Ri sozinha com o garfo fincado na bisteca e o estalo na bandeja. E essa Natália chegando por conta do pai do Daniel tem cara de quem vai ser usada pelo velho sem saber.
Capítulo 7: Café, Ciúmes e exposição
Pensamento
Ri sozinha com o garfo fincado na bisteca e o estalo na bandeja. E essa Natália chegando por conta do pai do Daniel tem cara de quem vai ser usada pelo velho sem saber.
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Segunda-feira, 03/03/2025 - Noite
Meu pai nos encara com um olhar severo e inquisidor. Em reflexo, eu e o senhor Daniel nos afastamos rapidamente, como se isso pudesse apagar o que ele viu.
- O que significa isso, Ariel?! - dispara meu pai, com a voz firme.
- É que... - tento começar, mas ele levanta a mão, cortando minha fala no ar.
- Os dois, entrem. Vamos conversar. - diz ele, já virando as costas e entrando em casa.
Eu e Daniel trocamos um olhar nervoso, e então seguimos em silêncio. Na sala, nos sentamos lado a lado no sofá, de frente para meus pais. O ambiente está carregado, como se o ar pesasse.
Minha mãe, com aquele sorriso que esconde nervosismo, serve café para todos e se senta ao lado do meu pai. O silêncio é quebrado mais uma vez pela voz dele:
- Pode me explicar por que estava aos beijos com o meu filho?
- Papai, é que... - tento outra vez, mas ele corta novamente, sem sequer me encarar.
- Não estou perguntando a você, Ariel.
Daniel respira fundo, firme.

- Estamos namorando, senhor. - diz ele com seriedade.
Meu pai solta um "humm" carregado, olhando fixamente.
- Por que não nos disse que estava namorando, Ariel? - pergunta minha mãe, surpresa, mas sem agressividade.
- Há quanto tempo estão juntos? - questiona meu pai, já cruzando os braços.
- Dois dias, senhor. - responde Daniel, com honestidade.
- Dois dias... - repete ele, balançando a cabeça. - Por que não me disse nada, Ariel? Você sabe muito bem que nós te aceitamos do jeito que você é. Você não é mais uma criança.
- Então... o senhor aceita a nossa relação? - pergunta Daniel, tenso.
Meu pai suspira e, por um instante, seu semblante suaviza.

- Primeiramente, se eu não aceitasse, você nem teria entrado na minha casa. - responde, finalmente.
Daniel solta o ar preso nos pulmões. Minha mãe sorri de leve e o observa com mais atenção.
- Você é tão bonito e bem arrumado... trabalha com o quê, meu querido? - pergunta ela, curiosa.
- Eu sou gerente... trabalho com a parte administrativa de uma multinacional. - diz Daniel, tentando manter o tom formal.
- Que ótimo! - comenta minha mãe.
- Já está tarde, né? O Daniel deve estar cansado... precisa descansar. - digo, interrompendo educadamente.
- Venha fazer uma refeição conosco na próxima vez. - diz meu pai, ainda com o tom sério, mas não mais hostil.
- Sim, senhor. Obrigado. - responde Daniel, enquanto se levantava.
Daniel se despede dos meus pais, e eu o acompanho até a frente de casa.

- Seus pais são muito legais - diz Daniel com um sorriso no rosto.

- Eles são mesmo! Agora só falta você conhecer a minha irmã, a Ariana... mas ela não tá aqui agora - respondo, com um leve riso.
- Até amanhã, amor - diz ele, fazendo um biquinho tão fofo que dá vontade de guardar num potinho.
- Até amanhã, amor - digo, e em seguida dou um beijo.
- Você é tão fofinho - murmura Daniel, me puxando para um abraço.
De repente, ouvimos a voz impaciente do meu pai vindo lá de dentro:
- Ariel, quanto tempo demora uma despedida? Dá logo boa noite pro seu namorado e entra de uma vez!
- Já tô indo, papai! - respondo, sem conseguir segurar o riso.

