada tempo."
Jon observava com aquela atenção toda dele, concentrada, quase desconfortável de tão intensa. Como se estivesse tentando fotografar o movimento com os olhos pra processar depois.
"Tenta."
Ele tentou. Esquerda, direita, esquerda. Tecnicamente correto. Completamente errado.
"Você tá contando", ela disse.
"Estou."
"Para de contar."
"Como eu sigo o ritmo sem contar?"
"Você sente."
Ele ficou olhando pra ela com uma expressão que era quase cômica, não de desafio, mas de alguém que recebeu uma instrução em idioma que não fala. Sente. Como se fosse simples.
Ana cruzou os braços, estudou ele por um segundo.
A maioria dos alunos novos era uma de duas coisas: os que tinham vergonha e escondiam atrás de sorrisos, ou os que tinham vergonha e ficavam agressivos com a própria dificuldade. Jon não era nenhum dos dois. Ele simplesmente estava ali, desajeitado e completamente sem pretensão de esconder isso, olhando pra ela esperando a próxima instrução como se fosse a coisa mais natural do mundo não saber fazer algo.
Havia uma honestidade nisso que ela não esperava.
Esquisito, pensou de novo. E de novo, logo atrás: interessante.
Ela mudou de abordagem.
"Fecha os olhos."
Ele piscou. "Sério?"
"Sério."
Uma pausa pequena. Depois ele fechou, sem drama, sem comentário, simplesmente fechou. Isso também era inesperado. A maioria dos adultos resistia a fechar os olhos na frente de desconhecido. Havia algo vulnerável demais nisso. Jon simplesmente obedeceu, com aquela confiança estranha de quem não está pensando em como parece.
Ana foi até a caixa de som. Selecionou uma faixa, forró pé de serra, andamento médio, zabumba marcado. Voltou.
"Agora. Só ouve. Não faz nada ainda. Só ouve."
Silêncio dele. O corpo parado, os olhos fechados, as mãos soltas ao lado do corpo com aquela desproporção toda, dedos longos, pulsos finos.
A música preencheu a sala pequena.
Ana ficou observando. Havia um momento, ela sabia por experiência, em que o corpo de um aluno cedia ao ritmo antes da cabeça perceber. Era quase imperceptível, um micro-movimento no quadril, um leve balanço no peso. Quando acontecia, era sempre a mesma coisa: o corpo sabia antes. Sempre sabia antes.
Esperou.
Vinte segundos. Trinta.
E então, lá estava. Pequeníssimo. O peso de Jon deslocou um milímetro pra esquerda no tempo certo.
"Agora anda", ela disse, baixo.
E ele andou.
Não era dança ainda. Mas era outra coisa, era o começo de escuta. O passo ainda duro, ainda cerebral, mas havia uma fissura agora em que o ritmo entrava. Ela trabalhou ali, nessa fissura, com paciência que era genuína e não apenas profissional.
"Menos o ombro." Ela tocou levemente o ombro direito dele pra mostrar, toque rápido, técnico. "Você tá usando ele como âncora. Solta."
"Se eu soltar eu perco o eixo."
"Você acha que vai perder. Mas não vai."
"Como você sabe?"
"Porque eu já vi isso umas duzentas vezes."
Ele considerou. Soltou o ombro.
Não perdeu o eixo.
Não disse nada sobre isso, mas ela viu o momento em que ele registrou, uma pequena alteração na expressão, quase nada. A versão facial de ah.
Ana sentiu uma coisa leve no peito. Satisfação profissional, ela nomeou imediatamente. Era sempre bom ver o momento do clique.
Era só isso.
Vinte minutos se passaram de um jeito que ela não contabilizou direito.
Ele melhorava em camadas finas, não saltos, não revelações, mas pequenas cessões do corpo que iam se somando. E a cada cessão ele ficava um pouco menos dentro da cabeça, um pouco mais presente na sala, na música, no espaço entre eles.
