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Capítulo 17: Sob as máscaras

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Amme entrou no quarto praticamente saltitando.

Aras, que já estava sentada na cama, ergueu uma sobrancelha.

— Você está...

— Feliz? — Amme riu. — Eu estou radiante!

— Posso perguntar por quê?

— Porque hoje foi o melhor dia que Eferin teve em séculos.

Aras fez uma cara completamente confusa.

— Hoje de manhã, você conseguiu acalmar um Primevo só conversando com ele.

— Eu escutei o que ele tinha para dizer...

— Depois fez três crianças rirem.

— Elas estavam fazendo caretas para mim.

— Descobriu sozinha um caminho antigo dentro dos jardins.

— Eu só achei que aquele corredor parecia bonito...

— Chamou uma flor pelo nome que ela tinha antes da Guerra.

— Ela tinha outro nome?

— Tinha.

— Ah, mas Crisamot combina completamente com as características dela.

Amme respirou fundo.

— Depois você reviveu uma tradição morta há dois mil anos.

Aras abaixou os olhos.

— Eu ainda não entendi o que fiz...

Amme apenas sorriu.

— Esse é justamente o problema. — Ela se sentou na cama ao lado de Aras, afastando os livros que deixara a princesa pegar de sua biblioteca particular. — Você faz essas coisas como se fossem naturais.

Aras riu baixinho.

— Tenho sorte?

Amme balançou a cabeça.

— Não. — Segurou as mãos de Aras de maneira carinhosa e quase devota. — Você sabe qual foi a primeira coisa que Pentre me perguntou depois que você saiu do salão?

— O quê?

— Quanto tempo fazia desde que eu tinha encontrado você.

— E o que você respondeu?

— Que fazia menos de dois dias.

Aras arregalou os olhos.

— Ele não se importou que coincidisse com o dia em que você sequestrou a princesa?

— Não. — Amme riu sozinha. — Ele ficou em silêncio por quase um minuto. — Depois continuou, divertida: — Yria segue desconfiada. Pentre quer te proteger. Metade dos Primevos acha que você voltou para cumprir uma antiga promessa. As cozinheiras estão discutindo porque você elogiou um pão e agora todas querem fazer igual. As crianças passaram a girar as frutas antes de comer... — Ela apontou para Aras. — E você acha que “só bebeu”.

Aras cobriu o rosto com as mãos.

— Isso está ficando assustador.

Amme sorriu daquele jeito orgulhoso.

— Para mim está ficando maravilhoso.

Amme retirou as mãos de Aras de seu rosto e deixou suas faces próximas.

— Você pode não acreditar, Alteza, mas a cada ato seu... minha esperança aumenta e, desde já, lhe agradeço por sua benevolência.

— Amme, eu... Eu realmente...

— Princesa Aras de Hagar, estou completamente apaixonada por... por... — O rosto de Amme ruborizou e então ela desconversou: — pela sua gentileza e atos bons para com meu povo.

Amme levantou da cama, tentando se reorganizar.

— Esta noite será o baile. Meu irmão estará entre os seus. Para que não suspeite quem é a princesa humana, fiz questão que fosse um velho baile de Maxpen. Isso significa que usaremos disfarces e...

A jovem eteriana falava apressadamente, enquanto Aras ainda tentava compreender o que havia acontecido minutos antes.

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O quarto de Oden era amplo, mas surpreendentemente simples.

A armadura repousava sobre um suporte de madeira escura. Naquela noite, porém, ela permaneceria ali.

O baile de Maxpen não admitia títulos. Nem patentes.

O príncipe ajustava lentamente o fecho da túnica escura quando alguém bateu duas vezes à porta.

— Entre.

Pentre apareceu sem cerimônia.

— Achei que ainda estivesse trabalhando.

— Estava.

Oden sorriu de canto.

— Então alguma coisa muito interessante aconteceu.

Pentre fechou a porta atrás de si.

— Aconteceu.

Oden ergueu uma sobrancelha.

— Amme aprontou?

— Também. — Os dois riram. Pentre apoiou-se perto da janela. — Mas não foi isso.

Silêncio.

— Ela encontrou uma sobrevivente.

O sorriso de Oden diminuiu.

— Outra?

— Sim.

— Em que estado?

Pentre demorou um pouco para responder.

— Curiosamente... muito bom.

Oden parou de prender um dos braceletes.

— Quanto tempo de corrupção?

— Não sabemos.

— Memória?

— Fragmentada.

— Ferimentos?

— Nenhum grave.

O príncipe franziu a testa.

— Estranho.

— Bastante. — Pentre respirou fundo. — Ela reviveu uma tradição que ninguém praticava havia mais de dois mil anos.

Oden ficou imóvel.

— O quê?

— O primeiro gole à Luz.

— Tem certeza?

— Eu estava lá.

— Ela conhecia o ritual?

— Disse que não.

