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Capítulo 21: A página em branco

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Aras e Oden se afastaram do salão enquanto a música desaparecia aos poucos atrás deles.

Mesmo caminhando ao lado do líder eteriano, Aras não conseguia afastar a imagem de Amme.

Havia um nó em seu estômago.

Ela estava triste.

Aquele sorriso...

— Está tudo bem? — perguntou Oden com cuidado.

Aras demorou um instante para responder.

— Desculpe... acho que deixei minha cabeça no salão.

Antes que o silêncio voltasse a ocupar o caminho, algo chamou sua atenção.

Pequenos seres luminosos flutuavam entre os arbustos, como estrelas que haviam decidido viver entre as flores.

— Isso são...

Oden sorriu discretamente.

— Fadas. Sim.

Aras manteve os olhos fixos nas pequenas luzes.

— Eu nunca pensei que as veria.

— Eu também dizia isso.

Ela finalmente desviou o olhar das pequenas criaturas e o encarou.

— Você?

Oden assentiu.

— Quando eu era pequeno, tinha certeza de que todos estavam mentindo. Diziam que elas apareciam para quem tivesse paciência... mas eu passava horas sentado nos jardins e nunca via nenhuma.

Aras sorriu de canto.

— Então elas não gostavam de você?

Ele levou a mão ao peito, fingindo indignação.

— Foi exatamente essa conclusão que eu tirei no meu oitavo milênio.

Ela riu baixo. A noção de idades dos eterianos e humanos, realmente era distinta.

Oden continuou:

— Passei quase um século tentando convencê-las a aparecer.

— E como pretendia fazer isso?

— Deixava presentes.

— Presentes?

— Flores, frutas... uma vez deixei metade da minha sobremesa favorita.

Aras arqueou uma sobrancelha.

— Isso parece uma ideia bem razoável.

— Também achei. Até descobrir que meu melhor amigo Pentre, estava comendo tudo escondido.

Aras levou a mão à boca para conter a risada.

— Ele fez isso?

— Durante quinhentos anos.

— E você nunca percebeu?

Oden suspirou dramaticamente.

— Eu era uma criança muito otimista.

Ela riu outra vez.

— E quando descobriu?

— No quidragésimo sexto dia. Resolvi me esconder atrás de uma árvore para finalmente conhecer uma fada... e encontrei Pentre sentado na grama, agradecendo às "generosas fadas" antes de comer minha torta. — Aras não conseguiu conter o riso. Oden observou o sorriso dela por um instante. — Foi a única vez que consegui fazer Pentre correr mais rápido do que eu.

O riso de Aras foi diminuindo aos poucos.

Ela voltou a observar as pequenas fadas, que continuavam dançando entre as flores como se ignorassem completamente a presença dos dois.

— Eu... acho que nunca tive uma história parecida.

Oden inclinou levemente a cabeça.

— Não?

Aras demorou a responder.

— Quando eu era criança, tudo parecia... muito comum.— Ela franziu a testa. — Ou talvez eu só não me lembre direito. — Oden não a interrompeu.Ela respirou fundo, tentando organizar as próprias lembranças. — Pensando bem...—Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.— Houve uma vez em que alguém me disse que as estrelas desciam para descansar nos lagos antes do amanhecer. — Ela soltou uma breve risada — Passei a madrugada inteira esperando.

Oden sorriu.

— E elas vieram?

Aras abriu a boca para responder...

Mas a resposta não veio.

Em vez disso, outra lembrança ocupou sua mente.

Uma voz rindo baixinho.

"Se você esperar o suficiente, elas aparecem."

Seu sorriso vacilou.

Ela abaixou os olhos.

— Não... —Murmurou quase para si. Oden a olhou com curiosidade.

Aras levou a mão à própria testa. — É estranho...

— O quê?

— Sempre que tento lembrar de alguma coisa bonita... ela termina na mesma pessoa.

Houve um breve silêncio.

— Um amigo? — perguntou Oden com delicadeza.

Aras permaneceu olhando para as fadas.

