Eu tenho andado sob dias nublados
e percebido algo sobre meus segredos.
A chuva não seria tão constante em minhas aquarelas
se ao menos houvesse algo que brilhasse,
como o sol ou minha esperança tardia,
mas sou triste como todos os poetas,
como todos os poetas,
não, como todos os poetas,
não como todos os poetas.
Eu releio textos escritos por L.L.
Danço músicas cantadas por S.T.
Choro com poemas de G.E.
O tempo todo, numa sinistra sinfonia.
Não como todos os poetas.
Em minha camisola rasgada,
eu ando em círculos pela sala.
Numa mão, uma taça de vinho;
na outra, pílulas para dormir.
Não como todos os poetas.
Sorrindo para pessoas que não conheço —
que hábito estranho pela manhã.
Andando a esmo pelas ruas,
tão agradável quanto poderia ser.
Não como todos os poetas.
Ranhuras do tempo que me acorrentam aqui,
cuspindo verdades que eu ainda não sei viver,
jurando para Deus que esse é um destino imutável,
chamando meu nome dentro de um cemitério noturno.
Não como todos os poetas.
Exeto que ainda vejo entre nuvens bagunçadas no céu,
uma vontade de pintar abismos tão abstratos como eu,
uma vontade de chegar ao cume de uma montanha,
uma vontade de descer até o fim de um precipício.
Não como todos os poetas.
Mas em todos os meus poemas,
que vivem em páginas não endereçadas,
eu ainda penso,
eu ainda acredito que posso ter
uma esperança tardia que venha me buscar,
tal como todos os poetas.