- Tchau! - diz Daniel, se afastando lentamente. Ainda estávamos de mãos dadas, com os dedos entrelaçados. Nossas mãos se separam devagar. E então, com um último olhar, Daniel vai embora.
Terça-feira, 04/03/2025
É de manhã e estou na sala do Daniel. Ele saboreia o cappuccino que preparei com todo carinho - especialmente para ele.
- Fico me perguntando o que vou fazer quando nosso acordo acabar... e você não for mais "obrigado" a fazer café pra mim - diz Daniel, com uma carinha triste que me parte o coração.
- Você é meu amorzinho agora. Enquanto eu trabalhar aqui, vou fazer café pra você todos os dias - respondo, tentando aliviar o clima e soltando um sorrisinho bobo no final.
- Sério, amor?! - diz ele, animado como se tivesse ganhado um presente de Natal.
- Sim! - confirmo, como se fosse a promessa mais importante do mundo.
- O seu café é perfeito! Já pensou em abrir uma cafeteria? - pergunta ele, com brilho nos olhos.
- Meu sonho sempre foi abrir uma... - começo a dizer, mas a voz falha um pouco. - Mas meu pai nunca apoiou. Pra ele, é um sonho difícil demais de realizar... - completo, tentando esconder a tristeza.
- Não fica assim, amor - diz Daniel, se levantando. Ele caminha até mim com cuidado, toca meu ombro com gentileza e continua: - Desculpa ter feito essa pergunta...
- Está tudo bem - respondo, tentando sorrir.
De repente, alguém bate na porta.
- Daniel, você está...? - pergunta uma voz feminina do outro lado.
- Deixa que eu atendo, senhor - digo, já me levantando. Caminho até a porta e a abro com um leve estranhamento.
- Então você está aqui! - diz a mulher, entrando sem cerimônia.
- Natália?! Quando você chegou?! - pergunta Daniel totalmente surpreso.
- É que o seu pai... - ela começa a explicar, mas para, e então começa a me encarar como se eu fosse uma peça fora do lugar na decoração.
- Você poderia nos dar licença? Quero conversar a sós com o Daniel - acrescenta Natália, com um tom tão educado quanto gelado, ainda me analisando como se eu fosse um intruso.
- Ah... desculpa - digo, completamente sem graça, enquanto saía da sala.
Enquanto caminho de volta para a minha sala, não consigo parar de me perguntar: Quem é essa Natália?
É hora do almoço, e estou no refeitório com meus colegas de trabalho.
- Eu vi um anjo... - suspira um deles, com os olhos sonhadores.
- Todas as garotas são um anjo pra você... - digo em tom debochado, revirando os olhos.
- Mas essa é a mais bonita de todas! - insiste ele, dramático. - Eu vi ela com o senhor Daniel. Acho que é a namorada dele...
Assim que ouço isso, me engasgo com o arroz - literalmente. Tosso tão forte que quase derrubo meu copo.
- Ariel, você tá bem?! - pergunta um colega ao meu lado, batendo levemente nas minhas costas.
- Por que você chegou a essa conclusão? - pergunto, tentando disfarçar o pânico, e tomo um gole d'água como quem precisa apagar um incêndio interno.
- O senhor Daniel tava mostrando a empresa pra ela. E ela... tava com as mãos no braço dele - diz ele, com toda a calma do mundo, como se não tivesse acabado de destruir o meu dia.
Nesse momento, como numa cena de filme que eu preferia não assistir, Daniel entra no refeitório. E, claro, Natália vem do lado dele, segurando o braço esquerdo com a maior naturalidade do mundo.
Ver essa cena faz meu sangue ferver. Como ela tem a audácia de encostar no meu Daniel?! Tento fingir naturalidade, mas o ciúme me corrói por dentro. Olho fixamente enquanto finco o garfo na minha bisteca com tanta força que faz um estalo metálico ecoar pela bandeja.
Todos me olham. Inclusive ele.
Daniel me encara, sem graça, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo na minha cabeça. Natália também me olha.
- Ariel, você tá bem? Tá meio... estranho - comenta outro colega, franzindo a testa.
- Eu... eu... - gaguejo, sem saber o que responder.
- Ei! Agora que tô reparando... você é o cara do comercial com o Daniel, né? - pergunta Natália, se aproximando como se não tivesse acabado de causar um pequeno colapso emocional em mim.
- Sou eu mesmo! - respondo, com um sorriso forçado que mais parece um emoji bugado.
- Venha, temos que continuar vendo o restante da empresa - diz Daniel, visivelmente desconfortável. Ele mal olha pra mim, mas a pressa com que puxa Natália pelo braço denuncia tudo: ele tá querendo fugir da situação.
E eu?
Fico ali parado, com o garfo na bisteca e o coração na garganta.
É fim de expediente e estou sentado na parada de ônibus. O ônibus logo se aproxima.
- Vamos, Ariel! O ônibus chegou - avisa meu colega de trabalho, já se levantando.
- Tá bom, vamos... - respondo, me levantando meio sem vontade.
De repente, meu celular vibra. Uma mensagem de Daniel aparece na tela:
"Por favor, não entre no ônibus."
Leio... suspiro... e ignoro. Entro no ônibus do mesmo jeito. Me sento perto da janela e, por coincidência - ou ironia do destino -, vejo o carro do Daniel parado na esquina, como se ele estivesse me vigiando.
O celular começa a apitar de novo. Coloco no silencioso e olho pra frente, tentando parecer calmo (mesmo que por dentro eu esteja fazendo um escândalo digno de novela mexicana).
O ônibus finalmente para na estação perto de casa. Desço com um suspiro, respiro fundo e olho para o céu. Está estrelado. Calmo. Lindo. E, por algum motivo, me dá vontade de chorar.
De repente, sinto braços me envolvendo por trás, fortes e apertados.
- Amor, eu posso explicar tudo - diz Daniel, me abraçando como se tivesse medo de eu sair correndo a qualquer momento.
- Só me responde uma coisa... - digo, me virando devagar para encará-lo nos olhos.
- O quê? - pergunta ele, com aquele olhar de cachorro arrependido.
- A Natália é sua noiva e eu sou o amante secreto, é isso? - solto, cruzando os braços.
- Claro que não, amor! Eu só tenho você - responde ele, quase indignado, mas ainda com medo de me perder.
- Então por que aquele chamego todo? Você deixou ela pegar no seu braço como se fosse propriedade dela! - rebato, com o tom mais dramático que consigo.
- Eu cresci com a Natália... - começa ele, suspirando. - Não vou mentir: meu pai quer que eu me case com ela. Mas eu fui sincero com a Natália e falei sobre a gente.
- Você falou sobre... a gente? - repito, chocado, como se ele tivesse acabado de me pedir em casamento.
- Falei sim. E em breve vou contar tudo pro meu pai e pro meu irmão também. Aliás... eu preciso conversar direitinho com o seu pai.
- Vai me pedir em noivado ou algo assim? - brinco, com um sorriso debochado.
- Quem sabe... - diz ele, me puxando para mais perto e apertando num abraço.
- Ai, eu não consigo ficar com raiva de você! - resmungo, me virando de frente e apertando as bochechas dele como forma de castigo fofo.
- Agora vamos. - diz Daniel, pegando minha mão com firmeza.
- Pra onde, amor? - pergunto, ainda desconfiado.
- É surpresa. - responde ele com um sorrisinho travesso.
E, de mãos dadas, seguimos em direção ao carro.
Daniel me levou até o shopping, mais especificamente para a área de jogos de videogame.

