Hoje resolvi escrever sobre um tema sensível: o traficante de cocaína.
Ao longo da minha experiência, percebi alguns comportamentos que se repetem. Muitas vezes, a aproximação começa de maneira aparentemente inocente: conversa, troca de ideia, convite para festas e ambientes ligados ao consumo e ao crime. Você, principalmente quando é inexperiente, pode interpretar aquilo como moral, respeito ou pertencimento. Mas, muitas vezes, existe outro interesse por trás dessa aproximação: descobrir quem você é, de onde vem, quanto dinheiro tem e, principalmente, se é usuário.
Quando você está começando a usar, pode acontecer de receber uma substância apresentada como mais forte ou mais pura. A experiência inicial pode parecer agradável e fazer você acreditar que encontrou algo que controla. Com o tempo, porém, a relação pode mudar: você passa a consumir mais, a fissura aumenta e o dinheiro gasto também. A dependência vai se instalando enquanto você acredita que ainda está no controle.
Outra estratégia que pode prender o usuário ao ciclo é a venda fiada. A oferta de “pegar agora e pagar depois” parece uma facilidade, mas pode transformar o consumo em dívida. Quando a pessoa já está dependente, sua capacidade de avaliar riscos e consequências pode estar profundamente comprometida. A dívida cresce, os bens começam a ser usados como pagamento e, quando aquele fornecedor deixa de vender, pode simplesmente indicar outro. Assim, o ciclo continua e a dívida muda apenas de mãos.
Não quero generalizar. Também conheci pessoas envolvidas com a venda que me disseram: “Você está usando todo dia, parceiro. Dá uma segurada”. Conheci cobradores que, antes de tomar qualquer coisa, tentavam negociar prazos ou formas de pagamento. Também conheci aqueles que só vendiam mediante pagamento e mantinham o mesmo produto. Alguns deles, quando souberam que eu estava conseguindo sair das drogas, demonstraram satisfação. Outros, porém, continuaram fazendo propostas tentadoras e algumas dessas propostas contribuíram para minhas recaídas.
Por isso, hoje entendo algo que talvez eu não conseguisse enxergar quando estava no meio daquele ciclo: nem todo traficante age da mesma maneira, mas nenhum usuário deve confundir uma relação comercial com amizade, proteção ou pertencimento.
A dependência transforma vulnerabilidade em oportunidade para muita gente. E, quando você percebe, aquilo que começou como uma conversa, uma festa ou uma pequena compra pode ter se transformado em uma dívida, depois em um ciclo e, finalmente, em uma ameaça à própria vida.
Eu sobrevivi para poder contar isso.
Como dizem por aí: é bom ficar ligeiro.
Pega visão.