Baralhei-me com os três à porta da galeria até à parte do cigarro, aí percebi que a garota é a Guillian. Contei isto ao gajo do lado e agora ele quer saber quem é a tal que partiu o salão.
Capítulo 1: Quer Pertencer - Parte 1
Clarisse saiu do metrô um pouco apressada. Algumas pessoas a acompanhavam com os olhos, atraídas pela leveza do seu caminhar e pela juventude que parecia carregar sem esforço. Havia algo nela que…
Em séries
Topics
In groups
Pensamento
Baralhei-me com os três à porta da galeria até à parte do cigarro, aí percebi que a garota é a Guillian. Contei isto ao gajo do lado e agora ele quer saber quem é a tal que partiu o salão.
Conteúdo da publicação
Clarisse saiu do metrô um pouco apressada. Algumas pessoas a acompanhavam com os olhos, atraídas pela leveza do seu caminhar e pela juventude que parecia carregar sem esforço. Havia algo nela que chamava atenção sem intenção.
Estação Consolação.
Ela desceu a rua movimentada, tomada por gente de todos os lugares. A maioria era jovem. Enquanto caminhava, olhou as horas no celular.
8h15.
Respirou aliviada. Estava no horário. Era uma terça-feira de manhã.
Ao chegar à Galeria Le Village, número 1492, diminuiu o passo por um instante. Em frente à entrada havia uma pequena lanchonete.
Foi ali que os viu.
Três jovens.
Dois rapazes e uma garota.
Os três eram belos de um jeito difícil de explicar. Não era apenas aparência. Havia uma presença que fazia o resto da rua desaparecer por um instante.
Quase ao mesmo tempo, eles ergueram os olhos.
Encontraram os dela.
Ninguém desviou.
Os olhares se cruzaram.
Se mediram.
Se perderam.
Pele.
Curiosidade.
Desejo.
Confusão.
Três segundos bastaram para que algo invisível acontecesse entre quatro completos desconhecidos.
Clarisse voltou a andar.
Entrou na galeria sem olhar para trás.
Ou quase.
Seguiu em frente fingindo não perceber que continuava sendo observada. Mas percebia. E uma parte dela gostava daquilo.
Sorriu discretamente.
— Foco, Clarisse... Foco.
Respirou fundo e caminhou até o fim do corredor.
Ateliê Dondocas.
O estúdio era pequeno, silencioso e acolhedor.
Ela bateu à porta.
Poucos segundos depois, uma mulher de cerca de cinquenta anos abriu com um sorriso divertido.
— Clarisse?
— Linda?
— Sou mesmo!
— Não...
A mulher franziu a testa, fingindo indignação.
— Como assim, não sou Linda?
— Quero dizer... seu nome é Linda?
Ela caiu na risada.
— É, sim.
As duas permaneceram em silêncio por um instante.
Então Linda abriu a porta por completo.
— Entra, menina. Tô brincando.
Clarisse sorriu e entrou.
Antes de fechar a porta, Linda lançou um rápido olhar para a entrada da galeria.
Os três jovens ainda estavam ali.
Os dois rapazes e a garota observavam Clarisse desaparecer corredor adentro. Nenhum deles dizia uma palavra. Apenas acompanhavam cada passo dela com uma atenção quase hipnótica.
Linda sorriu de canto.
— Eles são lindos, não são?
Clarisse fingiu não entender.
— Quem?
— Ah... sei.
Linda deu uma risada.
— Senta aqui. Depois você me conta mais sobre você.
Ela fechou a porta do ateliê.
Do lado de fora, os três permaneceram imóveis por mais alguns segundos.
Só então voltaram a respirar como se o mundo tivesse retomado o movimento.
As duas se sentaram à mesa.
Linda observou Clarisse por alguns segundos antes de sorrir.
— Nossa... gostei do seu sotaque baiano.
Clarisse sorriu.
— Tem gente em São Paulo que não gosta.
— Besteira. Acho um charme.
Clarisse abriu a pasta que carregava e a colocou sobre a mesa.
— Trouxe meu portfólio.
Linda começou a folhear os desenhos com calma. A cada página, seu sorriso aumentava.
— Nossa, Clarisse... você desenha muito bem.
Clarisse sentiu o rosto esquentar.
— Gostou mesmo?
— Gostei muito. É exatamente o estilo que procuro para desenvolver peças exclusivas aqui na Augusta.
— Espero poder ajudar.
— Vai ajudar. Nossa loja é pequena, mas recebe clientes com gostos bem diferentes. Eles procuram coisas que não encontram em nenhum outro lugar.
Enquanto falava, Linda percebeu que, de vez em quando, o olhar de Clarisse escapava discretamente para a vitrine.
Lá fora.
Os três jovens ainda estavam na lanchonete.
Os dois rapazes conversavam entre si. A garota tomava um gole de café, mas os três, vez ou outra, voltavam os olhos para a galeria.
Linda sorriu de canto.
— Clarisse...
Ela voltou a atenção para a mesa.
— Oi?
— Cuidado, hein...
— Como assim?
— Conheço os três só de vista. São gente boa... mas têm um charme perigoso.
Clarisse riu, sem graça.
— Hum...
— Fica tranquila. Até eu, de vez em quando, me perco na energia deles. Servem de inspiração para qualquer artista.
Clarisse sorriu.
— Tudo bem, dona Linda.
Linda apontou o dedo para ela, fingindo seriedade.
— Só me chama de Linda.
As duas riram.
Linda fechou o portfólio e o devolveu.
