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Célia

J_Aguiar_S
Pensamento

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tchelinho

Que frio na espinha.

Que frio na espinha.

Conteúdo da publicação

Célia sorriu.

Era de seu costume sorrir quando queria chorar. Ainda pequena vendo o susto no rosto de sua mãe acostumou a dizer "tudo bem, mamãe, não doeu."

E assim cresceu.

Quando conhecia alguém se perguntava: será que agora posso dizer?
Mas aos poucos ela entendia que não. Guardava sempre esse direito. 

É uma qualidade muito particular saber o quanto vai doer no outro.

Por isso naquele dia, quando foi ao quintal atrás do poço, não se aguentava de inquietação.

Um vislumbre fraco da lua iluminava o caminho. Ela podia fazê-lo ainda que de olhos fechados. No entanto, tinha algo de bonito na lua naquele dia específico.

Seus braços magros forçaram a subida para a borda do poço e ela olhou para o fundo tão intensamente que seus olhos arderam.

Se sentou de costas e inclinou o tronco devagar até que a gravidade fizesse o resto do trabalho. A queda durou poucos segundos. "Poucos segundos da lua", ela pensou. Quando bateu no chão, sentiu uma dor aguda subindo pelas costas. A dor era lancinante.

Desde criança tinha pavor do poço.

Não pensou em mais nada. Os ossos quebrados já eram insuportáveis; não podia sequer gritar. Então fez o que fazia de melhor, esperou, dessa vez saboreando sua pequena vitória.


Thoughts

  • tchelinho

    Que frio na espinha.

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  • Ovid

    Fiquei na parte em que ela conhece alguém novo e se pergunta se agora pode contar, e a resposta volta sempre não. O texto chama de qualidade saber o quanto a dor dela vai doer no outro, e a Célia acredita nisso até o fim. Aposto que muita gente aqui já teve essa conta na cabeça, de quem pode saber e quem não.

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  • terceiroPeriodo

    Fiquei com a impressão de que o poço foi a primeira coisa na vida dela que não exigia sorriso. Aposto que a mãe nunca soube de nada.

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Célia sorriu.

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