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Capítulo 20 - O homem que me tornei

AllyneMaia
Pública 9 conversas 13 pensamentos 33 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Havia coisas que eu ainda não tinha coragem de perguntar.

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academiadobairro

Visse, ele dizer que parou de querer ter razão o tempo todo e ainda rir disso foi a parte que eu mais acreditei. Gente que muda de verdade costuma contar a mudança pequena, a grande a gente vê depois.

Visse, ele dizer que parou de querer ter razão o tempo todo e ainda rir disso foi a parte que eu mais acreditei. Gente que muda de verdade costuma contar a mudança pequena, a grande a gente vê depois.

Conteúdo da publicação

Havia coisas que eu ainda não tinha coragem de perguntar.

Não porque não quisesse saber, mas porque algumas perguntas carregam respostas capazes de mudar a maneira como enxergamos alguém.

Naquela noite, conversávamos sobre a vida, sobre os anos que haviam passado, sobre tudo aquilo que aconteceu enquanto nossos caminhos seguiam direções diferentes.

Até que ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Olhou para mim e respirou fundo.

— Você quer saber o que aconteceu comigo depois de você?

Não respondi imediatamente. Apenas assenti.

Ele sorriu de um jeito diferente. Não era o sorriso despreocupado que eu tinha visto durante o dia. Havia alguma coisa mais profunda naquele olhar.

— Eu demorei muito para entender quem eu era.

Fiquei em silêncio, deixando que ele encontrasse as próprias palavras.

— Quando você saiu da minha vida, eu achei que o tempo simplesmente resolveria tudo. Que eu seguiria em frente, conheceria outras pessoas, viveria outras coisas e, em algum momento, aquilo deixaria de ter importância.

Abaixou os olhos por um instante.

— Só que não foi assim.

Ele não disse aquilo com tristeza. Falou como quem finalmente conseguia olhar para o próprio passado sem precisar fugir dele.

— Eu vivi muita coisa depois de você. Errei. Fiz escolhas das quais me orgulho e outras das quais não me orgulho tanto. Conheci pessoas, perdi pessoas, comecei coisas que não deram certo... e, em cada uma dessas fases, fui entendendo um pouco mais sobre mim.

Fez uma pequena pausa.

— Descobri que o tempo, sozinho, não muda ninguém. O que muda a gente são as coisas que decidimos fazer com aquilo que vivemos.

Aquelas palavras me fizeram prestar ainda mais atenção.

— Eu precisei aprender a assumir as consequências das minhas escolhas. A olhar para algumas situações e reconhecer que nem sempre o problema estava nas circunstâncias ou nas outras pessoas.

Ele respirou fundo.

— Às vezes, estava em mim.

Havia sinceridade na voz dele.

Nenhuma tentativa de se colocar como vítima.

Nenhuma desculpa.

Apenas reconhecimento.

— Também precisei aprender a ficar sozinho.

Ele sorriu discretamente.

— E isso foi difícil.

Dessa vez, fui eu quem sorriu.

— Eu sempre achei que estar sozinho significava estar faltando alguma coisa. Depois percebi que não. Às vezes, a gente precisa se afastar do barulho para conseguir ouvir o que está acontecendo dentro da gente.

Ele contou que começou a pensar mais antes de agir. Que aprendeu a ouvir sem preparar uma resposta enquanto o outro ainda falava. Que passou a entender que nem toda conversa precisava terminar em uma solução e que algumas coisas precisavam simplesmente ser sentidas antes de serem resolvidas.

— Eu parei de querer ter razão o tempo todo.

Deu uma risada baixa.

— Talvez essa tenha sido uma das mudanças mais difíceis.

Eu ri também.

Mas logo ele voltou a ficar sério.

— E comecei a entender que gostar de alguém não é suficiente.

A frase ficou entre nós.

— É preciso saber cuidar. Respeitar. Saber estar. Saber conversar quando seria mais fácil se afastar. Reconhecer quando você errou e ter humildade para dizer isso.

