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Capítulo 10 - "Meus Erros"

KazzTeles
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O dia amanheceu sem sol, não havia tempestade, nem chuva, sequer uma nuvem especialmente carregada; o céu simplesmente parecia ter esquecido como era deixar a luz atravessá-lo. A floresta estava…

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Pensamento

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fsantos1307

O Edran a sair antes de amanhecer e voltar com o medalhão na mão. Esse velho sabe mais do que conta, se calhar já conhecia o Ezekiel de antes da guerra.

O Edran a sair antes de amanhecer e voltar com o medalhão na mão. Esse velho sabe mais do que conta, se calhar já conhecia o Ezekiel de antes da guerra.

Conteúdo da publicação

O dia amanheceu sem sol, não havia tempestade, nem chuva, sequer uma nuvem especialmente carregada; o céu simplesmente parecia ter esquecido como era deixar a luz atravessá-lo. A floresta estava silenciosa outra vez, coberta por uma névoa baixa que se prendia às raízes e tornava cada árvore distante uma silhueta indistinta.

Quando Daiquiri abriu os olhos, demorou alguns segundos para lembrar onde estava, o fogo havia se transformado em cinzas e seus companheiros ainda dormiam espalhados pelo acampamento, cada um de uma maneira diferente. João havia conseguido dormir abraçado à própria mochila, Alexander permanecia encostado em uma árvore com os braços cruzados e a espada ao alcance da mão, enquanto Marina estava deitada sobre a capa de Daiquiri, com a bolsa próxima do peito. Edran era o único que não estava ali, havia deixado o acampamento antes do amanhecer, levando apenas a espada e algumas provisões.

Daiquiri se levantou devagar, a marca em seu braço ainda continuava visível, embora agora tivesse a aparência de uma cicatriz escura e irregular. Não doía mais, mas ele ainda sentia algo quando tocava aquele ponto, como se sua pele tivesse adquirido vida própria. Ficou alguns segundos olhando para ela antes de cobri-la com a manga. Ele não queria que os outros percebessem o quanto aquilo o incomodava, não por medo deles, mas porque começava a entender o que João havia dito na noite anterior, quanto mais tentasse esconder aquilo, mais espaço Azoth teria nele.

Quando Marina acordou, encontrou Daiquiri sentado sobre uma pedra, olhando para o nada.

— Não dormiu direito, não é? — ela perguntou.

— Dormi o bastante.

— Não perguntei isso.. — ela se aproximou e entregou a capa.

— Eu sonhei com meu pai.

Daiquiri soltou um breve suspiro e desviou os olhos.

Marina percebeu em silêncio por alguns instantes antes de se sentar ao lado dele. A névoa passava lentamente entre os dois.

— E o que sonhou?

— Não foi como antes, eu não estava apenas vendo uma memória, parecia que alguém estava me mostrando alguma coisa, meu pai estava diferente, estava mais jovem, feliz, e estava bem... próximo do Polaris.

— E isso é estranho pra você?

Daiquiri demorou a responder.

— Eu quase não lembro dele assim, quando eu penso no meu pai, eu lembro de um homem cansado. Lembro da voz dele ficando mais baixa com o passar dos anos, dos vários remédios sobre a mesa, das noites em que ele não conseguia dormir. Mas naquela memória ele parecia outra pessoa, eu queria saber quando ele deixou de ser aquele homem feliz...

— Talvez tenha sido após a morte do Polaris — Marina olhou pra floresta. — Ou talvez seu pai nunca tenha sido apenas uma coisa. Herói, pai, soldado, homem... as pessoas não cabem tão facilmente em uma única palavra.

Daiquiri ficou silêncio, aquela ideia parecia simples, mas havia alguma coisa nela que o incomodava profundamente. Durante toda a vida, Ezekiel havia existido na memória coletiva como uma imagem quase intocável: o homem que derrotou o "Rei Demônio", salvou o mundo, e atravessou campos de batalha sem abandonar aqueles que dependiam dele. Mesmo quando já estava morto, seu nome permanecia em estátuas, livros, cânticos e cerimônias. Daiquiri, no entanto, nunca soube como enxergar o homem por trás daquela imagem, para ele, Ezekiel sempre fora apenas o pai ausente que existia depois de tudo ter acabado.

