Aras e Oden se afastaram do salão enquanto a música desaparecia aos poucos atrás deles.
Mesmo caminhando ao lado do líder eteriano, Aras não conseguia afastar a imagem de Amme.
Havia um nó em seu estômago.
Ela estava triste.
Aquele sorriso...
— Está tudo bem? — perguntou Oden com cuidado.
Aras demorou um instante para responder.
— Desculpe... acho que deixei minha cabeça no salão.
Antes que o silêncio voltasse a ocupar o caminho, algo chamou sua atenção.
Pequenos seres luminosos flutuavam entre os arbustos, como estrelas que haviam decidido viver entre as flores.
— Isso são...
Oden sorriu discretamente.
— Fadas. Sim.
Aras manteve os olhos fixos nas pequenas luzes.
— Eu nunca pensei que as veria.
— Eu também dizia isso.
Ela finalmente desviou o olhar das pequenas criaturas e o encarou.
— Você?
Oden assentiu.
— Quando eu era pequeno, tinha certeza de que todos estavam mentindo. Diziam que elas apareciam para quem tivesse paciência... mas eu passava horas sentado nos jardins e nunca via nenhuma.
Aras sorriu de canto.
— Então elas não gostavam de você?
Ele levou a mão ao peito, fingindo indignação.
— Foi exatamente essa conclusão que eu tirei no meu oitavo milênio.
Ela riu baixo. A noção de idades dos eterianos e humanos, realmente era distinta.
Oden continuou:
— Passei quase um século tentando convencê-las a aparecer.
— E como pretendia fazer isso?
— Deixava presentes.
— Presentes?
— Flores, frutas... uma vez deixei metade da minha sobremesa favorita.
Aras arqueou uma sobrancelha.
— Isso parece uma ideia bem razoável.
— Também achei. Até descobrir que meu melhor amigo Pentre, estava comendo tudo escondido.
Aras levou a mão à boca para conter a risada.
— Ele fez isso?
— Durante quinhentos anos.
— E você nunca percebeu?
Oden suspirou dramaticamente.
— Eu era uma criança muito otimista.
Ela riu outra vez.
— E quando descobriu?
— No quidragésimo sexto dia. Resolvi me esconder atrás de uma árvore para finalmente conhecer uma fada... e encontrei Pentre sentado na grama, agradecendo às "generosas fadas" antes de comer minha torta. — Aras não conseguiu conter o riso. Oden observou o sorriso dela por um instante. — Foi a única vez que consegui fazer Pentre correr mais rápido do que eu.
O riso de Aras foi diminuindo aos poucos.
Ela voltou a observar as pequenas fadas, que continuavam dançando entre as flores como se ignorassem completamente a presença dos dois.
— Eu... acho que nunca tive uma história parecida.
Oden inclinou levemente a cabeça.
— Não?
Aras demorou a responder.
— Quando eu era criança, tudo parecia... muito comum.— Ela franziu a testa. — Ou talvez eu só não me lembre direito. — Oden não a interrompeu.Ela respirou fundo, tentando organizar as próprias lembranças. — Pensando bem...—Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.— Houve uma vez em que alguém me disse que as estrelas desciam para descansar nos lagos antes do amanhecer. — Ela soltou uma breve risada — Passei a madrugada inteira esperando.
Oden sorriu.
— E elas vieram?
Aras abriu a boca para responder...
Mas a resposta não veio.
Em vez disso, outra lembrança ocupou sua mente.
Uma voz rindo baixinho.
"Se você esperar o suficiente, elas aparecem."
Seu sorriso vacilou.
Ela abaixou os olhos.
— Não... —Murmurou quase para si. Oden a olhou com curiosidade.
Aras levou a mão à própria testa. — É estranho...
— O quê?
— Sempre que tento lembrar de alguma coisa bonita... ela termina na mesma pessoa.
Houve um breve silêncio.
— Um amigo? — perguntou Oden com delicadeza.
Aras permaneceu olhando para as fadas.
— Era.— Ela sorriu sem perceber.— Eu o conheci em uma floresta.— Oden aguardou. — Nós conversávamos sobre tudo.
— Tudo?
Ela soltou uma pequena risada.
— Sim... estrelas, música, histórias... coisas que pareciam muito importantes quando éramos crianças. — O sorriso, porém, desapareceu quase no mesmo instante. — Mas quanto mais tento lembrar dele... menos eu entendo.
— Entender o quê? — perguntou com cuidado.
Aras observou uma das pequenas fadas pousar sobre uma flor luminosa.
— Por que ele fez o que fez.
Oden não sabia exatamente o que falar. Qualquer resposta pareceria pequena.
Uma das fadas pousou em seu ombro por um breve momento antes de voltar a voar entre as árvores. Ele a acompanhou com o olhar e sorriu de lado.
— Acho que essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar.
Aras voltou os olhos para ele.
— O quê?
— Descobrir que, às vezes, nunca entendemos completamente alguém... mesmo depois de conhecê-lo por muito tempo.
Ela permaneceu em silêncio. Oden respirou fundo.
— Minha noiva, Yria... era incrível. Era minha melhor amiga. Mas, conforme foi perdendo a família, pareceu se afastar de quem era. Não a culpo. Eu também fui consumido pela guerra. A diferença é que eu não consegui transformar minha dor em motivo para tirar dos outros o pouco que ainda lhes restava.
Aras ouviu tudo sem interrompê-lo.
Depois de alguns instantes, falou quase num sussurro:
— Acho que eu vivi o contrário.
Oden a encarou.
— Como assim?
Ela sorriu de maneira melancólica.
— Eu quase não conheci as pessoas importantes da minha vida.
Ele franziu levemente a testa.
— O garoto da floresta... desapareceu.
Ela assentiu.
— E meu... marido...— A palavra pareceu estranha em sua própria boca.
— noivo... nós nem chegamos a nos casar. Eu o conhecia por cartas. — Um leve sorriso surgiu em seus lábios. — Ele escrevia muito.
— E escrevia bem?
— Demais. — Ela olhou para uma das fadas que passava entre eles. — Ele descrevia o mundo como se estivesse tentando me convencer de que ainda existiam coisas bonitas nele.
Oden percebeu que ela não falava apaixonada.
— Quando finalmente nos encontramos...— Ela respirou fundo. — Tivemos apenas uma conversa.
— Só uma?
— Apenas uma.
— E como ele era?
Aras pensou por alguns segundos.
— Gentil. — Outra pausa. — Muito paciente comigo.
— Então ele foi importante para você.
Ela demorou para responder.
— Acho que... gostaria de ter tido a chance de conhecê-lo.
Oden não respondeu imediatamente, parecia compreender que sua compainha, não lamentava um grande amor perdido e sim um futuro que nunca teve a oportunidade de existir.
Aras soltou uma pequena risada.
— É engraçado.
— O quê?
— Passei anos acreditando que minha vida já estava completamente escrita.—Ela olhou para o céu. — E agora... não faço ideia de qual página estou.
Oden ergueu os olhos para o céu por um instante.
— Alguém finalmente lhe devolveu a caneta senhorita A. O que deseja fazer a partir de agora?
— Eu adoraria... — Oden percebeu um movimento entre as árvores.
A fala de Aras foi cortada, e em um piscar de olhos estava caída com uma Eteriana de cabelos loiros, arcarcando unhas afiadas em seu pescoço.