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Capítulo 25: A Chuva

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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livro (Querida, Sorria!)

As portas automáticas de vidro do hospital se abriram. O céu do começo da tarde, que antes ostentava um cinza pálido, havia escurecido de forma abrupta, carregado por nuvens densas e pesadas. Maraíra desceu a pequena rampa de acesso e parou na calçada. A poucos metros de distância, o SUV blindado de sua mãe estava estacionado, com o motorista e um dos seguranças escorados na lataria, aguardando ordens.

Maraíra não olhou duas vezes para eles. Virou as costas e começou a caminhar na direção oposta, decidida a se afastar o mais rápido possível daquele raio de alcance.

A cada passo que dava, a calma fingida que a mantivera de pé durante o embate com Marta começava a se dissipar. O corpo cobrava o preço da tensão acumulada, e as escoriações nas mãos repuxavam de leve, uma lembrança incômoda, mas perfeitamente suportável, da violência que a libertara. O verdadeiro cansaço, no entanto, não vinha dos ferimentos que já cicatrizavam, mas do peso monumental de ter rompido definitivamente com o próprio passado.

Foi então que a primeira gota caiu, grossa e gelada, atingindo seu ombro. Depois, outra em seu rosto. Em questão de segundos, as nuvens cederam, e um temporal repentino desabou impiedosamente sobre o asfalto. Num reflexo rápido, ergueu a bolsa grande de tecido artesanal — que havia comprado de uma das amigas artesãs de Vivi — e a colocou por cima da cabeça, usando-a como um escudo improvisado contra o aguaceiro enquanto apressava o passo pela calçada vazia.

De repente, o som agressivo da chuva batendo na bolsa foi abafado. A água simplesmente parou de cair sobre ela, embora o temporal continuasse castigando o chão ao seu redor.

Maraíra parou de supetão, os músculos retesados, e abaixou a bolsa lentamente até o peito.

Um homem estava parado na calçada, a menos de um passo de distância, segurando um grande guarda-chuva escuro sobre a cabeça dos dois. Maraíra tencionou a postura imediatamente, o instinto de defesa em alerta máximo. Seus olhos faiscaram, prontos para enfrentar qualquer capanga que a mãe ou Igor tivessem mandado.

Mas não era um segurança que a encarava. Era um desconhecido. Alto, com ombros largos e uma postura que exalava uma força tranquila. Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados pela umidade, e o rosto, de maxilar definido e traços marcantes, emoldurava olhos inteligentes de um castanho profundo e acolhedor. Era Fábio.

Sob a redoma improvisada do guarda-chuva, o espaço era curto, forçando uma proximidade inédita entre os dois. Maraíra o observou de perto, quase prendendo a respiração. Varreu cada detalhe: a postura relaxada, as roupas simples — camisa xadrez, calça jeans e botas —, o olhar firme, porém desprovido de qualquer hostilidade.

Fábio sustentou o olhar dela. Sob a aparente calma analítica que demonstrava, seu coração batia em um ritmo descompassado. Ele sempre a observara de longe, nutrindo um sentimento silencioso e enraizado pela mulher que agora estava a centímetros de distância. Falar com ela pela primeira vez, no entanto, trazia um choque de realidade áspero. Ele a avaliou de perto e notou os fios acobreados úmidos, mas foi a marca avermelhada da bofetada de Igor na bochecha pálida que acendeu um fogo em seu peito.

Um instinto primitivo e protetor gritou; ele quis abraçá-la, quis envolvê-la em segurança e trucidar com as próprias mãos o covarde que ousara deixar aquela marca no rosto da mulher que ele admirava. Mas engoliu a fúria. Sabia que um movimento brusco a faria fugir. Manteve a postura impassível, reprimindo a urgência de seus próprios sentimentos para dar a ela o tempo necessário para decidir se confiaria nele. Por fim, observou as mãos esfoladas que apertavam a alça da bolsa com uma força desnecessária, prontas para usá-la como arma de defesa — uma tensão que, aos poucos, foi cedendo, como se ela estivesse decidindo confiar.

A tensão entre os dois era palpável e silenciosa, mas foi, gradativamente, se transformando em um momento acolhedor. O mundo ao redor parecia ter se resumido ao som da água batendo no tecido do guarda-chuva.

A expressão de Fábio quebrou a seriedade com um vinco divertido no canto dos lábios.

— Como escudo, essa sua bolsa parece ser de excelente qualidade — a voz grave dele soou tranquila, competindo com o barulho da chuva —, mas como guarda-chuva, devo admitir que ela deixa um pouco a desejar.

Maraíra continuou em silêncio. Baixou os olhos para a bolsa, notando a forma rígida como a mantinha erguida entre os dois, como uma barricada física. Ela sorriu de leve e sussurrou:

— Desculpe.