— Era.— Ela sorriu sem perceber.— Eu o conheci em uma floresta.— Oden aguardou. — Nós conversávamos sobre tudo.

— Tudo?

Ela soltou uma pequena risada.

— Sim... estrelas, música, histórias... coisas que pareciam muito importantes quando éramos crianças. — O sorriso, porém, desapareceu quase no mesmo instante. — Mas quanto mais tento lembrar dele... menos eu entendo.

— Entender o quê? — perguntou com cuidado.

Aras observou uma das pequenas fadas pousar sobre uma flor luminosa.

— Por que ele fez o que fez.

Oden não sabia exatamente o que falar. Qualquer resposta pareceria pequena.

Uma das fadas pousou em seu ombro por um breve momento antes de voltar a voar entre as árvores. Ele a acompanhou com o olhar e sorriu de lado.

— Acho que essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar.

Aras voltou os olhos para ele.

— O quê?

— Descobrir que, às vezes, nunca entendemos completamente alguém... mesmo depois de conhecê-lo por muito tempo.

Ela permaneceu em silêncio. Oden respirou fundo.

— Minha noiva, Yria... era incrível. Era minha melhor amiga. Mas, conforme foi perdendo a família, pareceu se afastar de quem era. Não a culpo. Eu também fui consumido pela guerra. A diferença é que eu não consegui transformar minha dor em motivo para tirar dos outros o pouco que ainda lhes restava.

Aras ouviu tudo sem interrompê-lo.

Depois de alguns instantes, falou quase num sussurro:

— Acho que eu vivi o contrário.

Oden a encarou.

— Como assim?

Ela sorriu de maneira melancólica.

— Eu quase não conheci as pessoas importantes da minha vida.

Ele franziu levemente a testa.

— O garoto da floresta... desapareceu.

Ela assentiu.

— E meu... marido...— A palavra pareceu estranha em sua própria boca.

— noivo... nós nem chegamos a nos casar. Eu o conhecia por cartas. — Um leve sorriso surgiu em seus lábios. — Ele escrevia muito.

— E escrevia bem?

— Demais. — Ela olhou para uma das fadas que passava entre eles. — Ele descrevia o mundo como se estivesse tentando me convencer de que ainda existiam coisas bonitas nele.

Oden percebeu que ela não falava apaixonada.

— Quando finalmente nos encontramos...— Ela respirou fundo. — Tivemos apenas uma conversa.

— Só uma?

— Apenas uma.

— E como ele era?

Aras pensou por alguns segundos.

— Gentil. — Outra pausa. — Muito paciente comigo.

— Então ele foi importante para você.

Ela demorou para responder.

— Acho que... gostaria de ter tido a chance de conhecê-lo.

Oden não respondeu imediatamente, parecia compreender que sua compainha, não lamentava um grande amor perdido e sim um futuro que nunca teve a oportunidade de existir.

Aras soltou uma pequena risada.

— É engraçado.

— O quê?

— Passei anos acreditando que minha vida já estava completamente escrita.—Ela olhou para o céu. — E agora... não faço ideia de qual página estou.

Oden ergueu os olhos para o céu por um instante.

— Alguém finalmente lhe devolveu a caneta senhorita A. O que deseja fazer a partir de agora?

— Eu adoraria... — Oden percebeu um movimento entre as árvores.

A fala de Aras foi cortada, e em um piscar de olhos estava caída com uma Eteriana de cabelos loiros, arcarcando unhas afiadas em seu pescoço.

Thoughts

  • conto84

    O Pentre roubando a sobremesa das fadas por quinhentos anos é o mesmo que tirou a Amme do baile no capítulo passado, e agora as duas coisas se explicam. E esse noivo que ela só conheceu por cartas, e que escrevia demais, eu desconfio que é o garoto da floresta.

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  • Ovid

    Não esperava o Pentre agradecendo às fadas antes de comer a torta do Oden, não num capítulo tão pesado. Comigo funcionou igual com a Aras: rir primeiro e depois cair na lembrança do garoto da floresta. E esse fim com a unha no pescoço deixa a página em branco bem literal.

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