- Você tá querendo me mimar, é isso? - pergunto, olhando ao redor, encantado com todas as luzes, sons e jogos espalhados.

- Sim! Quero mimar bastante o meu namorado! - diz Daniel, sorrindo de orelha a orelha. - Vamos? - completa, estendendo a mão para mim.

- Vamos! - respondo, pegando a mão dele com um brilho no olhar.
Entramos juntos na área dos jogos, e parecia que tínhamos voltado à infância. Primeiro, fomos direto para a cabine de tiro em dupla. Gritávamos, ríamos e errávamos todos os alvos enquanto os inimigos digitais nos "derrotavam" miseravelmente.

- Você é péssimo em mira! - digo, rindo alto.

- E você fica gritando no meu ouvido! Assim não dá pra concentrar! - rebate ele, enquanto recarrega a arma de brinquedo com toda a pose de um herói de ação... que logo tropeça no próprio pé.
Depois, fomos para os óculos de realidade virtual. Colocamos os visores e, de repente, estávamos em uma montanha-russa maluca, gritando juntos como se aquilo fosse real. Daniel tentava me proteger virtualmente dos obstáculos, mas acabava me empurrando para o "perigo".

- Você tá tentando me salvar ou me matar?! - grito, rindo enquanto desvio de algo que nem sei o que é.

- É que eu entrei em modo protetor, mas buguei! - ele responde, gargalhando.
No final, sentamos num banco da praça de alimentação do shopping, cansados e ainda rindo.

- Foi a melhor "surpresa" que você podia ter me dado - digo, encostando a cabeça no ombro dele.

- Espero que se acostume - sussurra ele, entrelaçando os dedos nos meus. - Você ainda tem muitos mimos pra receber.
Quarta-feira, 05/03/2025
É de manhã e acabei de acordar. Estou terminando de arrumar minha cama, ainda meio sonolento, quando Ariana entra no quarto às pressas, visivelmente abalada.
- Ariel! Ariel... você precisa ver isso! - diz ela, quase sem fôlego, com os olhos arregalados.
- O que foi? Parece até que viu um fantasma! - respondo, franzindo a testa.
- Olha isso aqui! - diz ela, me entregando o celular com as mãos trêmulas.
Pego o celular, ainda sem entender, mas assim que leio a manchete, sinto um frio no estômago:
"Filho do presidente da Grão UP tem relacionamento secreto com colega de trabalho."
Engulo em seco e começo a rolar o feed. As fotos surgem como socos na cara: eu e Daniel, na frente de casa... nos beijando... de mãos dadas...
- Vocês deviam ter sido mais cuidadosos - diz Ariana, preocupada, observando minha reação.
Continuo descendo o feed, o coração acelerado:
"Uma descoberta chocante: o funcionário é o mesmo que participou do comercial com Daniel. Parece que eles não são apenas um casal na ficção."
"Conheçam Ariel, o funcionário que está tendo um caso com o filho do presidente."
Há várias fotos minhas, algumas claramente tiradas de longe, outras em ângulos que eu nem sabia que existiam. De repente, minha mão falha, e o celular cai no chão.
- Ai, meu Deus... - murmuro, a voz trêmula, sentindo as lágrimas começarem a se formar.
- Ariel, se acalma - diz Ariana, me puxando para um abraço.
- Com que cara eu vou pro trabalho, Ariana?! - digo, chorando. - Como eu vou olhar pra meus colegas? E principalmente... como eu vou olhar pro presidente?
Ela não responde de imediato, apenas me aperta mais forte.
- Vai ficar tudo bem. A gente vai pensar em algo. Juntos. - diz ela, tentando me acalmar, mesmo que nem ela saiba como.
E tudo que eu consigo pensar é: será que o Daniel viu isso? Será que ele ainda vai me escolher... agora que o mundo inteiro sabe de nós?
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