Ela avaliou o nível de perigo daquela aproximação inesperada, mas algo na postura dele emanava uma confiança inegável.

— Tem uma cafeteria virando a esquina. Um lugar público, bem iluminado e, o mais importante, com teto — continuou Fábio, apontando levemente com a cabeça para o fim da rua, percebendo a desconfiança absoluta estampada no rosto dela. — Posso te acompanhar até lá. Você entra, senta e pode esperar essa chuva passar em segurança.

Maraíra hesitou. O instinto de sobrevivência ainda estava em alerta total, mas sua mente avaliou as circunstâncias e decidiu confiar por alguns instantes naquele estranho. O cansaço psicológico estava cobrando o seu preço, e a chuva engrossava a cada segundo. O que a fez ceder, porém, não foi o clima, mas a postura dele: era uma oferta estritamente prática.

— Obrigada — ela assentiu, com um leve movimento de cabeça.

Eles caminharam em silêncio até a cafeteria. Fábio abriu a porta para que ela entrasse primeiro. Ela agradeceu com um aceno curto e se afastou. O aroma quente e encorpado de grãos torrados preenchia o ar, misturando-se ao calor confortável do ambiente, um contraste brutal com o frio úmido lá fora. Ele deu espaço para que ela se acomodasse em uma mesa e ficou ali perto do balcão, observando-a de longe.

Ela pediu um expresso puro. Quando a pequena xícara de porcelana chegou, o vapor ralo dançou no ar. O calor irradiou para a palma de suas mãos doloridas, trazendo um alívio sedativo. Ficou alguns minutos ali, rodando a colherinha amargamente, o olhar perdido através da janela ampla da cafeteria, como se os pensamentos estivessem a quilômetros de distância.

De repente, o celular de Maraíra vibrou em sua bolsa. Era uma mensagem curta, de um remetente não identificado, mas que ela sabia muito bem ser de Luiza, a secretária de Marta: "Homens do Igor estão te procurando. Saia de vista."

Ao erguer os olhos em direção à janela para checar os arredores, avistou dois homens de terno escuro sob a chuva, vasculhando o outro lado da calçada. O coração saltou. Em um reflexo imediato, ela esbarrou na própria bolsa de propósito, fazendo com que o fecho se abrisse e os pertences caíssem no chão. Mergulhou para debaixo da mesa, fingindo recolhê-los vagarosamente.

Eles devem estar atrás de mim por ordem de Igor, inconformado por não ter conseguido me internar, deduziu, a mente afiada trabalhando a mil por hora. Se Igor continuar me perseguindo, terei que dar um jeito nele eu mesma, pensou Maraíra, os dentes trincados de raiva.

O sino da porta tocou. Os dois seguranças entraram na cafeteria, os olhos varrendo o salão.

 

Thoughts

  • ArnaldoBessa

    Desde que o Igor tentou internar ela eu esperava a Maraíra fugindo sozinha, e ela derrubar a bolsa pra se esconder debaixo da mesa foi bem o jeito dela. Por isso o Fábio me incomoda: eu vi o capítulo inteiro virar romance no meio da fuga. Pra mim ele vai se meter com os seguranças e estragar o esconderijo.

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  • AlmaTavares

    O expresso puro a aquecer as mãos esfoladas foi onde parei. Um alívio pequeno, quase envergonhado, depois do hospital inteiro, e durou só até o telemóvel vibrar.

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  • AmandaPeixoto

    A Maraíra pede desculpa pela bolsa e mais nada. E tudo o que o Fábio sente a gente só sabe porque o texto entra na cabeça dele, ela nem desconfia. Tu vai voltar pra cabeça do Fábio mais vezes?

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  • GasparRibeiro

    Os homens do Igor chegam à cafeteria minutos depois dela. Ou alguém os avisou ou seguiram o SUV da mãe, que estava parado à porta do hospital. Aposto na segunda, e a Luiza sabia.

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  • Ovid

    A bolsa de tecido que a Maraíra comprou de uma amiga da Vivi virando escudo contra a chuva me fez pensar em como as coisas pequenas dela vão carregando a história: o celular, a xícara, agora a bolsa. Aposto que essa bolsa ainda vai ter papel nisso tudo, ela já serviu duas vezes só neste capítulo!

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  • EsquinaDaLeitura

    Esse Fábio que observava ela de longe há tempo me deixa com a pulga atrás da orelha. Homem que aparece na saída do hospital, na hora certa, com guarda-chuva pronto, não caiu ali por acaso. Aposto que ele trabalha pra alguém dessa família, talvez até pra Marta sem a Maraíra saber, e que o primeiro susto dela debaixo daquele guarda-chuva estava certo.

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