Ana foi buscar água, ofereceu pra ele. Jon pegou o copo com um obrigado que era tão sem enfeite que parecia quase formal, tomou dois goles, devolveu.
"Você faz outra coisa com as mãos?" ela perguntou, não sabia bem por quê.
Ele olhou pra ela. "O quê?"
"As pontas dos dedos. Tem calo."
Jon olhou pra própria mão como se estivesse verificando uma informação. "Violão. Mas faz tempo que não toco muito."
"Por quê?"
Uma pausa pequena. "Não sei bem."
Ana não pressionou. Havia algo na resposta, não evasão, mas uma honestidade sobre não saber, que ela achou mais interessante do que qualquer explicação teria sido.
Faltavam uns dez minutos quando ela tomou a decisão que não havia planejado.
"Vamos dançar uma música inteira", ela disse. "Você conduz, eu sigo. Não pensa no passo. Só na música."
"Eu não sei conduzir."
"Eu sei. Por isso eu vou estar aqui."
Ela foi até a caixa de som, trocou a playlist. Escolheu uma faixa que usava às vezes com alunos que precisavam desacelerar, forró lento, quase balada, sanfona em primeiro plano e o resto recuado. Do tipo que não exige técnica. Exige presença.
Voltou pra ele.
Tomou a posição, a mão dele na sua cintura, guiada por ela, a mão dela no ombro dele. A distância era a de sempre, a distância de instrução, profissional e sem ambiguidade.
"Quando a música começar, você dá o primeiro passo. Esquerda."
Ele assentiu.
A música começou.
Os primeiros compassos foram exatamente o que ela esperava, rígidos, atentos demais, o corpo dele monitorando cada milímetro. Mas ela não corrigiu. Ficou presente, seguiu o que ele dava, fez o que boa professora faz numa hora dessa: deixou o aluno liderar mesmo errando, porque a confiança vem antes da técnica.
A sanfona abriu mais na segunda estrofe.
E Jon, ela notou, ela registrou sem saber ainda o que estava registrando, respirou fundo. Uma só vez. E o ombro cedeu.
Não muito. Mas cedeu.
O passo ficou mais largo, mais natural. O peso deles começou, pela primeira vez, a conversar.
Ana acompanhou.
Havia ali, de repente, o início de algo que era dança de verdade, imperfeita, desequilibrada, mas real. Ela sentiu isso na palma da mão que estava no ombro dele, no jeito que o eixo dos dois encontrou um entendimento mínimo.
E então, sem ter decidido exatamente, ou tendo decidido de um lugar que não era pensamento, ela inclinou levemente a cabeça.
Rosto contra rosto.
A têmpora dela encostou na dele.
Suave. O contato mais leve possível, menos que um toque, mais que proximidade.
No forró não era incomum. Raiz, pé de serra, dança de interior, havia sempre essa intimidade permitida, esse espaço onde dois corpos podiam estar perto sem que o perto precisasse de explicação.
Ela sabia disso.
Usou isso.
Mas havia qualquer coisa, pequeníssima, sem nome ainda, que fez o gesto ser minimamente diferente do que teria sido com qualquer outro aluno num dia qualquer. Ela não saberia dizer o quê. Talvez não fosse nada. Provavelmente não fosse nada.
Jon não recuou.
O corpo dele ficou quieto por um compasso, ela sentiu isso, a pequena hesitação, e então continuou. O passo, a música, o eixo. Mas havia uma qualidade diferente no silêncio dele agora. Mais denso. Mais dentro.
Eles dançaram assim até o fim da música.
Rosto a rosto.
Sem falar.
A sanfona foi fechando. O zabumba desacelerou. O último acorde ficou suspenso um segundo e então a sala ficou em silêncio.
Ana levantou a cabeça.
Deu um pequeno passo atrás, natural, sem pressa.
"Melhorou", ela disse. A voz saiu normal. Ela se certificou de que saísse normal.
Jon ficou parado. Olhando pra ela com aqueles olhos fundos que ela tinha notado desde o começo, só que agora havia algo diferente ali. Não era mais o olhar de catalogar o ambiente. Era outra coisa que ela não quis nomear.
