livro (Querida, Sorria!)
Maraíra havia regressado de sua viagem ao exterior. Sentada na cadeira de balanço de sua varanda branca, ela segurava uma xícara de café entre as mãos. O céu exibia tons pastéis de laranja e lilás, anunciando o fim da tarde, enquanto uma brisa suave balançava as folhas das árvores e espalhava o aroma intenso e reconfortante do café recém-coado pelo ar.
Seu olhar se perdeu no horizonte, observando os majestosos cavalos que pastavam tranquilamente ao longe. Mais à esquerda, notou a estrutura de madeira recém-construída para abrigar os animais. A logística para erguer aquele galpão e instalar a nova porteira em tão pouco tempo não deve ter saído nada barata, concluiu Maraíra, intrigada.
A mente dela, porém, foi ainda mais longe. Tão distante que sequer percebera que o café em sua xícara já havia esfriado. Ela repassava cada etapa de seu plano. Agora que dera entrada no processo litigioso de divórcio, conhecia exatamente os próximos passos de Pedro. Após a exposição pública de Júlia e de seus amantes, o marido devia estar amargando a raiva de um ego destroçado. Para punir Júlia, ele fatalmente tentaria reatar com Maraíra, alegando ter descoberto que "sempre a amara".
Esse sempre fora o jogo doentio dele: manter as duas irmãs brigando por sua atenção, controlando-as através da rivalidade. Pedro era sádico e narcisista; apoiava-se no rancor e no ódio entre elas para manter seu próprio equilíbrio, sentindo-se adorado por ambas.
Mas o cenário havia mudado. Júlia a mandara para o bangalô para definhar, mas Maraíra estava lúcida, recuperada e blindada. Pedro não tinha mais o controle da situação, e isso certamente o estava enlouquecendo. Era exatamente nesse desespero — e no ressentimento pela traição de Júlia — que Maraíra iria golpear. Quando ele recebesse a notificação do divórcio, viria até ela. Primeiro, a ameaçaria; depois, imploraria com falsas juras de amor. Ela conhecia as regras desse jogo e, desta vez, as cartas estavam em suas mãos.
Um bipe suave em seu celular interrompeu seus pensamentos. Era o aplicativo da nova portaria eletrônica anunciando um visitante. Pela câmera, viu o carro de Vivi. Maraíra apertou o botão na tela para destravar o portão de ferro.
Quando Vivi estacionou e caminhou até se acomodar confortavelmente no balanço da varanda, Maraíra já havia entrado na casa. Ela retornou trazendo um bule fumegante e mais uma xícara. Colocou a bandeja no centro da mesa rústica, serviu a amiga, renovou o próprio café, que já estava gelado, e sentou-se na cadeira mais próxima.
— Eu adoro café em dias quentes — exclamou Vivi, apreciando a bebida.
— Eu sei — disse Maraíra, com um sorriso leve.
Vivi tomou um gole generoso e adotou um tom mais sério, estreitando os olhos.
— Mulher, você está jogando um jogo perigoso. Eu estou vindo do clube de tiro e caça... Você está fazendo aulas há meses?
— Sim, há uns meses. Tenho que saber manusear uma arma, caso algum animal perigoso tente entrar aqui — disse Maraíra, sorrindo de canto. — Afinal, eu sou uma mulher solitária — completou, com uma pontada nítida de sarcasmo.
Mudando de assunto estrategicamente, ela apontou com o queixo para a estrada.
— Mas, me fala... e esse homem que está construindo essa mansão ali do outro lado da estrada, o que você já sabe? — perguntou Maraíra, curiosa para saber o que Vivi já havia descoberto sobre o desconhecido.
Vivi, com sua tagarelice característica, não poupou detalhes e despejou tudo o que sabia, acompanhado de todas as suas suposições.
— Ele é neto do senhor Agenor — revelou a enfermeira.
Maraíra sentiu uma pontada de tristeza e nostalgia ao lembrar do dia da partida do senhor Agenor.
— Então ele é confiável... — murmurou Maraíra, soando mais como uma constatação para si mesma do que uma pergunta.
— Confiável, bonito, riquíssimo e, o mais importante: solteiro! — disparou Vivi, dando uma piscadela maliciosa.
Maraíra sorriu. Ela já conhecia Fábio; sabia muito bem que ele era charmoso. Algo nele a atraíra desde o primeiro encontro na estrada, mas, ao mesmo tempo, disparava um sinal de alerta em seu interior. Ela não tinha espaço para distrações. Tinha uma meta, uma vingança a executar, e romance, definitivamente, não estava em seu planejamento.
Vivi voltou a tagarelar, desta vez mencionando o secretário de Fábio, a chegada dos animais e a súbita visita de Igor ao bangalô.
Bom, já que minha mãe não está controlando o próprio marido, eu mesma precisarei fazer isso, pensou Maraíra, friamente.
Voltando à realidade, ela abriu um sorriso enigmático para a amiga:
— Realmente, aconteceu muita coisa aqui na minha ausência.
Perder dinheiro sempre faz com que as pessoas fiquem preocupadas consigo mesmas e deixem de se preocupar com terceiros, raciocinou. Queria ver como Igor se sairia tentando conter uma perda maciça de ativos.
Maraíra sorria e acenava com a cabeça para Vivi, como se estivesse prestando atenção à conversa, mas sua mente operava em outra frequência, lapidando os detalhes de seus planos táticos.
— Eu já vou embora. Você não está prestando atenção em uma palavra do que eu digo — concluiu Vivi, levantando-se com um suspiro conformado. — Quando quiser conversar de verdade, me liga que eu venho. E, por favor, se cuida com essas armas. Só aponte uma para alguém se realmente for matar — completou, dando uma piscadela para Maraíra.