A Terra que é de Todos
A poeira das estradas de Belém grudava nos sapatos de Augusto Khalil, 17 anos, palestino. Ele carregava no pescoço o keffiyeh preto e branco, símbolo da sua gente. Seus avós e bisavós plantaram oliveiras, construíram casas e rezaram no mesmo solo que hoje se tornou linha de frente. Estudava numa escola onde, às vezes, faltava água e o portão fechava antes do tempo por causa das revistas de segurança. Ouvia gente dizer que seu povo "fazia baderna", que "queria tomar o que não era seu". Ninguém perguntava o que ele sentia quando via a casa do vizinho desabar, ou quando o tio não conseguia atravessar um posto de controle para levar remédio.
Do outro lado, Liora Cohen, 17 anos, israelense, olhava pela janela da sua escola. Usava uma pequena Estrela de Davi de prata, herdada da avó que escapou da perseguição na Europa e veio buscar um lugar onde ninguém expulsasse seu povo novamente. Cresceu ouvindo que aquela terra era o único refúgio que lhes restava, mas também cresceu escutando sirenes durante a noite e vendo amigos partirem para servir e voltarem diferentes. Na escola, alguns diziam que ela era "a dona do lugar"; outros, que tinha medo de perder tudo o que sua família havia construído. Ninguém parava para ouvir que ela também tinha medo — medo de nunca poder brincar em paz na rua, medo de perder quem amava.
Os jovens das duas escolas se cruzavam nos mercados, nos pontos de ônibus e pelas ruas, repetindo o que ouviam em casa, na televisão e nas conversas dos adultos.
— Eles chegaram e tomaram o que é nosso! Nós estávamos aqui há gerações!
— Nós não viemos para tomar nada. Viemos para ter um lugar onde não nos matem como fizeram por milênios!
— Dizem que é por religião, que um não aceita o outro...
— Mas meus avós e os avós deles rezaram no mesmo monte, beberam da mesma fonte.
— Ouvi dizer que é por riqueza... gás no mar, minérios no Mar Morto, água que cada um controla um pedaço.
— E terra também. Cada metro vale uma vida, cada casa guarda uma história.
— Mas quem ganha com isso? Não somos nós, que só queremos estudar, trabalhar e viver.
— Eu não odeio ninguém... mas me ensinaram a ter medo. E, aos poucos, o medo virou raiva.
Um dia, numa excursão organizada por professores que já não suportavam ver tanto ódio entre jovens, os grupos se encontraram perto de um antigo poço, existente muito antes de qualquer fronteira desenhada nos mapas.
Augusto estava sentado desenhando oliveiras. Liora passou, parou por alguns instantes e observou o desenho.
— Meu avô tinha uma árvore igual a essa — disse ela, em voz baixa. — Perto de onde eu morava quando era pequena.
Augusto levantou os olhos, surpreso.
— Meu avô ainda planta uma igual, do outro lado da colina. Ele sempre diz que essa árvore é mais velha do que todas as brigas.
A conversa nasceu devagar, sem gritos e sem acusações. Ele falou da dor de ver famílias obrigadas a deixar suas casas sem saber se algum dia voltariam. Ela falou da dor do seu povo, das perseguições sofridas ao longo das gerações e da esperança de finalmente encontrar um lar seguro.
— Eu pensei que vocês odiavam a gente por sermos quem somos — disse Augusto.
— E eu pensei que vocês só queriam destruir tudo o que construímos — respondeu Liora. — Mas a gente não é o governo. A gente não decide as fronteiras, nem escolhe os conflitos.
Outros estudantes se aproximaram, ouvindo aquela conversa.
— Então a briga não é simplesmente de um povo contra o outro?
Augusto respirou fundo antes de responder.
— É muito mais complicada do que isso.
Liora completou:
— Enquanto os adultos discutem fronteiras, poder e interesses, quem mais sofre são as pessoas comuns.
Outro estudante perguntou:
— Então ainda existe esperança?
Augusto sorriu de leve.
— Enquanto houver gente disposta a conversar, sempre existe.
— A gente não precisa acabar com o outro — disse Liora. — A gente precisa aprender a enxergar o outro.
— Isso que é uma verdadeira conquista — completou Augusto. — Não vencer uma guerra, mas conquistar uma paz que permita a todos viverem.
Depois daquele dia, o clima mudou. As diferenças continuaram existindo, assim como a dor dos dois povos. Mas eles deixaram de enxergar o outro como o único culpado.
Augusto e Liora começaram a trocar histórias. Ele a levou para conhecer as oliveiras do avô. Ela o levou para ver a casa onde sua avó viveu quando chegou àquela terra. Aos poucos, outros jovens também começaram a se aproximar. Alguns desenhavam juntos, outros jogavam bola. Alguns apenas se sentavam para conversar.
Eles perceberam que nenhum dos dois podia apagar a história do outro. Entenderam que viver em paz não significava esquecer o passado, mas reconhecer a humanidade de quem estava do outro lado. A verdadeira luta não era para destruir pessoas, mas para impedir que o medo continuasse decidindo o futuro de quem só queria viver.