No capítulo passado eu achava que a Maraíra tinha entregado a prova pra Júlia. Agora a família apaga a prova junto com o resto: sem boletim, sem site de fofoca, sem delegacia, a confissão da Júlia vale zero de novo e o laudo de insanidade vira o único papel que existe. Aposto que a próxima jogada do Pedro é um médico amigo aparecer na casa dela com cara de visita.
Capítulo 22: Hospital
livro ( Querida, Sorria!)
Em séries
Pensamento
No capítulo passado eu achava que a Maraíra tinha entregado a prova pra Júlia. Agora a família apaga a prova junto com o resto: sem boletim, sem site de fofoca, sem delegacia, a confissão da Júlia vale zero de novo e o laudo de insanidade vira o único pap
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livro ( Querida, Sorria!)
A noite já caía pesada lá fora. Maraíra estava sentada na maca fria de uma sala coletiva de observação, sob a luz branca e estéril que zumbia no teto. O cheiro ardido de antisséptico e éter empesteava o ar; Maraíra conhecia bem aquele cheiro. Havia um policial fardado de guarda na porta. Suas mãos repousavam sobre o colo, pesadas, envoltas em ataduras brancas; os nós dos dedos estavam em carne viva. Além das escoriações enfaixadas, ostentava um corte profundo no antebraço esquerdo, agora fechado por seis pontos apertados de fio cirúrgico. Não se lembrava da dor do rasgo na pele, tampouco do momento exato em que havia se ferido no cascalho enquanto espancava Júlia com os próprios punhos.
Sua mente fervilhava, alheia ao ambiente clínico, engolfada pelas próprias teorias e estratégias. Tentava absorver a magnitude do que a meia-irmã confessara. Como Júlia conseguira trocar seus antidepressivos durante todos esses anos sem que ela percebesse? Teria contado com a conivência de algum funcionário da mansão? Não, impossível, concluiu em silêncio. Teria sido o próprio Pedro a ajudá-la na troca dos frascos? A resposta ecoou assustadoramente lógica: Sim. Ele seria perfeitamente capaz. Por isso a sua sanidade fora tão questionada durante todos aqueles anos.
E então vinha a pior das revelações. As palavras venenosas sobre o seu bebê, o recém-nascido que morrera no berço. Seria verdade? Júlia realmente estava no quarto quando tudo aconteceu, mas, na época, a justificativa oficial foi de que ela não havia percebido a criança sufocando. Mas será que a meia-irmã teria cometido a maldade extrema de assistir um recém-nascido perder o ar sem intervir? Ou ela mesma teria tirado a vida do seu lindo bebezinho? O peito de Maraíra afundou, esmagado por uma asfixia invisível, e uma culpa letal a corroeu por dentro. Se eu tivesse agido diferente... Se tivesse prestado mais atenção... Se tivesse me afastado dessa família tóxica mais cedo, meu filho poderia estar vivo?... Uma única lágrima quente escorreu pelo rosto pálido. Uma dor dilacerante, enraizada na impotência, apoderou-se de sua alma ao constatar o que poderia ter sido evitado.
— Maraíra... — chamou Vivi, rompendo o silêncio.
A enfermeira já havia entrado na sala há alguns segundos, mas a amiga parecia presa em outra dimensão. Vivi se aproximou da maca, analisando o rosto molhado.
— Você está chorando? Ah, não vai me dizer que é de pena da vaca que está lá na cirurgia, né? — Ela respirou fundo, tentando quebrar a tensão, e emendou com um tom conspiratório e brincalhão: — Olha, você deve ter tido um bom motivo. Eu até posso te ajudar a enterrar um defunto, mas você precisa me avisar antes, só para eu me preparar psicologicamente.
A quebra de expectativa fez um sorriso leve despontar nos lábios de Maraíra.
— Você deve ser muito rica, sabia? — continuou Vivi, baixando a voz e se encostando na maca. — Acredita nisso? Você ia sair daqui direto para a delegacia. Mas aí chegaram uns engravatadinhos, entraram na sala, falaram com o delegado... e as notícias que já pipocavam nos sites de fofoca da região foram misteriosamente deletadas. Tudo silenciado. O policial ali da porta já avisou que você pode ir para casa. Simples assim.
