O meu maior pânico hoje é o silêncio dessa anestesia. Começo a me perguntar se o preço que paguei para não sangrar mais foi perder a capacidade de sentir qualquer outra coisa. Olho para o futuro e a única paisagem que enxergo é a solidão. Tenho um medo genuíno de ficar sozinho para sempre, não porque falte gente boa ao meu redor, mas porque falta em mim o combustível para me conectar a elas. É apavorante pensar que você levou embora a minha última gota de entusiasmo e que o resto da minha vida vai ser esse eterno morno, esse desinteresse disfarçado de maturidade.
Fico me questionando se a armadura que criei para me proteger não acabou virando a minha própria cela. Como é que se sai de um lugar onde nada me machuca, mas nada me toca? Sinto inveja de você por conseguir se apaixonar, por se arriscar, por ter a coragem de ser bobo por alguém. Eu viro a página, mudo de cenário, conheço pessoas dispostas a me amar, mas continuo congelado por dentro. O medo de nunca mais conseguir quebrar esse gelo é o que me consome agora. Tenho medo de ter me curado do seu golpe, mas ter morrido um pouco no processo.