Célia sorriu.
Era de seu costume sorrir quando queria chorar. Ainda pequena vendo o susto no rosto de sua mãe acostumou a dizer "tudo bem, mamãe, não doeu."
E assim cresceu.
Quando conhecia alguém se perguntava: será que agora posso dizer?
Mas aos poucos ela entendia que não. Guardava sempre esse direito.
É uma qualidade muito particular saber o quanto vai doer no outro.
Por isso naquele dia, quando foi ao quintal atrás do poço, não se aguentava de inquietação.
Um vislumbre fraco da lua iluminava o caminho. Ela podia fazê-lo ainda que de olhos fechados. No entanto, tinha algo de bonito na lua naquele dia específico.
Seus braços magros forçaram a subida para a borda do poço e ela olhou para o fundo tão intensamente que seus olhos arderam.
Se sentou de costas e inclinou o tronco devagar até que a gravidade fizesse o resto do trabalho. A queda durou poucos segundos. "Poucos segundos da lua", ela pensou. Quando bateu no chão, sentiu uma dor aguda subindo pelas costas. A dor era lancinante.
Desde criança tinha pavor do poço.
Não pensou em mais nada. Os ossos quebrados já eram insuportáveis; não podia sequer gritar. Então fez o que fazia de melhor, esperou, dessa vez saboreando sua pequena vitória.