A briga da roupa kkkk
Capítulo 13: Os ecos do éter
Pensamento
A briga da roupa kkkk
Conteúdo da publicação
Aras despertou com o cheiro suave de ervas e pedra aquecida.
Quando abriu os olhos, encontrou Amme já desperta, sentada perto da janela, separando cuidadosamente várias peças de roupa sobre a cama.
Nenhuma lembrava um vestido humano.
Os tecidos pareciam líquidos, mudando discretamente de cor conforme a luz esverdeada que atravessava os cristais do teto.
Havia faixas translúcidas, mantos presos apenas por pequenos cristais vivos e adornos que pareciam crescer lentamente, como se respirassem.
Amme sorriu ao notar que Aras acordara.
— Bom dia!
Aras piscou algumas vezes.
— Você... está animada?
— Muito. — Ela ergueu um dos mantos. — Hoje você vai conhecer Eferin.
Aras observou o tecido.
— Isso é... uma roupa?
— Claro.
— Falta metade dela.
— Não falta.
— Falta.
Amme inclinou a cabeça, confusa.
— Humanos realmente gostam de esconder o corpo?
— Acho que temos vergonha.
— Ah... — A eteriana pareceu refletir seriamente sobre aquilo. — Faz sentido, suas estruturas são estranhas.
Aras arqueou uma sobrancelha.
— As nossas?
— Sim. — Amme aproximou-se, observando-a com a mesma curiosidade de um estudioso diante de uma descoberta. — Vocês são muito... rígidos.
— Rígidos?
— Os ossos são pesados, as articulações têm pouco movimento... tudo parece feito para suportar impacto.
Aras cruzou os braços.
— É porque vivemos em um mundo físico. Gravidade, frio, calor, quedas... nossos corpos precisam resistir.
Amme assentiu, interessada.
— Faz sentido. Sabe, os primeiros eterianos eram diferentes. — Ela tocou o próprio antebraço. — Nossos corpos não nasceram para suportar guerra. Foram feitos para acompanhar a Luz.
— Como assim?
— Eram leves. Muito leves. Os ossos eram finos; alguns nem eram completamente sólidos e, em certos indivíduos, simplesmente não existiam. Havia partes do corpo que mudavam conforme o Éter ao redor.
Aras inclinou discretamente a cabeça.
— Então eram frágeis?
— Contra espadas? Sim. — Amme sorriu. — Mas nem sequer existiam espadas. — Ela caminhou até a janela. — Não precisávamos lutar entre nós. Nosso corpo foi moldado para criar, construir, viajar e sentir.
Aras aproximou-se.
— O nosso foi moldado para sobreviver.
Então Amme voltou a encará-la, enquanto a princesa se apoiava na parede ao lado.
— É curioso...
— O quê?
— Mesmo assim... — Os olhos dourados da eteriana percorreram Aras dos pés à cabeça. — Você lembra um pouco os antigos.
Aras soltou um pequeno suspiro.
— Ontem você disse que eu era uma salvadora. Hoje pareço uma eteriana antiga. Amanhã vai dizer que nasci aqui?
Amme abriu um sorriso.
— Eu ainda não descartei essa possibilidade.
Aras levou uma das mãos ao rosto.
— Claro que não.
A eteriana riu baixinho.
Depois, aproximou-se mais uma vez e, com delicadeza, segurou a mão de Aras.
Virou-a para cima, observando sua palma.
— Veja. — Aras acompanhou seu olhar. — Os humanos têm a pele mais espessa nas mãos. Trabalham, empunham ferramentas, armas... tudo deixa marcas. Até uma caneta mal segurada. — Amme então mostrou a própria mão. A pele parecia lisa como vidro. Sob ela, pequenos filamentos luminosos pulsavam lentamente. — Nós conduzíamos Éter por quase todo o corpo. Não precisávamos desenvolver calos para sobreviver.
Aras comparou as duas mãos por alguns segundos.
— Então a guerra mudou vocês por dentro... e por fora?
O sorriso de Amme tornou-se mais discreto.
— Sim. — Ela fechou lentamente a própria mão. — A corrupção endureceu nossos corpos. Criou placas, chifres, garras... tudo aquilo que antes não existia. Foi como se o mundo nos obrigasse a aprender a sobreviver da pior maneira possível.
Aras percebeu que os traços considerados monstruosos pelos humanos talvez não fossem a verdadeira aparência dos eterianos, apenas as cicatrizes deixadas por séculos de sofrimento.
Tentando mudar de assunto, a princesa puxou a própria mão e se aproximou das vestes em cima da cama.
— São tantas opções. Qual devo vestir?
Amme afastou alguns mantos até encontrar um conjunto de tecidos claros, presos por pequenos cristais vivos.
— Este.
Aras ergueu a peça.
— E... como isso fica preso?
