Às vezes, eu queria sumir. Sumir do mundo, dos olhos julgadores.
Às vezes, eu queria sumir de mim mesma.
No dia 25 de outubro, minha escola fez uma excursão para o zoológico da cidade. Nele, tinha um borboletário lindo.
As borboletas voavam livremente, sem preocupação, sem qualquer entendimento de sua insignificância.
Eu lembro desse sentimento. O sentimento de ter a cabeça vazia, com aquela leveza nos passos.
Eu sentia isso com a minha mãe. O jeito que ela acariciava meus cabelos escuros até eu dormir, ou como nós brincávamos em meio às tempestades da Amazônia.
Infelizmente, não estou em uma gaiola de vidro. Sinto um pedaço de folheto sendo jogado sobre minha cabeça. Era a Marina, de novo.
Ela grita algo a que não presto atenção, parecido com "patética" ou talvez "palerma". Não sei.
Só consigo pensar na minha mãe, na forma como seu sorriso animava toda a nossa vila. Ela sorriu até o seu último suspiro, até não ter mais nada a não ser escuridão em seus olhos.
Naquela mesma noite, fui até o lago da minha vila, ou o que restou dela — o local onde eu costumava morar antes de ser transformado em uma simples mineradora.
Ajoelho-me no chão, fechando meus olhos ainda marejados de lágrimas de frustração, e então começo a rezar:
— Mama Wayra, eu te imploro, te suplico... para que eu importe. Para que, pelo menos em algum lugar do mundo, meu povo e minha cultura tenham significância.
— Me ajude a sentir o calor da minha mãe pelo menos mais uma vez.
De repente, sinto uma sensação estranha, como um desconforto em meus pulmões. Consigo senti-los se comprimindo e diminuindo na minha caixa torácica. Cavidades que lentamente vão se tornando olhos que crescem na minha cabeça em todas as direções.
Em meio à dor, eu só consigo sorrir. Um sorriso genuíno e fraco.
Asas vermelhas com pontas brancas surgem nas minhas costas, quebrando parte da minha espinha e tentando se ajustar ao meu corpo.
Eu olho para cima. Vejo as estrelas, ouço a cantoria dos pássaros e mesmo não conseguindo mais respirar, solto um suspiro aliviada.
— eu estou indo, mamãe.
Fecho os olhos, pelo menos os que eu sei controlar.
Assim, eu morro. Escondida, desprotegida e, desejando até minha última respirada, que eu tenha feito a diferença.
Essa é a história de Kallpa, uma garota indígena Quechuá que queria que que seu povo fosse importante, ao invés de menosprezados e mortos como insetos.
Esse mini texto é meu primeiro trabalho. Sei que não é perfeito, mas fico feliz de ter escrito. E, para aqueles que ficaram curiosos, Kallpa se tornou uma borboleta Diaethria.
Escrito por roseforothers.