Amme entrou no quarto praticamente saltitando.
Aras, que já estava sentada na cama, ergueu uma sobrancelha.
— Você está...
— Feliz? — Amme riu. — Eu estou radiante!
— Posso perguntar por quê?
— Porque hoje foi o melhor dia que Eferin teve em séculos.
Aras fez uma cara completamente confusa.
— Hoje de manhã, você conseguiu acalmar um Primevo só conversando com ele.
— Eu escutei o que ele tinha para dizer...
— Depois fez três crianças rirem.
— Elas estavam fazendo caretas para mim.
— Descobriu sozinha um caminho antigo dentro dos jardins.
— Eu só achei que aquele corredor parecia bonito...
— Chamou uma flor pelo nome que ela tinha antes da Guerra.
— Ela tinha outro nome?
— Tinha.
— Ah, mas Crisamot combina completamente com as características dela.
Amme respirou fundo.
— Depois você reviveu uma tradição morta há dois mil anos.
Aras abaixou os olhos.
— Eu ainda não entendi o que fiz...
Amme apenas sorriu.
— Esse é justamente o problema. — Ela se sentou na cama ao lado de Aras, afastando os livros que deixara a princesa pegar de sua biblioteca particular. — Você faz essas coisas como se fossem naturais.
Aras riu baixinho.
— Tenho sorte?
Amme balançou a cabeça.
— Não. — Segurou as mãos de Aras de maneira carinhosa e quase devota. — Você sabe qual foi a primeira coisa que Pentre me perguntou depois que você saiu do salão?
— O quê?
— Quanto tempo fazia desde que eu tinha encontrado você.
— E o que você respondeu?
— Que fazia menos de dois dias.
Aras arregalou os olhos.
— Ele não se importou que coincidisse com o dia em que você sequestrou a princesa?
— Não. — Amme riu sozinha. — Ele ficou em silêncio por quase um minuto. — Depois continuou, divertida: — Yria segue desconfiada. Pentre quer te proteger. Metade dos Primevos acha que você voltou para cumprir uma antiga promessa. As cozinheiras estão discutindo porque você elogiou um pão e agora todas querem fazer igual. As crianças passaram a girar as frutas antes de comer... — Ela apontou para Aras. — E você acha que “só bebeu”.
Aras cobriu o rosto com as mãos.
— Isso está ficando assustador.
Amme sorriu daquele jeito orgulhoso.
— Para mim está ficando maravilhoso.
Amme retirou as mãos de Aras de seu rosto e deixou suas faces próximas.
— Você pode não acreditar, Alteza, mas a cada ato seu... minha esperança aumenta e, desde já, lhe agradeço por sua benevolência.
— Amme, eu... Eu realmente...
— Princesa Aras de Hagar, estou completamente apaixonada por... por... — O rosto de Amme ruborizou e então ela desconversou: — pela sua gentileza e atos bons para com meu povo.
Amme levantou da cama, tentando se reorganizar.
— Esta noite será o baile. Meu irmão estará entre os seus. Para que não suspeite quem é a princesa humana, fiz questão que fosse um velho baile de Maxpen. Isso significa que usaremos disfarces e...
A jovem eteriana falava apressadamente, enquanto Aras ainda tentava compreender o que havia acontecido minutos antes.
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O quarto de Oden era amplo, mas surpreendentemente simples.
A armadura repousava sobre um suporte de madeira escura. Naquela noite, porém, ela permaneceria ali.
O baile de Maxpen não admitia títulos. Nem patentes.
O príncipe ajustava lentamente o fecho da túnica escura quando alguém bateu duas vezes à porta.
— Entre.
Pentre apareceu sem cerimônia.
— Achei que ainda estivesse trabalhando.
— Estava.
Oden sorriu de canto.
— Então alguma coisa muito interessante aconteceu.
Pentre fechou a porta atrás de si.
— Aconteceu.
Oden ergueu uma sobrancelha.
— Amme aprontou?
— Também. — Os dois riram. Pentre apoiou-se perto da janela. — Mas não foi isso.
Silêncio.
— Ela encontrou uma sobrevivente.
O sorriso de Oden diminuiu.
— Outra?
— Sim.
— Em que estado?
Pentre demorou um pouco para responder.
— Curiosamente... muito bom.
Oden parou de prender um dos braceletes.
— Quanto tempo de corrupção?
— Não sabemos.
— Memória?
— Fragmentada.
— Ferimentos?
— Nenhum grave.
O príncipe franziu a testa.
— Estranho.
— Bastante. — Pentre respirou fundo. — Ela reviveu uma tradição que ninguém praticava havia mais de dois mil anos.
Oden ficou imóvel.
— O quê?
— O primeiro gole à Luz.
