Passei anos decorando
o jeito que você ria,
como quem aprende uma oração
na esperança de um milagre.
Achei que o silêncio entre nós
era só o tempo criando coragem.
Achei que seus olhos demoravam nos meus
pelo mesmo motivo que os meus nunca saíam dos seus.
Eu transformei pequenos gestos
em constelações inteiras.
Você me chamava de casa,
e eu comecei a acreditar
que um dia você também pisaria nela para ficar.
Os anjos nunca me avisaram
que nem toda sintonia
é uma promessa.
Então, numa tarde qualquer,
você apareceu de mãos dadas
com alguém que nunca precisou esperar.
E, de repente,
eu deixei de ser a primeira mensagem.
Deixei de saber dos seus dias.
Deixei de existir
nos espaços onde antes cabia meu nome.
Não foi só o amor que eu perdi.
Foi o meu melhor amigo.
Você não disse "adeus".
Só foi me esquecendo
em doses pequenas,
como quem fecha uma janela
sem perceber que ainda tem alguém olhando.
Hoje,
quando lembro de você,
é como abraçar um fantasma.
Meu coração ainda estica os braços,
mas só encontra o vazio
que você deixou
ao escolher outra vida.
Talvez eu tenha confundido
carinho com destino.
Talvez eu tenha amado
uma versão de nós
que só existia dentro de mim.
E dói.
Dói porque eu nunca quis
ser a pessoa escolhida acima de todos.
Eu só queria
não ser deixada para trás.
Se um dia você perguntar
por que fui embora em silêncio,
é porque algumas despedidas
não cabem na voz.
Elas acontecem
quando a gente percebe
que passou anos esperando
alguém que nunca esteve
esperando por nós.
E, mesmo depois de tudo,
há uma parte de mim
que ainda olha para o céu
procurando os anjos.
Não para pedir que você volte.
Mas para perguntar
por que deixaram
eu acreditar
que o amor também morava
na amizade que você me deu.