Maraíra engoliu em seco e um frio surgiu na barriga. Sabia exatamente o que aquilo significava. Sua família já estava agindo nos bastidores, acionando escritórios de advocacia poderosos para abafar o caso. Seria um escândalo irreparável. Por mais que o relacionamento entre elas fosse gélido e distante, a matriarca jamais aceitaria ter uma mancha daquelas na sua reputação: a única filha biológica presa por tentativa de homicídio. Para a mãe de Maraíra, do ponto de vista social e corporativo, era muito mais higiênico forçar a narrativa de que a filha havia enlouquecido de vez e precisava ser interditada em um sanatório. E, para Pedro, era tudo de que ele precisava: um laudo de insanidade para administrar todo o patrimônio da esposa sem ser questionado.
— Vem, levanta. Vou te levar para casa e te fazer um jantar — disse Vivi, puxando as chaves do bolso. — Com essas mãos enfaixadas, você não vai conseguir segurar nem um copo. Sem contar que você gastou muita energia batendo naquela mulher. — Ela soltou uma risada anasalada, adotando um tom de deboche. — Fica tranquila, ela vai ficar bem. Só vai precisar de umas boas cirurgias plásticas para tirar as cicatrizes. Falando sério agora... eu a reconheci. É a mesma mulher arrogante que te jogou no bangalô no ano passado. Eu não sei qual é a sua história, Maraíra, mas essa sua família tem alguma coisa muito errada.
A enfermeira tagarelava para preencher o vazio, mas logo o discurso virou um monólogo. Maraíra continuava muda, de olhar fixo e semblante sombrio, como se os ombros sustentassem um fardo pesado demais para a própria espinha.
O ar noturno no estacionamento era trazido por um vento leve e frio, suficiente para varrer o cheiro de hospital de suas roupas. Vivi abriu a porta do carona do seu velho Palio e esperou que a amiga se acomodasse. Maraíra entrou calada. Vivi assumiu o volante, mas, antes de dar a partida, virou-se no banco e a encarou com convicção:
— Escuta aqui: as pessoas só fazem conosco aquilo que permitimos. Não deixe que aquela mulher destrua tudo o que você ergueu nesses últimos meses. Você é a senhora da sua vida agora, Maraíra. Reage! — Vivi bufou, cruzando os braços sobre o volante. — E para de ficar calada assim! Gente calada me dá um nervoso desgraçado!
A bronca exasperada soou tão genuína que a barreira de gelo se rompeu. Maraíra começou a rir. Uma risada rouca que logo foi acompanhada pela gargalhada da própria Vivi. O motor do Palio finalmente roncou, engasgando antes de pegar, e o carro ganhou a estrada escura.
Enquanto a amiga retomava sua tagarelice rítmica e reconfortante, a mente de Maraíra, milimetricamente fria mais uma vez, voltava a organizar as peças do tabuleiro. As palavras de Vivi dançavam em sincronia perfeita com a epifania que tivera horas atrás no jipe: As pessoas só fazem conosco aquilo que permitimos. E ela não seria mais uma vítima. O passado era passado, não havia como mudar. Mas, agora, tudo seria diferente.
Thoughts
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PermalinkRi alto com a Vivi se oferecendo pra ajudar a enterrar um defunto, desde que avisem antes. E é ela que leva a Maraíra pra jantar com as mãos enfaixadas, sem pedir a história toda. Aposto que a Vivi acaba sabendo mais que os advogados da família. Obrigado por continuar publicando, BELADIA!
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PermalinkNo capítulo passado eu achava que a Maraíra tinha entregado a prova pra Júlia. Agora a família apaga a prova junto com o resto: sem boletim, sem site de fofoca, sem delegacia, a confissão da Júlia vale zero de novo e o laudo de insanidade vira o único papel que existe. Aposto que a próxima jogada do Pedro é um médico amigo aparecer na casa dela com cara de visita.
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