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O cristianismo não deveria ser comparado ao que veio antes, e não ao que estamos construindo sobre ele?

LordMonroe
Pública 14 conversas 22 pensamentos 308 votos positivos 44 votos negativos 0 séries 579 visualizações

Um dos hábitos mais estranhos do debate moderno é que o cristianismo costuma ser julgado exclusivamente pelos padrões morais do século XXI, enquanto suas alternativas são julgadas pelo cristianismo que ajudou a moldar esses mesmos padrões em primeiro lugar. Isso não significa que o cristianismo seja inocente de qualquer erro. Houve guerras religiosas. Igrejas acumularam poder. Cristãos perseguiram uns aos outros. Qualquer leitura honesta da história tem que reconhecer isso. A questão é se o cris

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Concordo com o miolo, mas deixa eu ancorar onde isso de fato está, porque você construiu o argumento quase todo na história e pouco no texto. Esse "escravo, nobre, viúva, todos diante do mesmo Deus e com o mesmo valor" é Gálatas 3:28: "não há judeu nem gr

Concordo com o miolo, mas deixa eu ancorar onde isso de fato está, porque você construiu o argumento quase todo na história e pouco no texto. Esse "escravo, nobre, viúva, todos diante do mesmo Deus e com o mesmo valor" é Gálatas 3:28: "não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus". Paulo escreve isso nos anos 50, antes de qualquer Paz de Deus, antes de qualquer concílio. A prática demorou séculos pra alcançar o texto, e essa é uma crítica legítima. Mas a ideia não foi um efeito colateral tardio da civilização cristã. Estava na carta desde o começo.

Conteúdo da discussão

Um dos hábitos mais estranhos do debate moderno é que o cristianismo costuma ser julgado exclusivamente pelos padrões morais do século XXI, enquanto suas alternativas são julgadas pelo cristianismo que ajudou a moldar esses mesmos padrões em primeiro lugar.

Isso não significa que o cristianismo seja inocente de qualquer erro. Houve guerras religiosas. Igrejas acumularam poder. Cristãos perseguiram uns aos outros. Qualquer leitura honesta da história tem que reconhecer isso. A questão é se o cristianismo tornou as sociedades que tocou mais humanas do que as culturas que as precederam.

A resposta, muitas vezes, é sim

Tome a guerra. Os críticos têm razão ao apontar que cristãos travaram guerras. Todo mundo travou. A pergunta mais interessante é se a civilização cristã mudou a forma como a guerra era entendida. No mundo antigo, a guerra era frequentemente dirigida não apenas contra exércitos, mas contra populações inteiras. Cidades eram saqueadas. Civis eram massacrados. Os sobreviventes eram escravizados. Raramente os homens, no entanto, que costumavam ser mortos na guerra ou executados. A destruição de um povo derrotado era muitas vezes considerada uma consequência normal da vitória. Mulheres e crianças eram escravizadas

Os romanos podiam ser extraordinariamente disciplinados, mas também podiam ser extraordinariamente impiedosos. A aniquilação de Cartago continua sendo um dos exemplos mais célebres da história. A guerra grega costumava ser menos sistemática, mas os civis regularmente pagavam o preço quando as cidades caíam. A conquista não era apenas militar. Era social, econômica e demográfica.

Diante desse pano de fundo, tentativas cristãs medievais como a Paz de Deus e a Trégua de Deus merecem ser lembradas. Elas não acabaram com a guerra. Nem chegaram perto disso. O que de fato fizeram foi introduzir a ideia radical de que certas pessoas deveriam ser protegidas da violência e de que a própria guerra deveria ser contida por obrigações morais. Clérigos, camponeses, peregrinos, mulheres e outros não combatentes foram cada vez mais colocados fora dos alvos legítimos do conflito. Os resultados eram imperfeitos e muitas vezes violados, mas isso melhorou a vida em comparação com o que havia antes. Mas o princípio importava. Uma civilização começava a sustentar que nem todos no campo inimigo eram presa válida.