— Tem certeza?
— Eu estava lá.
— Ela conhecia o ritual?
— Disse que não.
Oden voltou a encará-lo.
— Então como fez?
Pentre deu um pequeno sorriso cansado.
— Essa é exatamente a pergunta.
Oden permaneceu pensativo.
— Alguma hipótese?
— Várias.
— E qual delas você acredita?
Pentre olhou pela janela.
As primeiras lanternas do baile começavam a ser acesas.
— Acho que ela viveu tempo demais sozinha. Imagine acordar depois de séculos... — Fez um pequeno gesto com a mão. — ...e descobrir que tudo aquilo que você fazia naturalmente desapareceu.
Oden abaixou o olhar.
— Deve ser horrível.
— Acho que é. — Pentre sorriu de leve. — Mesmo assim... ela sorri.
— Sorri?
— Bastante.
— Apesar de tudo?
— Apesar de tudo.
Oden terminou de prender o último fecho da roupa.
— Então quero conhecê-la.
Pentre riu.
— Sabia que diria isso.
— Velho, me deixar na expectativa... você nunca fala desse jeito sobre ninguém.
Pentre pareceu pensar.
— Talvez.
Oden caminhou até uma pequena mesa onde repousava a máscara tradicional de Maxpen.
Era feita de madeira branca polida, sem qualquer desenho que denunciasse posição social.
Ao colocá-la diante do rosto, murmurou:
— Espero que Eferin tenha dado a ela um motivo para sorrir hoje...
Pentre respondeu quase num sussurro.
— Acho que foi ela quem deu esse motivo a Eferin.
— Se eu não soubesse que você é apaixonado pela minha irmã...
Pentre franziu a testa.
— Oden...
— ...eu juraria que acabou de se apaixonar pela recém-chegada.
Oden viu o momento em que Pentre travou, descrente das palavras dele, e não pôde conter a risada rouca, enquanto seu amigo tentava, feito um tolo, escapar da afirmação em relação a Amme.
— O quê?
— Você passou os últimos dez minutos falando dela.
— Eu estava relatando acontecimentos.
— Com os olhos brilhando.
— Não estavam brilhando.
— Estavam.
— Não estavam!
Oden cruzou os braços.
— Você literalmente disse que ela fez um povo inteiro voltar a sorrir.
Pentre abriu a boca.
Fechou de novo.
...
— Você e sua irmã são realmente idênticos.
Oden começou a rir, mais alto que antes.
A careta emburrada de Pentre facilitava seu estado risonho.
Assim que recuperou o fôlego, fez a pergunta que o atormentara aquele dia inteiro.
— A princesa humana... viu como ela é?
Pentre limpou a garganta.
— Ainda não.
Oden inclinou a cabeça.
— Não?
— Amme a manteve descansando quase o dia inteiro.
Oden fez um som de compreensão.
— Então você nem chegou perto dela.
— Não havia motivo.
— E a curiosidade?
Pentre deu de ombros.
— Ela está assustada. Acabou de ser sequestrada por uma eteriana e acordou em Eferin. Acho que a última coisa de que precisa é de mais um desconhecido fazendo perguntas.
Oden sorriu de canto.
— Engraçado...
— O quê?
— Você acabou de dizer que quer proteger duas desconhecidas diferentes no mesmo dia.
Pentre franziu a testa.
— Como assim?
— A sobrevivente... e a princesa humana.
— São situações completamente diferentes.
— Claro que são.
Oden respondeu com tanta convicção que ficou óbvio que não acreditava em uma palavra do que dizia.
Pentre suspirou.
— A sobrevivente já passou por sofrimento suficiente. A princesa humana foi arrancada da própria casa. As duas merecem um pouco de paz.
Oden apoiou um cotovelo na mesa.
— Então você realmente não viu a princesa?
— Não.
— Nem de longe?
— Não.
— Nem escondida atrás de uma coluna?
— Oden...
— Nem um vultinho?
Pentre fechou os olhos por um instante.
— Não faço ideia de como ela é.
Oden riu.
— Então espero que ela seja menos complicada que a sobrevivente.
Pentre sorriu sem perceber.
— Acho difícil.
— Por quê?
Ele respondeu quase automaticamente:
— Porque a sobrevivente carrega milhares de anos de silêncio nos ombros...
A frase morreu antes do fim.
Oden arqueou uma sobrancelha.
— Você fez de novo.
— Fiz o quê?
— Está falando dela como se a conhecesse há anos.
Pentre piscou, confuso.
— Eu... só estou tentando imaginar o que ela viveu.
— Eu sei. — Oden deu um tapinha no ombro do amigo. — É exatamente por isso que gosto de você. Sua empatia sempre foi um dos meus maiores alicerces.
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