Agora a mesma cobra contada pelo lado dele. Os dois tremendo e cada um achando que o outro tava calmo, rapaz.
Capitulo 6- O lugar onde tudo parecia voltar
Pensamento
Agora a mesma cobra contada pelo lado dele. Os dois tremendo e cada um achando que o outro tava calmo, rapaz.
Conteúdo da publicação
O lugar onde tudo parecia voltar
Contado por Pedro
Depois de reencontrar Clara na oficina, eu tentei não pensar demais naquilo.
Mas era difícil.
Tinha alguma coisa naquele segundo encontro que havia sido diferente.
Na estrada, eu podia colocar a culpa no acaso.
Um acidente.
Uma coincidência.
Duas pessoas que não se viam há anos e, por uma dessas ironias da vida, acabam parando uma diante da outra.
Na oficina, já era mais difícil acreditar que aquilo não significava nada.
E depois daquele café, quando trocamos nossos telefones, eu voltei para casa com uma sensação que não conseguia explicar.
Eu queria procurar Clara.
Queria conversar novamente.
Queria saber mais sobre sua vida.
Mas não fiz isso.
Não porque não tivesse vontade.
Talvez justamente porque tivesse vontade demais.
Eu não queria voltar a ser aquele rapaz que se apaixonava e imaginava futuros antes mesmo de saber se a outra pessoa queria o mesmo.
Eu tinha aprendido a ser mais cuidadoso.
Ou pelo menos gostava de acreditar que tinha.
Naquela manhã, resolvi ir até a cachoeira.
Era um lugar que eu conhecia desde criança e que ainda frequentava de vez em quando.
Não tinha nada de especial para quem não conhecia nossa história.
Para mim, porém, aquele lugar guardava uma quantidade absurda de lembranças.
Eu e Clara já havíamos passado tantas tardes ali.
Naquela época, éramos apenas dois jovens tentando descobrir o mundo.
Corríamos pela trilha.
Ríamos de qualquer coisa.
Fazíamos planos que pareciam enormes.
Falávamos sobre o futuro como se tivéssemos certeza de que ele nos pertenceria.
E, algumas vezes, sentados perto da água, imaginávamos como seria quando fôssemos adultos.
Ela queria tantas coisas.
Eu também.
Falávamos sobre trabalho, uma casa, viagens.
E, quando o assunto chegava à família, tudo parecia ainda mais bonito.
Uma casa nossa.
Filhos.
Uma vida juntos.
Éramos jovens demais para saber o peso das palavras.
Mas não jovens demais para sentir.
Talvez por isso aquele lugar sempre tivesse permanecido comigo.
Cheguei acompanhado de algumas pessoas da família e fiquei mais afastado, aproveitando a manhã.
Eu estava conversando, tentando prestar atenção no assunto, quando uma pessoa foi buscar algumas coisas no carro.
Fiquei sozinho por alguns minutos.
Foi quando ouvi um barulho vindo mais abaixo.
Nada muito diferente.
Provavelmente alguém chegando.
Olhei rapidamente naquela direção.
E parei.
Eu conhecia aquela pessoa.
Mesmo de longe.
Era Clara.
Meu primeiro pensamento foi tão absurdo que quase ri de mim mesmo.
Não pode ser.
Depois de tudo?
Na estrada.
Na oficina.
Agora aqui?
Fiquei alguns segundos observando.
Ela estava sentada perto da água, com um livro nas mãos.
Parecia tranquila.
E havia algo naquela imagem que me trouxe uma sensação estranha.
Como se eu tivesse voltado muitos anos no tempo.
Clara continuava tendo aquele jeito de procurar lugares onde o mundo pudesse ficar em silêncio.
Ela sempre gostou disso.
Eu pensei em ir embora.
Não queria que ela achasse estranho me encontrar de novo.
Mas então vi o celular dela cair perto da água.
Ela se levantou rapidamente.
Ajoelhou-se para pegá-lo.