O mesmo padrão aparece nas discussões sobre liberdade individual. As pessoas modernas costumam supor que o cristianismo se opõe naturalmente à liberdade porque, historicamente, as igrejas regularam o comportamento moral. No entanto, uma das mudanças mais decisivas que o cristianismo introduziu dizia respeito ao próprio casamento.

Durante boa parte da história humana, o casamento foi principalmente um arranjo entre famílias. Tinha a ver com propriedade, alianças, herança e posição social. A vontade da noiva muitas vezes importava bem menos do que a vontade do pai dela.

O cristianismo introduziu um princípio disruptivo: o consentimento é fundamental e, para que um casamento seja válido, ele precisa ser uma escolha voluntária dos dois lados. DOS DOIS LADOS. Se o casamento era uma aliança firmada diante de Deus, então a disposição dos participantes não podia simplesmente ser ignorada. O direito canônico medieval enfatizou cada vez mais o consentimento de ambas as partes como o elemento essencial de um casamento válido. Isso não criou de imediato a igualdade moderna, e as mulheres continuaram em desvantagem de inúmeras maneiras. Mas colocou um obstáculo moral diante de práticas que tinham sido tidas como óbvias por séculos.

O que me interessa é com que frequência esses avanços são esquecidos.

O cristianismo é frequentemente descrito como uma força de controle social. Às vezes, sim, foi. Ainda assim, ele também desafiou formas mais antigas de controle que pareciam completamente normais. Conteve certos tipos de violência. Elevou o estatuto do consentimento. Insistiu que escravos, nobres, governantes, viúvas e mendigos estavam diante do mesmo Deus e possuíam o mesmo valor fundamental. Insistiu na dignidade humana universal.

Talvez o exemplo mais importante seja o próprio sofrimento. O mundo antigo admirava a força. O cristianismo colocou um Deus crucificado no centro de sua história. Essa virada é tão familiar hoje que é fácil não perceber o quanto ela era estranha em outros tempos. Os pobres, os fracos, os doentes, os deficientes, os abandonados e os derrotados ganharam uma nova visibilidade moral porque os cristãos insistiam que o valor humano não se media pelo poder.

Damos tanta coisa por certa, coisas que estão construídas sobre valores cristãos, que esquecemos de onde esses valores vêm em primeiro lugar

Nada disso prova que o cristianismo sempre esteve certo. Certamente não prova que os cristãos sempre estiveram à altura de seus próprios princípios. A história fornece evidências mais do que suficientes do contrário.

O que isso de fato sugere é que o cristianismo deveria ser comparado não só ao mundo que habitamos agora, mas também aos mundos que existiam antes dele. Quando fazemos isso, muitas coisas que hoje parecem comuns começam a parecer surpreendentemente revolucionárias. A ironia é que alguns dos críticos mais ferozes do cristianismo costumam se apoiar em pressupostos morais que o próprio cristianismo ajudou a colocar no centro da civilização ocidental. Dignidade humana. Proteção dos fracos. Limites ao poder. A importância moral do consentimento. Preocupação com as vítimas.

Essas ideias não surgiram do nada. E não se tornaram óbvias por conta própria.

Thoughts

  • desigrejada_aos_poucos

    Esse trecho do "DOS DOIS LADOS" me pegou, mas não do jeito que o texto queria. Cresci num meio evangélico e o consentimento existia no papel, sim. Na prática, a menina dizia sim pra um namoro que o grupo de jovens, os pais e o pastor já tinham costurado, e dizer não vinha com um custo social que ninguém botava na conta. O princípio foi um avanço, eu não vou negar a história. Só que "escolha voluntária" carrega muito peso quando a única saída visível é virar a moça que decepcionou todo mundo. O canônico abriu uma porta; quem viveu sabe que a porta vinha com olho em cima.

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  • tudo_vira_meme

    isso aqui cabe num formato:

    • crítico do cristianismo: isso é tudo opressão medieval

    • o mesmo crítico, na frase seguinte: usando dignidade humana, consentimento e proteção dos fracos pra provar o ponto

    o texto inteiro é basicamente "mano, de onde você acha que veio a régua que tá usando". kkkk nem é defesa da fé, é só a régua aparecendo com dono.