João despertou pouco depois, reclamando do frio, e a pequena rotina do acampamento recomeçou. Alexander encontrou um riacho próximo e voltou com água, Marina reorganizou as provisões e João insistiu que ninguém deveria viajar antes de encontrar alguma coisa que pudesse ser chamada de café da manhã, foi justamente quando estavam decidindo por onde seguir que Edran voltou.

Ele carregava um pequeno objeto de madeira na mão, era um antigo medalhão militar que Daiquiri reconheceu imediatamente, ele colocou sobre uma pedra, diante dos quatro.

— Encontrei uma casa abandonada a pouco mais de meia hora daqui, pertencia a um veterano de guerra. Estava vazia há décadas, mas encontrei isso escondido no assoalho.

— Era do Ezekiel? — Marina pegou o medalhão e virou entre os dedos.

— Sim — Edran assentiu. — Ele passou alguns meses nessa região depois da batalha contra o "Rei Demônio", mas viveu não como um soldado, viveu a vida de um simples homem. Tem registros na casa, alguns foram destruídos pela umidade, outros estão ilegíveis, mas existem páginas suficientes para reconstruir parte da história.

— E o que encontrou? — Daiquiri se aproximou.

— Seu pai não voltou pra casa depois da guerra.

— Claro que voltou — A resposta de Edran não parecia fazer sentido para Daiquiri.

— Não imediatamente, durante quase um ano, Ezekiel viajou pelo território sozinho. Não procurava soldados inimigos, não caçava monstros e não recebia ordens do reino. Ele visitava cidades pequenas, vilas e povoados que havia sido destruídos durante o conflito. Levava comida, escoltava refugiados, ajudava a reconstruir estradas. E quando perguntavam por que fazia aquilo, dizia que havia passado tempo demais vendo pessoas morrerem e que não suportava a ideia de simplesmente voltar para casa.

Daiquiri estava incrédulo, aquela parte da história era completamente desconhecida para ele.

Edran continuou, explicando que durante esse período Ezekiel evitava qualquer reconhecimento. Quando alguém o chamava de Grande Herói, ele corrigia: "heróis eram aqueles que ainda estavam vivos depois de terem perdido tudo". Ele não queria estátuas, medalhas, homenagens ou seu rosto cravado nas moedas, ele queria encontrar sobreviventes. Em algumas aldeias, passou semanas ajudando a reconstruir casas, em outras, acompanhou famílias até regiões seguras, em uma cidade, segundo o registro, ficou três meses mesmo depois de o perigo ter passado, porque havia dezenas de crianças sem parentes conhecidos, ele permaneceu ali até todas serem adotadas.

— Então ele realmente era tudo isso que dizem dele... — João disse, após ter ouvido aquilo em silêncio, sem fazer piadas.

— Não... — Edran negou com a cabeça. — Não estou dizendo que as histórias estavam erradas, estou dizendo que elas eram incompletas. Ezekiel era um homem que fazia coisas extraordinárias, mas também era alguém que carregava culpa suficiente para destruir a si mesmo. Uma coisa não anulava a outra.

Daiquiri sentiu um aperto no peito e colocou a mão sobre ele.

— E quando ele voltou pra casa? E o Polaris?

— Polaris nasceu antes da guerra acabar. — Edran olhou para Daiquiri. — Você era pequeno quando Ezekiel voltou quando percebeu que a guerra não podia continuar sendo uma desculpa para viver longe da família.

— Eu não me lembro.

— Você era muito pequeno,

Aquelas palavras trouxeram outra lembrança, uma casa iluminada pelo sol com Polaris correndo por um corredor. Ezekiel estava sentado à mesa, consertando uma pequena peça de metal, a lembraça era tão pequena que poderia ter sido insignificante, mas havia algo diferente nela: Ezekiel estava sorrindo.

Não era o sorriso cansado que Daiquiri conhecia, era um sorriso verdadeiro.

— Eu lembro do meu pai... — Daiquiri tocou a testa. — Ele... Ele sorria bastante.

