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Capítulo II — A Mulher que Pertencia à Noite

Raiana
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As semanas passaram como um sonho embriagado.

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Pensamento

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vqueiroz90

Miguel tá errado desde o começo ou ela tá certa? porque ela avisa bem claro que não quer ser salva.

Miguel tá errado desde o começo ou ela tá certa? porque ela avisa bem claro que não quer ser salva.

Conteúdo da publicação

As semanas passaram como um sonho embriagado.

Miguel já não reconhecia o homem que fora antes de cruzar a porta daquele bordel. O comércio do pai tornara-se um lugar estranho, os amigos já não o divertiam, e os domingos perderam qualquer significado.

Todas as noites terminavam da mesma maneira.

Subia lentamente a velha escada de madeira, levando consigo uma garrafa de vinho francês e um pequeno ramalhete de rosas vermelhas.

Mimi o esperava.

Seu quarto permanecia sempre igual.

As velas espalhavam uma luz dourada sobre as paredes. As cortinas de renda negra ondulavam com a brisa que vinha da janela, trazendo o cheiro salgado do mar distante. Um velho gramofone tocava valsas e tangos, enquanto o vinho coloria as taças de rubi.

Conversavam por horas.

Miguel descobriu que Mimi adorava poesia. Lia versos de Baudelaire, de Olavo Bilac e de Cruz e Sousa como quem procurava uma porta secreta para outra existência.

Às vezes ela ria.

Às vezes silenciava.

Havia noites em que permanecia longos minutos olhando pela janela.

— O que você vê lá fora? — perguntou Miguel certa vez.

Ela respondeu sem virar o rosto.

— A liberdade... sempre perto o bastante para ser vista... longe demais para ser alcançada.

Essas palavras passaram a persegui-lo.

Depois que deixava o bordel, Miguel caminhava sozinho pelas praias do Rio.

A areia ainda guardava o calor do dia, enquanto o Atlântico quebrava lentamente sobre as pedras. Os primeiros pescadores preparavam seus barcos, e a cidade parecia respirar antes de nascer outra vez.

Ele imaginava Mimi caminhando descalça ao seu lado.

Imaginava uma casa branca diante do mar.

Um jardim cheio de roseiras.

Um piano.

Livros.

Silêncio.

Um lugar onde ninguém a chamasse pelo nome que aprendera a vender.

Mas Mimi parecia feita da própria noite.

E a noite nunca pertencia a ninguém.

Foi então que Miguel conheceu Madame Satã.

Encontrou-o sentado à porta do cabaré, fumando calmamente enquanto observava o movimento da Lapa.

Tinha um olhar firme, quase desafiador, mas havia nele uma estranha compaixão.

— Você é o rapaz das rosas — disse, antes mesmo que Miguel falasse.

Miguel confirmou com um aceno.

Madame Satã sorriu discretamente.

— Ela gosta delas.

Os dois permaneceram em silêncio durante alguns minutos.

Depois, Miguel perguntou:

— Ela fala de mim?

Madame Satã soltou uma breve risada.

— Fala.

— O quê?

— Que você olha para ela como se ainda fosse capaz de enxergar a mulher escondida atrás da maquiagem.

Miguel sentiu o coração acelerar.

— Então ela me ama?

Madame Satã apagou o cigarro contra a calçada.

— Não confunda esperança com amor, rapaz.

Ela tem carinho por você.

Mas carinho não quebra correntes.

Miguel permaneceu imóvel.

— Ela pode ir embora comigo.

Madame Satã levantou-se lentamente.

— Você acredita que a prisão dela é este bordel.

Está enganado.

Existem prisões que continuam existindo muito depois que a porta se abre.

Naquela noite Miguel voltou ao quarto de Mimi carregando um pequeno estojo de madeira.

Dentro dele havia um anel simples de ouro.

Quando o abriu, Mimi sorriu com ternura.

Não colocou o anel no dedo.

Fechou delicadamente a caixa e devolveu-a.

— Miguel...

Ela segurou suas mãos.

— Você se apaixonou pela mulher que imagina que eu seja.

Não pela mulher que realmente sou.

Ele balançou a cabeça.

— Não.

Eu amo você.

Ela aproximou o rosto do dele.

Havia tristeza em seus olhos.

— Eu pertenço às ruas da Lapa, às madrugadas, à música que atravessa essas janelas. Há algo em mim que grita quando tentam me prender, mesmo que seja numa gaiola feita de amor.

Miguel sentiu aquelas palavras rasgarem algo dentro de si.

A partir daquela noite, o amor começou a mudar de forma.

Já não era apenas desejo.

Nem esperança.

Era uma obsessão silenciosa.

Passou a enxergar qualquer homem que entrasse no bordel como um inimigo.

Cada sorriso profissional de Mimi lhe parecia uma traição.

Cada madrugada em que ela permanecia ali aumentava sua convicção de que precisava salvá-la, ainda que ela não desejasse ser salva.

Enquanto isso, Madame Satã observava tudo de longe.

Conhecia aquele olhar.

Já o vira nascer em outros homens.

E sabia que, quando o amor deixa de escutar a pessoa amada para ouvir apenas a própria obsessão, a tragédia costuma caminhar poucos passos atrás.

Thoughts

  • deixoumarca

    vejo homem tatuando nome de mulher que não o quer, depois vem anos tentando apagar. Miguel tá exatamente ali. vai dar ruim.

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  • contoDeSexta

    toda sexta eu leio um conto. mas isso tá me prendendo. Mimi não é vilã e também não é vítima. Miguel não entende isso.

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  • contoBreve

    um capítulo inteiro pra contar que ele tá ficando obcecado? vai demorar quantos capítulos pra explodir?

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  • atepagina50

    reparo mais na casa da história. aquele quarto com velas é personagem. a cidade toda é uma prisão. isso tudo cerceia.

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  • Simao

    ele tá mudando nesse capítulo. a obsessão toma lugar do amor. cada sorriso dela é traição pra ele. Madame Satã viu isso vir.

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  • Rui_Salgueiro

    meu filho tem essa idade de Miguel e eu reconheço aquele jeito. amor não é salvar. Mimi tá certa em ter medo disso.

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  • Marina

    quando uma personagem fala assim de novo e a pessoa não entende. Mimi tá gritando que é livre mas Miguel só ouve o que quer.

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  • vqueiroz90

    Miguel tá errado desde o começo ou ela tá certa? porque ela avisa bem claro que não quer ser salva.

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