Ele permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Eu não sei se me tornei o homem que deveria ter sido naquela época.

Então me olhou diretamente.

— Mas sei que não sou mais aquele homem.

Não havia orgulho naquela afirmação.

Havia consciência.

E talvez fosse isso que mais me tocasse.

Ele não estava tentando me convencer de que havia mudado.

Estava apenas me mostrando o caminho que havia percorrido.

— Quando te reencontrei, eu também fiquei com medo.

Confessei com o olhar que não esperava ouvir aquilo.

— Medo de você olhar para mim e enxergar apenas quem eu fui. Medo de descobrir que, para você, eu era apenas uma lembrança. Medo de criar expectativas sobre alguma coisa que talvez só existisse na minha memória.

Ele sorriu de leve.

— Mas aí eu te vi.

Parou por um instante, como se procurasse uma maneira de explicar aquilo sem diminuir o significado.

— E percebi que você também tinha mudado.

Meu coração apertou.

— E foi justamente isso que me fez querer ficar. Não porque eu queria voltar ao passado. Mas porque eu queria descobrir quem você era agora.

Aquela frase ficou comigo.

Porque, naquele momento, entendi que talvez estivéssemos fazendo exatamente a mesma coisa.

Eu estava diante de um homem que já não existia como antes.

E ele estava diante de uma mulher que também havia deixado para trás muitas versões de si mesma.

— Eu não quero prometer que sei onde isso vai chegar — ele continuou. — Na verdade, pela primeira vez, eu não sinto necessidade de saber.

Ele sorriu.

— Quero apenas fazer as coisas direito dessa vez.

Fiquei olhando para ele.

Talvez aquela fosse a coisa mais bonita que ele poderia ter me dito.

Não havia promessas grandiosas.

Não havia palavras perfeitas.

Havia apenas um homem reconhecendo o próprio passado e escolhendo, conscientemente, não repeti-lo.

E naquele instante eu compreendi que a mudança dele não estava apenas naquilo que contava.

Estava na maneira como me ouvia.

Na forma como respeitava minhas escolhas.

Na tranquilidade com que deixava as coisas acontecerem.

Na ausência de pressa.

Na maneira como já não parecia querer me convencer de nada.

Ele simplesmente estava ali.

Inteiro.

E talvez fosse isso que os anos haviam feito conosco.

Não apagaram aquilo que um dia sentimos.

Fizeram com que aprendêssemos a olhar para aquela história com outros olhos.

Enquanto ele continuava falando sobre tudo aquilo que havia vivido, eu percebi que não estava diante do passado.

Estava diante de uma nova possibilidade.

E, pela primeira vez, ela não parecia assustadora.

Parecia merecer ser vivida.

Thoughts

  • conto84

    Lá no doze eu não acreditei muito na firmeza dela, e aqui o coração dela aperta de novo quando ele diz que quis descobrir quem ela é agora. Só que dessa vez ela não recua, fica ouvindo. Lendo de novo reparei que ele fala o tempo todo em ficar e ela nunca diz que fica; deixa a coisa parecer que vale a pena, mas não promete nada. Pra mim ela ainda está decidindo.

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  • Rui_Salgueiro

    Ele fala o capítulo todo e tu só assentes e sorris. O que é que lhe respondeste quando ele acabou?

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  • Ovid

    Ele dizer que pela primeira vez não sente necessidade de saber onde isso vai chegar me fez pensar em quanto tempo leva pra alguém conseguir falar assim sem parecer desculpa. Aposto que os dezenove capítulos anteriores existem pra essa frase poder ser dita. Obrigado por continuar postando a série aqui, @AllyneMaia!

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  • academiadobairro

    Visse, ele dizer que parou de querer ter razão o tempo todo e ainda rir disso foi a parte que eu mais acreditei. Gente que muda de verdade costuma contar a mudança pequena, a grande a gente vê depois.

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