A constatação parecia absurda, era como descobrir uma característica de alguém que conhecia desde o nascimento. João, porém, não fez comentário algum, apenas observava.

— Ezekiel começou a mudar antes mesmo da morte do Polaris — a fala de Edran fez com que todos o olhassem. — Ele começou a pesquisar registros antigos do Século Branco, principalmente documentos relacionados aos cultos que haviam surgido durante o conflito. Ninguém sabia exatamente o que ele procurava, alguns acreditavam que estava investigando as origens dos Morvath, outras pensavam que estava tentando entender por que certas regiões continuavam apresentando fenômenos estranhos depois do fim da Grande Guerra.

— Azoth... — sussurrou Marina.

— Provavelmente. — Edran assentiu. — Não sabemos o quanto ele sabia, mas sabemos que ele procurava alguma coisa, e que talvez, tenha encontrado.

O grupo permaneceu em silêncio.

Edran pegou algumas páginas do bolso e começou a folhear algumas.

— Aqui... — colocou sobre uma pedra. — Aqui existe apenas uma frase, a maior parte do papel está destruída pelo tempo — e começou a ler em voz alta: — "A essência não escolhe aquele que é forte, escolhe que possui o seu antigo corpo."

Daiquiri sentiu seu estômago embrulhar, Marina se aproximou dele e segurou sua mão.

— Então o termo de "receptáculo" já existia nos registros de Ezekiel...

— Ok... — João se levantou e começou a andar de um lado para o outro. — Isso já passou da categoria de "problemas familiares" e entrou definitivamente na categoria do "eita, não deveríamos ter aceitado essa missão".

Alexander lançou um olhar para ele, como se estivesse incomodado com o que acabara de ouvir.

— Então pode ir embora, garoto. Nós conseguimos resolver as coisas sem você.

João apontou para Alexander, abriu a boca para dizer algo, mas não conseguiu dizer nada, apenas ficou naquela posição de forma cômica. Apesar do momento, Daiquiri sorriu ao ver aquela pose, foi breve, mas suficiente para quebrar a tensão.

Quando deixaram aquela área, seguiram por uma trilha que desembocava em um antigo caminho militar. Edran explicou que aquela região havia sido usada por Ezekiel depois da guerra. Se as anotações fossem verdadeiras, poderia encontrar uma segunda estrutura algumas horas ao norte, era um posto abandonado onde Ezekiel costumava descansar durante as viagens.

A viagem levou quase o dia inteiro, à medida que avançavam, as árvores começaram a diminuir e a floresta deu lugar a campos secos. O céu continuava cinzento, mas agora o vento soprava com força, em alguns pontos havia ruínas de torres de vigia e paredes parcialmente destruídas, havia sinais claros de que aquela região fora palco de batalhas décadas atrás.

Daiquiri caminhava em silêncio, cada ruína parecia trazer alguma lembrança que não conseguia alcançar completamente. Uma espada enterrada no chão, uma estátua quebrada, um muro coberto de musgo, não eram memórias completas, mas sim sensações.

Então eles chegaram a um pequeno monumento de pedra e Ezekiel estava gravado nele, não havia uma estátua grandiosa, era apenas o nome acompanhado de outras centenas.

— Ele devia conhecer todos esses nomes — Maria se aproximou do monumento e começou a passar os dedos pelos nomes ali cravados. — Quantas pessoas ele salvou? — Virou-se para Edran.

— Não sei, porque não existe um número certo — respondeu, Edran respirou fundo antes de continuar. — Essa é uma das coisas que ninguém conta sobre o Ezekiel, ele não conseguia salvar todo mundo, e ele sabia disso. Cada vez que conseguia salvar alguém, existiam outras pessoas que não chegava a tempo de encontrar, e depois de algum tempo, começou a tratar cada morte como uma espécie de dívida pessoal.

— Então foi por isso que ele ficou daquele jeito? — Daiquiri se aproximou.