— Pode começar hoje mesmo. Primeiro conheça a loja, veja nossas referências, os tecidos, os catálogos... Quero que você entenda o espírito do ateliê antes de colocar a mão no lápis.
Clarisse assentiu.
— Com certeza, dona...
Ela parou e sorriu.
— Desculpa... Linda.
— Assim está melhor.
— E hoje nada de desenhos. Quero que você se familiarize com tudo, tá?
— Tá bom... Linda.
As duas sorriram.
Pela primeira vez naquela manhã, Clarisse sentiu que estava exatamente onde deveria estar.
Do lado de fora da galeria, os três jovens continuavam na lanchonete.
— Vocês viram? A Linda não perde tempo, né?
Ela parou e lançou um olhar cínico para o rapaz.
— Típico de homem como você.
Guillian riu sem graça.
— Ah, para, né? Você também secou ela.
Iago mordeu o lábio, desconcertado.
— É... mas, Anton...
Anton levantou a mão, pedindo silêncio.
— Foi assim também com ela. Você sabe.
O olhar de Iago mudou. Ele encarou Anton com um misto de incômodo e ressentimento.
— E você também fez isso com ela, não fez, Anton?
Iago respirou fundo.
— Ontem ela estava aqui... eu fiquei com pena dela.
Guillian balançou a cabeça.
— Pena? Ela destruiu o salão semana passada, cara. Não sinto pena nenhuma.
— Para com isso, Guillian.
A voz de Anton mudou.
Seria apenas uma frase, mas quando ele pronunciou o nome inteiro, Guillian percebeu que a brincadeira tinha acabado.
Anton passou a mão pelos cabelos.
— Todos nós erramos. E também não somos inocentes. Mas ela entendeu tudo errado.
Iago olhou para os dois amigos.
— Como vocês conseguem ser assim? Tão duros?
Anton fechou os punhos.
Por um instante, ninguém falou nada.
Iago percebeu e recuou.
Guillian entrou no meio.
— Já passou, Anton. Deixa isso.
Anton respirou fundo.
— Desculpa, Iago. Meu amigo... às vezes me dá vontade de te bater.
Iago sorriu de leve.
— Eu sei. Você me ama, né?
— Para, Iago. Seu bobo.
— Sim. Sou mesmo.
Ele olhou para os dois.
— Por vocês.
Guillian sorriu. De algum jeito, aquela nova garota tinha mexido com o grupo. Seus corpos tinham percebido antes que suas cabeças.
Guillian puxou um cigarro do bolso.
Antes que acendesse, Iago pegou da mão dele.
— Que vício horrível, garota.
Anton pegou a carteira de cigarros.
— Não. Pelo seu bem.
Guillian olhou irritado.
Segurou a vontade de reclamar. Mordeu o lábio e encarou os dois amigos.
A raiva passou.
Porque, no fundo, ele sabia.
Eles faziam aquilo porque se importavam.
Anton devolveu a carteira para ele.
— Odeio cigarro. Tem tanta coisa boa no mundo.
Os três ficaram em silêncio por alguns segundos.
A galeria continuava movimentada.
Mas, pela primeira vez naquela manhã, eles não estavam olhando para fora.
Estavam olhando uns para os outros.
Os quatro se olharam em uma breve despedida antes de seguirem para suas lojas dentro da galeria.
Não disseram nada.
Apenas trocaram olhares, como se aquela conexão silenciosa já fosse uma conversa antiga.
Iago acompanhou Anton até a loja dele. A barbearia ficava em frente à Garimpo Discos, onde Anton trabalhava.
Guillian subiu as escadas em direção ao seu estúdio de tatuagem, a Rosa Selvagem.
A manhã continuava.
O silêncio entre eles era quebrado apenas pelo movimento da galeria: passos apressados, vozes misturadas, portas abrindo, clientes chegando.
Cada um voltava para o seu mundo.
#amizade #amizadeverdadeira #amor #relacionamentos #solidão #pertencimento #juventude #amadurecimento #recomeços #saudade #memórias #passado #perdão #companheirismo #vulnerabilidade #intimidade #liberdade #identidade #escolhas #vidaadulta
Thoughts
-
PermalinkBaralhei-me com os três à porta da galeria até à parte do cigarro, aí percebi que a garota é a Guillian. Contei isto ao gajo do lado e agora ele quer saber quem é a tal que partiu o salão.
-
PermalinkLi a parte do nome da Linda pra minha vo e ela riu alto, disse que ja conheceu tres Lindas e nenhuma fazia essa piada
Related posts
-
Capítulo 2: Quer Ser Amada Parte - 3 Final
Na porta da barbershop, Clarisse e Linda observam a cena.
-
Capítulo 2: Quer Ser Amada - Parte 2
Aquela manhã passou devagar.
-
Capítulo 2: Quer Ser Amada - Parte 1
Semanas se passaram.
-
Eu Creio
🙏 Oração.
-
Um Golpe na Liberdade música
A Canção da Redenção (O Império do Povo)
-
Um golpe na Liberdade capítulo final
Capítulo 3: A Batalha Final e a Redenção da Nação (1901)
-
Um golpe na Liberdade novo capítulo
Capítulo 2: A Chama da Guerra Civil (1888–1901)
-
O Escravo
1- Escravidão Brasil, ano de 1872, Jorge era um homem negro, de 27 anos, escravo, filho de escravos. Coronel Marcos Venâncio, era um homem rude, para ele, seus escravos não eram gente, e sim…