Ela escreve o diálogo do medo quase todo, mas na hora em que ele responde que também tem medo, o texto sai fora e vai pro mar. É ali que ela mais protege ele. A praia toda funciona assim: ela diz o que sentiu e deixa ele resolvido em duas palavras.
Capitulo 10 - As coisas que aprendemos a dizer
Depois daquela primeira grande discussão, alguma coisa mudou entre nós.
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Pensamento
Ela escreve o diálogo do medo quase todo, mas na hora em que ele responde que também tem medo, o texto sai fora e vai pro mar. É ali que ela mais protege ele. A praia toda funciona assim: ela diz o que sentiu e deixa ele resolvido em duas palavras.
Conteúdo da publicação
AS COISAS QUE APRENDEMOS A DIZER
Depois daquela primeira grande discussão, alguma coisa mudou entre nós.
Não ficamos perfeitos.
Ainda existiam momentos em que eu me fechava.
Ainda existiam momentos em que ele precisava de alguns minutos antes de conseguir falar sobre o que estava sentindo.
Mas começamos a conversar antes que o silêncio criasse histórias que não existiam.
Descobrimos que conversar não era apenas resolver problemas.
Era também contar como havia sido o dia.
Era dizer quando alguma coisa incomodava.
Era perguntar antes de presumir.
Era dividir uma preocupação antes que ela se transformasse em distância.
E foi justamente nas coisas mais simples que comecei a perceber essa mudança.
Certa noite, decidimos cozinhar juntos.
Uma ideia que parecia muito mais fácil quando nenhum dos dois estava na cozinha.
— Você sabe cozinhar? — perguntei.
Ele me olhou, ofendido.
— Claro que sei.
— Então por que está olhando para a receita há cinco minutos?
— Estou estudando.
Comecei a rir.
— Estudando?
— É importante conhecer o inimigo antes de enfrentá-lo.
— Você está chamando a receita de inimigo?
— Nesse momento, sim.
A cozinha se transformou em uma pequena confusão.
Ele queria fazer de um jeito.
Eu queria fazer de outro.
Ele dizia que eu estava colocando tempero demais.
Eu dizia que ele tinha medo de temperar.
No final, nenhum dos dois sabia exatamente quem estava certo.
Mas estávamos rindo.
E talvez aquela fosse uma das melhores coisas que havíamos descoberto.
Nós não precisávamos estar sempre vivendo momentos extraordinários.
Podíamos simplesmente estar juntos.
Enquanto ele tentava consertar alguma coisa que havia dado errado, perguntei:
— Você percebeu que a gente mudou?
Ele me olhou.
— Muito.
— Antes, se alguma coisa desse errado, eu provavelmente ficaria quieta.
— E eu provavelmente fingiria que não percebi.
— Exatamente.
Ele sorriu.
— Agora você reclama.
— E você responde.
— Estamos evoluindo.
Comecei a rir.
— Que romântico.
— Estou fazendo o possível.
E aquele momento, tão banal, acabou ficando guardado em mim.
Porque talvez o amor adulto fosse isso.
Não apenas grandes encontros.
Mas dividir uma cozinha.
Errar uma receita.
Rir da própria bagunça.
E saber que, quando alguma coisa incomodasse, ainda poderíamos sentar e conversar.
Algumas semanas depois, surgiu a ideia de uma viagem.
Praia.
Só nós dois.
Quando ele falou, meu coração acelerou.
Não pela viagem em si.
Mas pelo significado.
Depois de tantos meses, teríamos alguns dias longe da rotina, sem academia, trabalho, compromissos ou horários.
Apenas nós.
Eu confesso que tive medo.
Não de estar com ele.
Mas de descobrir se aquela relação funcionava também quando não havia distrações.
E funcionou.
Talvez até melhor.
A praia nos devolveu uma versão mais leve de nós mesmos.
Caminhamos.
Conversamos.