Oden voltou a encará-lo.

— Então como fez?

Pentre deu um pequeno sorriso cansado.

— Essa é exatamente a pergunta.

Oden permaneceu pensativo.

— Alguma hipótese?

— Várias.

— E qual delas você acredita?

Pentre olhou pela janela.

As primeiras lanternas do baile começavam a ser acesas.

— Acho que ela viveu tempo demais sozinha. Imagine acordar depois de séculos... — Fez um pequeno gesto com a mão. — ...e descobrir que tudo aquilo que você fazia naturalmente desapareceu.

Oden abaixou o olhar.

— Deve ser horrível.

— Acho que é. — Pentre sorriu de leve. — Mesmo assim... ela sorri.

— Sorri?

— Bastante.

— Apesar de tudo?

— Apesar de tudo.

Oden terminou de prender o último fecho da roupa.

— Então quero conhecê-la.

Pentre riu.

— Sabia que diria isso.

— Velho, me deixar na expectativa... você nunca fala desse jeito sobre ninguém.

Pentre pareceu pensar.

— Talvez.

Oden caminhou até uma pequena mesa onde repousava a máscara tradicional de Maxpen.

Era feita de madeira branca polida, sem qualquer desenho que denunciasse posição social.

Ao colocá-la diante do rosto, murmurou:

— Espero que Eferin tenha dado a ela um motivo para sorrir hoje...

Pentre respondeu quase num sussurro.

— Acho que foi ela quem deu esse motivo a Eferin.

— Se eu não soubesse que você é apaixonado pela minha irmã...

Pentre franziu a testa.

— Oden...

— ...eu juraria que acabou de se apaixonar pela recém-chegada.

Oden viu o momento em que Pentre travou, descrente das palavras dele, e não pôde conter a risada rouca, enquanto seu amigo tentava, feito um tolo, escapar da afirmação em relação a Amme.

— O quê?

— Você passou os últimos dez minutos falando dela.

— Eu estava relatando acontecimentos.

— Com os olhos brilhando.

— Não estavam brilhando.

— Estavam.

— Não estavam!

Oden cruzou os braços.

— Você literalmente disse que ela fez um povo inteiro voltar a sorrir.

Pentre abriu a boca.

Fechou de novo.

...

— Você e sua irmã são realmente idênticos.

Oden começou a rir, mais alto que antes.

A careta emburrada de Pentre facilitava seu estado risonho.

Assim que recuperou o fôlego, fez a pergunta que o atormentara aquele dia inteiro.

— A princesa humana... viu como ela é?

Pentre limpou a garganta.

— Ainda não.

Oden inclinou a cabeça.

— Não?

— Amme a manteve descansando quase o dia inteiro.

Oden fez um som de compreensão.

— Então você nem chegou perto dela.

— Não havia motivo.

— E a curiosidade?

Pentre deu de ombros.

— Ela está assustada. Acabou de ser sequestrada por uma eteriana e acordou em Eferin. Acho que a última coisa de que precisa é de mais um desconhecido fazendo perguntas.

Oden sorriu de canto.

— Engraçado...

— O quê?

— Você acabou de dizer que quer proteger duas desconhecidas diferentes no mesmo dia.

Pentre franziu a testa.

— Como assim?

— A sobrevivente... e a princesa humana.

— São situações completamente diferentes.

— Claro que são.

Oden respondeu com tanta convicção que ficou óbvio que não acreditava em uma palavra do que dizia.

Pentre suspirou.

— A sobrevivente já passou por sofrimento suficiente. A princesa humana foi arrancada da própria casa. As duas merecem um pouco de paz.

Oden apoiou um cotovelo na mesa.

— Então você realmente não viu a princesa?

— Não.

— Nem de longe?

— Não.

— Nem escondida atrás de uma coluna?

— Oden...

— Nem um vultinho?

Pentre fechou os olhos por um instante.

— Não faço ideia de como ela é.

Oden riu.

— Então espero que ela seja menos complicada que a sobrevivente.

Pentre sorriu sem perceber.

— Acho difícil.

— Por quê?

Ele respondeu quase automaticamente:

— Porque a sobrevivente carrega milhares de anos de silêncio nos ombros...

A frase morreu antes do fim.

Oden arqueou uma sobrancelha.

— Você fez de novo.

— Fiz o quê?

— Está falando dela como se a conhecesse há anos.

Pentre piscou, confuso.

— Eu... só estou tentando imaginar o que ela viveu.

— Eu sei. — Oden deu um tapinha no ombro do amigo. — É exatamente por isso que gosto de você. Sua empatia sempre foi um dos meus maiores alicerces.

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Thoughts

  • meioseculo

    O Pentre jurando que são duas desconhecidas diferentes, e a gente sabendo que é a mesma moça. No baile de máscara isso estoura, e quem descobre primeiro vai ser o Oden, não ele.

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