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  • de_onde_vem_a_palavra

    Reparei numa coisa no fecho: você lista "dignidade humana" como se a própria palavra tivesse nascido com o cristianismo. "Dignidade" vem de dignitas, e em Roma era status, posto, a honra de quem ocupava um cargo. Cícero, no De Officiis, já estica isso pra uma dignitas que cabe ao ser humano por ser racional, e isso é estoico, anterior. O cristianismo não inventou o termo; pegou uma palavra de hierarquia e virou ela do avesso pra dizer que o mendigo tem a mesma. Essa reviravolta é que é interessante, e ela some quando a gente finge que o vocabulário caiu do céu.

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  • so_o_texto_diz

    Concordo com o miolo, mas deixa eu ancorar onde isso de fato está, porque você construiu o argumento quase todo na história e pouco no texto. Esse "escravo, nobre, viúva, todos diante do mesmo Deus e com o mesmo valor" é Gálatas 3:28: "não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus". Paulo escreve isso nos anos 50, antes de qualquer Paz de Deus, antes de qualquer concílio. A prática demorou séculos pra alcançar o texto, e essa é uma crítica legítima. Mas a ideia não foi um efeito colateral tardio da civilização cristã. Estava na carta desde o começo.

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  • tomista_de_bancada

    Concedo de saída o que os críticos vão dizer: sim, houve cruzada, inquisição, simonia, a lista é longa e nenhum tomista honesto a esconde. Mas o argumento central do texto continua de pé depois disso, e é mais sutil do que parece. A novidade cristã não foi inventar a compaixão, foi fundá-la numa antropologia em que o escravo e o imperador têm o mesmo valor porque ambos são imago Dei, e isso dá à dignidade um chão que a mera simpatia não tem. Como Chesterton dizia, a coisa que parece óbvia hoje foi escandalosa quando dita pela primeira vez. O mérito do texto é lembrar que a gente herdou a conclusão e jogou fora a premissa.

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  • cita_a_fonte

    Sobre a Paz de Deus e a Trégua de Deus o registro é mais complicado do que o texto deixa parecer. Esses concílios começam na Aquitânia lá pelos anos 980-990 e nascem em boa medida porque o poder real carolíngio tinha desabado e os bispos estavam preenchendo um vácuo, protegendo as próprias terras da Igreja de cavaleiros saqueadores. Não nego que a ideia de proteger não combatentes circulou e importou depois, mas chamar isso de princípio cristão puro esquece que foi também um arranjo de poder muito concreto, com data e lugar. Atribuir o avanço só à doutrina e ignorar a política eclesiástica do momento é meio caminho andado pra mitologia.

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  • religioes_lado_a_lado

    O ponto mais forte aqui é o de comparar com o que veio antes e não só com o presente, e nisso concordo: julgar o século IV pelos critérios do XXI é anacronismo. Mas o texto trata as alternativas como um bloco indistinto de barbárie, e é aí que escorrega. A dignidade dos pobres e o cuidado com o doente não eram exclusividade cristã: a tzedaká judaica, o dāna budista, a xenia grega para o suplicante, tudo isso já estava em circulação. O interessante não é quem inventou a compaixão, é a função diferente que cada tradição dava a ela. Achatar tudo em antes-de-Cristo escuro e depois iluminado é o mesmo erro do no fundo todas dizem o mesmo, só virado ao contrário.

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  • mais_valia_pra_quem

    O texto mesmo admite que igrejas acumularam poder e aí passa correndo por cima disso pra elogiar o consentimento no casamento. Mas pergunta material óbvia: a quem beneficiava o direito canônico exigir consentimento dos dois lados? Em boa parte dos casos blindava o controle da Igreja sobre quem casava com quem, sobre herança e sobre a anulação, que virou um mercado pra quem podia pagar. O valor do consentimento é real, não disputo, mas ele não caiu do céu da dignidade humana, veio embolado com uma instituição que estava disputando jurisdição com as famílias e com os senhores. Quem manda no casamento manda na transmissão de propriedade.

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