"Obrigado", ele disse. Também normal. Também cuidadoso.
Ana assentiu. Foi até a caixa de som, desligou. Pegou a garrafa d'água.
"Mesmo horário semana que vem", ela disse, de costas. "Se quiser continuar particular por mais algumas aulas antes de voltar pra turma, a gente vê com Cláudio."
"Tudo bem", ele disse.
Ela ouviu os passos dele saindo.
Ficou um momento parada, garrafa na mão, o silêncio da salinha ocupando o espaço que a música tinha deixado.
Só estava ensinando, ela pensou.
Sim. Claro.
〰
Jon foi embora a pé.
O bairro estava naquele entre-luz do fim de tarde, o sol já sem força mas a noite ainda não instalada, aquela hora imprecisa que parece pertencer a ninguém.
Ele andava devagar, mais do que o normal, e não estava pensando em rota.
Estava pensando na têmpora dela encostada na dele.
Não de um jeito que ele soubesse nomear. Era mais físico do que emocional, a memória do contato ainda presente na pele, como quando você tira uma roupa quente e o frio leva um tempo pra convencer o corpo de que não há mais calor. Estava lá. Estava lá de um jeito que ele não esperava.
Jon não tinha histórico pra calibrar isso.
Nunca tinha ficado, nunca tinha namorado, nunca tinha chegado perto o suficiente de alguém pra ter referência. Não por escolha dramática, era mais simples e mais triste do que isso. As situações nunca tinham se construído. Ele não sabia construir. As pessoas pareciam se mover num código social que ele lia com um segundo de atraso, e esse segundo era sempre o suficiente pra o momento ir embora.
Então ele não tinha vocabulário pra o que estava sentindo.
Sabia que era professora. Sabia que era casada. Sabia que era uma aula particular e que rosto com rosto era coisa de forró, ele tinha visto na turma também, havia tido isso com outras duplas.
Sabia de tudo isso.
E ainda assim os pés estavam andando devagar.
〰
Ana, naquele mesmo momento, estava fechando a salinha dos fundos.
Cláudio tinha encerrado a turma e estava na cozinha lá de cima, ela ouvia os passos familiares, o som da geladeira abrindo. Daqui a pouco ele desceria, perguntaria como tinha sido o particular, ela diria foi bem, o menino tem potencial, e seria verdade e seria suficiente.
Ela apagou a luz da sala.
No escuro por um segundo antes de fechar a porta, ficou parada.
Pensou no momento da música. Na decisão que tomou sem decidir. Na qualidade do silêncio dele quando os rostos encostaram.
Ele é um aluno novo, ela pensou. Tem dezenove anos. Parece menos ainda. É esquisito e desajeitado e claramente nunca dançou na vida.
Tudo verdade.
E ainda assim havia alguma coisa, pequeníssima, sem forma, sem nome, sem nenhuma urgência, que ficou na sala quando ele foi embora. Uma espécie de presença residual, como o calor que o sol deixa no assoalho de madeira depois que a tarde fecha.
Ana fechou a porta.
Subiu as escadas.
"Como foi?" Cláudio perguntou lá de cima, sem olhar, cortando algo na bancada.
"Foi bem", ela disse. "Tem potencial."
Ele assentiu, satisfeito.
Ela foi lavar as mãos.
A água era fria.
Fim do Capítulo 1
Thoughts
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PermalinkAchei estranho como o Jon e a Ana se entendem sem falar muito, tipo silêncio que diz mais que palavra. E a gente vendo isso tudo acontecer
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PermalinkFechar os olhos e deixar de contar. Quando acontece essa mudança é quando finalmente funciona
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PermalinkA parte quando Cláudio fala 'porque eu já fui você' é de quem sabe mesmo. Alguém que tava ali, conhece o caminho, não precisa fingir que é fácil
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PermalinkÂnimo pro Jon, que coisa boa quando alguém acredita em você antes de você acreditar em si mesmo
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