E, em seguida, escorregou.
— Clara!
Meu corpo se moveu antes mesmo que eu pensasse.
Atravessei a pequena distância até ela.
— Você está bem?
Ela tentou se levantar.
— Estou.
Eu me aproximei mais, verificando se havia se machucado.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela ainda segurava o celular.
Olhei para a água e depois para ela.
— Você nunca mudou.
Ela me lançou um olhar confuso.
— Como assim?
Sorri.
— Continua se metendo em situações que poderiam ser evitadas.
Ela revirou os olhos.
— Você continua implicando comigo.
— Alguém precisa.
Ela riu.
E naquele momento senti alguma coisa dentro de mim se aquecer.
Era tão familiar.
Aquela troca.
Aquelas pequenas provocações.
Parecia fácil.
Natural.
Como se todos aqueles anos não tivessem existido.
Foi então que percebi que ela estava olhando para outra direção.
Segui seu olhar.
E vi a cobra próxima à margem.
Ela ficou imóvel.
O rosto mudou imediatamente.
Clara sempre teve coragem para muitas coisas.
Mas havia algumas situações que realmente a assustavam.
E eu lembrava disso.
— Não se mexe — falei baixo.
Ela olhou para mim.
— Pedro...
— Fica tranquila.
Aproximei-me apenas o suficiente para ajudá-la a sair dali sem fazer movimentos bruscos.
Ela estava completamente tensa.
Eu conseguia perceber pela respiração.
Por um instante, senti aquela vontade antiga de protegê-la.
A mesma que existia quando éramos mais jovens.
A diferença era que agora eu sabia que ela não era mais aquela garota.
E eu também não era mais aquele garoto.
Mesmo assim, naquele momento, alguma coisa parecia exatamente igual.
Coloquei a mão em sua cintura para ajudá-la a se manter firme.
Foi um gesto natural.
Instintivo.
Mas, assim que toquei nela, percebi o quanto aquilo mexeu comigo.
Ela ficou imóvel.
Eu também.
O silêncio ao nosso redor pareceu maior.
A água continuava correndo.
Os pássaros continuavam cantando.
Mas eu só conseguia perceber que Clara estava ali.
Tão perto.
Depois de tantos anos.
Meu coração começou a bater mais rápido.
E eu tive medo de que ela percebesse.
— Você ainda continua uma menina sapeca como sempre — falei, tentando quebrar a tensão.
Ela não respondeu.
Apenas assentiu.
Sorri de leve.
— Lembra do que a gente fazia?
Ela olhou para mim.
— Esperava.
— Isso.
Olhei novamente para a cobra.
— Ela está no espaço dela. Nós é que invadimos.
Ela respirou fundo.
— Fica tranquila. Daqui a pouco ela vai embora.
Eu queria que aquela frase fosse suficiente para acalmá-la.
Mas, no fundo, comecei a perceber que talvez ela não estivesse nervosa apenas por causa da cobra.
Eu também estava.
Enquanto esperávamos, fiquei pensando em como era estranho estar ali.
Naquele mesmo lugar onde, muitos anos atrás, eu segurava a mão dela para ajudá-la a atravessar pedras.
Onde nós inventávamos futuros.
Onde ela ria de mim quando eu tentava parecer corajoso.
Onde eu olhava para ela e pensava que talvez um dia pudesse construir tudo aquilo que sonhávamos juntos.
E agora ela estava ali novamente.
Uma mulher.
Linda.
Segura.
Dona da própria vida.
Mas, naquele instante, ainda havia alguma coisa da Clara que eu conheci.
Eu conseguia enxergar.
E isso me atingiu mais do que eu esperava.
Porque percebi que eu também carregava uma versão daquele menino.
Aquele que ainda lembrava.
Aquele que nunca conseguiu explicar completamente por que deixou aquele amor para trás.
Quando finalmente foi possível nos afastarmos da margem, deixei a mão de sua cintura lentamente.