— Em partes... — continuou o velho. — Depois de Polaris, Ezekiel deixou de acreditar que sua vida lhe pertencia. Ele passava os dias trabalhando, viajando, atendendo chamados, entrando em lugares perigosos e quando alguém tentava fazê-lo descansar, respondia que ainda havia pessoas precisando dele. Os anos se passaram e seu corpo começou a apresentar os sinais de quem estava sendo consumido por dentro. Ele foi ferido durante a guerra e a antiga feria que ele recebeu nunca se recuperou completamente, foi a combinação de lesões, infecções recorrentes e exaustão que fizeram a sua saúde piorar até que já não havia como esconder... as pessoas diziam que ele estava podre por dentro e não era apenas uma metáfora.

Daiquiri abaixou os olhos e sentiu o vento gelado percorrer por sua pele.

— Eu ouvi isso quando era criança, mas pensei que fosse apenas uma maneira cruel de falar sobre ele.

— E era cruel, mas havia uma verdade física por trás daquela crueldade — Edran se afastou do monumento e ficou olhando para as torres de vigia, como quem busca encontrar alguma coisa se escondendo por entre elas.

Marina se aproximou de Daiquiri e tocou a manga de sua camisa.

— Você viu seu pai depois do que aconteceu com o Polaris? — perguntou.

— Sim, eu via ele quase todos os dias.

— Então por que não lembra dele assim?

— Porque eu não queria lembrar... — a resposta havia saído antes de que ele pudesse impedir, apesar de parece que ele havia pensado nela por minutos, mas foi o peso das palavras que fez com que ninguém dissesse nada, ele levantou a cabeça novamente e encarou o monumento. — Quando meu pai começou a ficar doente, eu parei de enxergá-lo como alguém que estava sofrendo. Pra mim, ele era só o homem que nunca estava disposto a olhar para mim, o que sempre estava cansado ou o homem que saía de casa para ajudar as pessoas e não tinha tempo para os próprios filhos, e eu odiava isso.

— Ele sabia disso — Edran respondeu.

— Então por que nunca falou comigo sobre isso?

— Por que Ezekiel acreditava que, se você soubesse toda a verdade, tentaria carregar o mesmo peso que ele carregava, e ele não queria estragar a magia que é a infância.

Daiquiri fechou a mãos com força e decidiu continuar a caminhar, sem olhar para trás. O grupo se entreolhou e decidiram permanecer em silêncio, evitando assim possíveis discussões sobre o assunto, então partiram.

No fim da tarde, chegaram ao antigo posto militar. A construção estava parcialmente soterrada e coberta por raízes, mas ainda era possível identificar as salas. Marina encontrou uma passagem escondida atrás de um parede quebrada. Dentro havia uma pequena sala de pedra com algumas caixas preservadas. Edran se aproximou e começou a procurar entre elas, Daiquiri ficou parado diante de uma mesa destruída onde havia uma inscrição gravada na madeira: P.& D.

Ele passou os dedos sobre a marca e uma lembrança surgiu de imediato:


Ele e Polaris estavam sentados àquela mesma mesa. Polaris segurava um pequeno mapa enquanto Daiquiri tentava desenhar alguma coisa por cima, Ezekiel estava na porta observando os filhos.

— Vocês são realmente uma dor de cabeça.

Polaris respondeu alguma coisa que Daiquiri não conseguia lembrar, o que fez Ezekiel rir.


Então a memória terminou, Daiquiri ficou parado, respirando devagar.

— Ele parecia amar a gente...

Marina se aproximou e deu um breve sorriso.

— Claro que amava, como você pode não lembrar disso?

— Não sei. Só... faz muito tempo que eu não parava pra pensar nisso e tentar lembrar de algo assim.

Daiquiri se sentou no chão. Por anos, havia lembrado de Ezekiel como uma sombra do seu passado, mas agora começava a descobrir que, antes daquilo, existira um homem. Um homem que amava os filhos, que sorria, que brincava com eles, que tentara reconstruir um mundo destruído e que, em algum momento, começara a acreditar que tudo aquilo que fazia nunca seria suficiente, talvez fosse por isso que ele se culpava tanto.

O herói que todos admiravam não havia morrido quando Polaris morreu, ele continuou vivo, só que uma parte dele morrera naquele dia, e o resto passou os anos seguintes tentando compensar a existência daquela ausência.

A voz de Edran cortou o silêncio.

— Encontrei algo!