— Eu mostro.
Poucos minutos depois, a princesa já estava vestida.
Os tecidos pareciam estranhos em suas mãos, mas, curiosamente, confortáveis sobre o corpo.
Amme deu alguns passos para trás.
— Agora falta o mais difícil.
— O quê?
— Aprender a ser uma eteriana.
Aras arqueou uma sobrancelha.
— Achei que bastasse vestir roupas diferentes.
— Não. Humanos ocupam espaço de outra maneira. — A eteriana caminhou até o centro do quarto. — Vocês caminham empurrando o chão. Cada passo afirma que o corpo é pesado.
Ela então deslizou pelo aposento.
Não parecia exatamente um passo.
Era como se o corpo inteiro acompanhasse o movimento, sem interrupções.
— Nós seguimos o Éter. Nunca contra ele.
Aras observou alguns segundos.
Depois tentou.
Deu apenas três passos.
Amme permaneceu imóvel.
Piscou.
— ...
Aras olhou para ela.
— Fiz errado?
— Faça de novo.
A princesa repetiu o movimento.
Os pés tocavam o chão com leveza, os ombros permaneciam relaxados e o corpo parecia acompanhar naturalmente o fluxo do ambiente.
Não era perfeito.
Mas era... familiar.
Amme aproximou-se lentamente.
— Quem ensinou isso?
— Ninguém.
— Tem certeza?
— Absoluta.
A eteriana começou a andar ao redor dela, analisando sua postura.
— Isso levaria meses para um humano aprender.
Aras deu de ombros.
— Talvez seja porque sou sotniana.
Amme permaneceu quieta.
— Os sotnianos são mais leves.
— Hm.
— Nossa ligação com o Éter também é maior.
— Hum.
— Então deve ser isso.
Amme sorriu.
“Não...”, pensou.
“Nem os antigos sotnianos caminhavam assim.”
Ela resolveu mudar de exercício.
— Há outra coisa.
Aras voltou a encará-la.
— Entre nós quase não interrompemos uns aos outros quando conversamos.
— Porque são educados?
Amme riu.
— Não exatamente. — Ela levou dois dedos à própria testa. — Antigamente percebíamos pequenas mudanças no fluxo do Éter. Antes mesmo de alguém falar, já sabíamos quando desejava continuar ou terminar uma frase.
— Como uma telepatia?
— Não. Mais... uma empatia compartilhada.
Aras refletiu.
— Humanos observam expressão, respiração, postura...
— Nós observávamos isso também. Mas era muito mais difícil esconder uma intenção quando o Éter a revelava antes das palavras. — Amme fez um gesto. — Vamos tentar?
Ela permaneceu completamente em silêncio.
Não fazia sinais.
Depois de alguns segundos, Aras respondeu espontaneamente:
— Você quer que eu caminhe até a janela.
Amme congelou.
— ...Como soube?
Aras piscou.
— Não sei. — Ela realmente não sabia. — Só... parecia óbvio.
O coração de Amme acelerou.
Ela repetiu o teste.
Pensou apenas em apontar para uma cadeira.
Antes que qualquer gesto fosse feito, Aras caminhou até a mesma cadeira.
— E pra mim levar até você ou me sentar?
Silêncio.
Amme respirou devagar.
“Isso não é possível...”
Nem mesmo muitos eterianos modernos conseguiam interpretar tão bem os ecos do Éter.
Thoughts
-
PermalinkGostei da Amme ensinando a Aras a andar e ela errando de primeira, as duas se acostumando uma com a outra aos pouquinhos.
-
PermalinkA Aras foi até a cadeira antes do gesto e ainda perguntou se era pra levar ou sentar. A Amme vai contar isso pra alguém hoje mesmo
-
PermalinkA briga da roupa kkkk
Related posts
-
Capítulo 04: O fardo
O impacto das lâminas reverberou pelo salão.
-
Capítulo 12: Três caminhos
As portas do salão fecharam-se atrás de Yal.
-
Capítulo 11: Sozinho
Yal respirou lentamente antes de falar.
-
Capítulo 14: Ainda existe
Amme desviou o olhar por um instante.
-
Capítulo 08 : Minha irmã
Muito acima das antigas prisões, longe das velas verdes e das correntes de fragmentos da Luz, outro debate acontecia.
-
OS MISTÉRIOS DO ACASO - Capítulo 9
Helena era uma mulher astuta, vivida, de mil qualidades; possuía mistérios que, para o poeta, não eram novidade. Ele não era tão "disperso" quanto parecia, mas estava profundamente apaixonado. Em…
-
O último batimento - capítulo 5
CAPÍTULO 5: Sangue e Poeira
-
Grande Magico capitulo 6
Capítulo 6 Disfarçadamente
Aras despertou com o cheiro suave de ervas e pedra aquecida.