E senti falta do contato quase imediatamente.
Aquilo me assustou.
Eu não podia permitir que uma lembrança de tantos anos me fizesse esquecer quem éramos hoje.
Clara olhou para mim.
— Obrigada.
— Você sabe que não precisava agradecer.
Ela sorriu.
E eu fiquei olhando para ela por alguns segundos.
Queria perguntar o que ela estava fazendo ali.
Queria saber se também havia pensado em nossa juventude.
Queria perguntar se ela lembrava dos sonhos que fazíamos.
Mas tive medo de abrir uma porta que talvez nenhum dos dois estivesse preparado para atravessar.
Então perguntei apenas:
— Você vem sempre aqui?
Ela sorriu.
— Desde muito tempo.
Assenti.
— Eu também.
E nós dois entendemos o peso daquela resposta.
Caminhamos até o lugar onde ela havia deixado suas coisas.
O livro continuava aberto sobre a toalha.
Olhei para ele e depois para Clara.
— Você veio sozinha?
— Vim.
— E ninguém sabia que você estava aqui?
— Não.
Balancei a cabeça.
— Você continua igual.
Ela riu.
— Isso é uma crítica?
— Ainda estou decidindo.
Ela me deu um leve empurrão no braço.
Eu ri.
E, por alguns segundos, esquecemos completamente o tempo.
Foi fácil.
Quase assustadoramente fácil.
Fiquei ali mais alguns minutos.
Conversamos sobre coisas simples.
Ela perguntou sobre minha família.
Eu perguntei sobre a empresa.
Ela falou dos sonhos que ainda tinha.
Eu contei alguns dos meus.
E, enquanto a ouvia, percebi que havia alguma coisa que eu precisava aceitar.
Eu não estava simplesmente reencontrando uma lembrança.
Estava conhecendo novamente uma mulher que um dia conheci como menina.
E isso mudava tudo.
Porque agora eu não queria voltar ao passado.
Eu queria conhecer o presente.
Queria descobrir quem Clara era agora.
Sem idealizar.
Sem imaginar demais.
Sem tentar recuperar o que perdemos.
Apenas conhecer.
Antes de ir embora, olhei uma última vez para ela.
— Clara...
— Oi?
Quase disse muitas coisas.
Eu pensei em você.
Eu nunca esqueci completamente.
Eu fiquei feliz de encontrar você.
Mas escolhi apenas:
— Toma mais cuidado na próxima vez.
Ela riu.
— Eu vou tentar.
— Você sempre diz isso.
— E você sempre aparece para me salvar.
Assim que ela falou aquilo, meu sorriso desapareceu por um instante.
Porque aquela frase carregava muito mais significado do que provavelmente ela pretendia.
Você sempre aparece para me salvar.
Talvez eu tivesse aparecido muitas vezes no passado.
Talvez ela tivesse aparecido em meus pensamentos muito mais vezes do que eu gostaria de admitir.
E talvez aquele reencontro tivesse despertado alguma coisa que nenhum dos dois sabia ainda como chamar.
Despedi-me dela e voltei para onde minha família estava.
Mas, antes de me afastar completamente, olhei para trás.
Clara ainda estava perto da água.
E, naquele momento, percebi que eu já não conseguia mais convencer a mim mesmo de que tudo aquilo era apenas coincidência.
Três encontros.
Uma estrada.
Uma oficina.
Agora, a cachoeira onde nossa história havia começado.
Era como se a vida estivesse, pouco a pouco, nos colocando novamente nos mesmos lugares.
A diferença é que agora éramos outras pessoas.
E talvez essa fosse justamente a pergunta que mais me assustava:
e se o destino não estivesse tentando nos fazer voltar ao passado, mas descobrir se ainda existia espaço para nós no futuro?
Naquele dia, eu ainda não tinha uma resposta.
Mas, pela primeira vez, tive coragem de admitir uma coisa para mim mesmo:
Eu não queria que aquele fosse o nosso último encontro.
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