Ele segurava um pequeno compartimento de metal envelhecido. Dentro, repousava uma única folha dobrada, quando Daiquiri se aproximou e tomou o papel entre os dedos, o mundo ao seu redor pareceu paralisar. Os traço de tinta gasta formavam uma caligrafia inconfundível, a caligrafia de seu pai. O texto não era uma carta, mas um fragmento de pensamento perdido no tempo:

"Se algum dia, você, meu filho Daiquiri, encontrar estas palavras, significa que eu falhei em mantê-lo distante de todas essas coisas, de todo esse inferno."

O ar travou na garganta dele. Logo abaixo, a tinta esmaecida revelava apenas mais uma linha antes de desaparecer por completo, devorada pelos anos e pelo desgaste:

"Meu filho, eu nunca quis que você herdasse..."

Os nós dos dedos de Daiquiri embranqueceram enquanto ele apertava o papel.

— "...Meus erros" — a frase escapou de seus lábios como um sussurro ríspido, e percebeu Marina se debruçando lentamente com os olhos cravados no final incompleto da frase. — Pode ser qualquer coisa — ele retrucou, erguendo o olhar, o peito subitamente pesado com o peso de diversas possibilidades.

— E é exatamente por isso que não devemos preencher o vazio com aquilo que não sabemos — Edran disse em um som mais grave.

Daiquiri voltou a encarar a macha de tinta onde o resto do aviso deveria estar. Durante toda a vida, o fardo de ser o filho do herói fora a sua cruz e seu norte. Exigiam dele a mesma força, a mesma presença de Ezekiel, mas ali, diante daquelas poucas palavras, a perspectiva se invertia. A herança que seu pai sempre desejou deixar não era a glória, nem um legado de heroísmo, era a ignorância e a segurança de estar longe daquela escuridão.

O verdadeiro legado de Ezekiel era, de forma trágica, justamente o que ele lutou em vão para evitar que o filho recebesse.

Um estalo seco de um ruído ecoou além das paredes arruinadas.

A melancolia do momento se desfez por puro instinto, em um milésimo de segundo, a mão de Alexander já repousava no pomo de sua espada, o aço deslizando quase sem som. João se levantou, tenso como a corda de seu arco e Marina fechou a bolsa em um movimento rápido e silencioso, enquanto Edran lançou magia de vento para apagar as chamas das lamparinas, mergulhando-os na proteção das sombras.

Nenhum deles ousou respirar em alto tom.

Através da névoa fina, uma silhueta se desenhava entre as ruínas, parada, como uma sombra de uma estátua, não fazia menção de atacar ou recuar. Apenas os observava, com uma quietude antinatural.

De repente, a marca no braço de Daiquiri ardeu. Não como um aviso, mas como ferro em brasa cravado na pele. Quando ele piscou, a figura havia desaparecido, engolida pela escuridão, mas a presença não havia partido, ela se aninhou dentro de sua mente, vibrando em um sussurro direto que gelou a sua espinha.

— Também ele ousou obstar os meus passos.

Daiquiri agarrou o próprio braço, cravando as unhas sobre a marca que ardia. O silêncio retornou tão abrupto quanto a voz, sem lhe dar a chance de rebater, mas não havia dúvidas, era Azoth.

O que mais lhe aterrorizava não era a simples invasão na sua mente, mas que, pela primeira vez, a entidade não soava de maneira ardilosa, nem parecia estar tentando seduzi-lo para o seu lado, soava cruamente honesta. Ele estava contando uma verdade, uma verdade que Daiquiri ainda não estava, e talvez nunca estivesse, pronto para ouvir.

Thoughts

  • Ovid

    O Ezekiel ficando três meses numa cidade até todas as crianças sem parentes serem adotadas me fez pensar nos pais que a gente só conheceu já cansados, sem nunca ver a versão de antes. Aposto que o Daiquiri ainda vai ter raiva dessa descoberta antes de fazer as pazes com ela. E aquele também do Azoth no final deixou tudo mais pesado :)

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  • fsantos1307

    O Edran a sair antes de amanhecer e voltar com o medalhão na mão. Esse velho sabe mais do que conta, se calhar já conhecia o Ezekiel de antes da guerra.

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