Rimos de coisas sem importância.
Falamos sobre sonhos que nunca havíamos contado um ao outro.
Sobre lugares que queríamos conhecer.
Sobre o que cada um imaginava para os próximos anos.
E, principalmente, sobre nós.
— Você ainda tem medo? — ele perguntou certa noite.
Olhei para o mar.
— Às vezes.
— De quê?
— De perder isso.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu também.
Olhei para ele.
— Mas agora eu sei que não preciso esconder quando sinto medo.
Ele sorriu.
— Nem eu.
Ficamos lado a lado, observando o mar.
Aquela noite não precisava de promessas enormes.
Depois de tudo que havíamos vivido, eu já não queria promessas.
Queria verdade.
Queria saber que, quando viesse uma dificuldade, ele continuaria ali para conversar.
E que eu também continuaria.
Mais tarde, caminhamos pela areia.
Ele segurou minha mão.
Paramos diante do mar.
Havia algo diferente naquela noite.
Não era a ansiedade do começo.
Não era a saudade dos quinze anos.
Era uma tranquilidade que só aparece quando duas pessoas deixam de tentar provar alguma coisa.
Ele se aproximou e perguntou, com cuidado, se eu queria ficar ali mais um pouco.
Eu sorri.
— Quero.
O beijo daquela noite foi diferente dos anteriores.
Não carregava a pressa de recuperar o que perdemos.
Carregava tudo o que havíamos aprendido.
Havia carinho.
Confiança.
Escolha.
Ficamos juntos por alguns instantes, trocando gestos de afeto e deixando que o momento acontecesse sem necessidade de explicações.
Depois, ele encostou a testa na minha e sorriu.
Nenhum dos dois precisava dizer o que aquela noite significava.
Depois de meses aprendendo a confiar, conversar e permanecer, havíamos chegado a um momento que pertencia somente a nós.
E, quando fechamos a porta daquele quarto naquela noite, deixamos do lado de fora todas as perguntas que haviam nos acompanhado desde o reencontro.
Não porque todas tivessem respostas.
Mas porque, naquele momento, pela primeira vez, elas já não pareciam tão importantes.
Na manhã seguinte, o mar continuava exatamente igual.
Mas nós não.
Alguma coisa havia atravessado aquela noite conosco.
Não era apenas proximidade.
Era a certeza de que havíamos escolhido esperar pelo momento em que ambos nos sentíssemos seguros.
E talvez fosse isso que tornasse aquela lembrança tão especial.
Não aconteceu porque estávamos tentando recuperar quinze anos.
Aconteceu porque, depois de todos aqueles meses, finalmente estávamos vivendo o nosso presente.
Thoughts
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PermalinkA noite em que eles ficam a olhar o mar sem precisar de promessas é a parte que me ficou. Não foi comoção, foi mais um alívio pequeno, desses que só aparecem quando ninguém está a tentar provar nada. Comigo esse sossego sem prova também levou tempo.
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PermalinkA cozinha virando bagunça por causa de tempero foi o que ficou comigo. Aposto que a receita nem era difícil, era os dois querendo mandar ao mesmo tempo.
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PermalinkEla escreve o diálogo do medo quase todo, mas na hora em que ele responde que também tem medo, o texto sai fora e vai pro mar. É ali que ela mais protege ele. A praia toda funciona assim: ela diz o que sentiu e deixa ele resolvido em duas palavras.
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PermalinkA discussão do tempero, com ele estudando a receita pra enfrentar o inimigo, me fez pensar em como as noites que ficam guardadas quase sempre são as que deram errado na cozinha. Aposto que este capítulo vai ser o que o pessoal mais lembra da série, mais do que os de briga. Obrigado por continuar postando!
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PermalinkA briga do tempero é o melhor pedaço deste capítulo. Aposto que esses dois já discutem sem medo de perder o outro, e isso só aparece depois de passar pelo pior junto.
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