Lúpus é tipo aquele negócio que a gente vê as pessoas falando mas não sabe bem o que é? A Lisa tem mesmo desde pequena ou apareceu do nada?
CAPÍTULO 1
Essa é uma história de minha autoria. O que quero fazer aqui é divulgá-la e compartilhar o mundinho que venho criando com tanto cuidado. Você pode encontrar ela tanto no Wattpad quanto no Spirit.
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Pensamento
Lúpus é tipo aquele negócio que a gente vê as pessoas falando mas não sabe bem o que é? A Lisa tem mesmo desde pequena ou apareceu do nada?
Conteúdo da publicação
“Por onde eu começo?”
“Pelo começo, não?”
“Muito engraçado… Bom acho que já tenho um ponto por onde começar.”
Andreia…
Andreia…
– Andreia! – Ouço palmas ao meu lado me tirando dos meus pensamentos.
– Ah? Sim, senhor Jones? – Levanto-me rapidamente, dando total atenção ao senhor baixinho de meia idade à minha frente.
– O que você ainda está fazendo aqui? O expediente já acabou.
– Eu… – Como explicar para ele que eu estou evitando ir para casa, sem expor a minha vida miserável? – Eu não vi a hora passar senhor. Estava terminando de organizar os livros novos. – Jura? Não tinha outra coisa melhor?
– Vá para casa menina, já está tarde. – O senhor baixinho fala, colocando uma mão carinhosa em meu ombro. – Já estou de saída, tranque a porta ao sair, sim? – Afirmo com a cabeça e o observo pegar seu grande casaco e passar pela porta principal.
Dou um longo suspiro antes de seguir para uma salinha que tem para os funcionários, pego minha mochila e meu casaco e sigo para a saída, apago as luzes deixando somente a da vitrine acesa e tranco a porta. Olho para cima, vendo o céu nublado, observo uma lufada de ar sair por entre meus lábios — em breve começara a nevar— e ando em direção ao metrô, mas paro ao sentir o meu celular vibrar.
”Ela teve febre hoje e se queixou de dores, também não comeu nada.”
”Consegui abaixar um pouco sua febre e já lhe dei o remédio, mas ainda não consegui fazê-la comer.”
Respiro fundo sentindo meu coração doer ao ler essas palavras. Ela é tão pequena para passar por isso. Mudo minha direção e sigo para o único lugar que eu sei que vai estar aberto a essas horas. Entro na pequena loja de conveniências e começo a procurar o que eu sei que pode animá-la, agradeço a todas as divindades por estar em um preço que não vai me afetar tanto. Pego a pequena bandeja de morangos e sigo para o caixa, onde Dona Dolores, uma senhora latina já me esperava com um sorriso.
– Hola Andreia, como está querida?
– Estou bem, Dona Dolores, só cansada. – Entrego a bandeja para ela e já pego o dinheiro para pagá-la.
– Vejo que a pequeña Lisa está com dificuldades. Ela está bem? – Me pergunta preocupada e entrega a sacola.
– Melhor do que a última crise, ainda bem. Não sei se eu aguentaria mais uma daquelas. – Digo cabisbaixa, lembrando do período infermo que eu passei.
– Entendo, melhoras para ela. – Fala em um tom doce.
– Obrigada. – Estava saindo do estabelecimento quando a senhora me chama, me viro para olhar em seu rosto.
– Deus tem obras divinas guardadas para nós… Não esqueça disso menina.
– Vou lembrar disso.
Saio pelas ruas geladas de Nova York e sigo para o metrô, segurando bem firme a sacola que carrega um pontinho de alegria na vida da pequena garota que me espera em casa, o meu pequeno sol.
Abro a porta do apartamento minúsculo e logo vejo a mulher que tem me ajudado muito com a minha pequena, sentada na ilha da cozinha ela mexia no celular, não demora muito para ela olhar para a direção da porta e me oferecer um sorriso caloroso de boas vindas.
Helena era uma mulher de 27 anos muito bonita, tanto por fora quanto por dentro; ela tinha cabelos negros e uma pele clara — como diz Lisa, ela parece a Branca de Neve — uma mulher inteligente, bondosa e engraçada. Ela usava um jeans preto com um corset bordo e suas inseparáveis botas de cano baixo. Acho que dá para imaginar com o que ela trabalha, infelizmente assim como foi comigo, a vida não foi boa para ela.
– Hey estranha! Como foi hoje? – Ela pergunta vindo em minha direção me dando um abraço apertado.
– Cansativo, hoje veio uma demanda de livros novos, tivemos que reorganizar tudo. Trouxe isso para ela, será que você poderia cortar algumas para mim? Preciso tomar um banho antes de entrar no quarto dela. – Digo, estendendo a sacola para ela.
– Claro, sem problemas, ainda tenho trinta minutos.
Dou um sorriso de agradecimento, entro no diretamente no banheiro onde meu pijama já estava — que consiste em uma calça moletom surrada e um top preto esportivo — e tomo um banho rápido. Já de volta na cozinha percebo Helena guardando o resto dos morangos na geladeira. Me sentei na banqueta da pequena ilha da cozinha e fiquei observando.
– Como ela está? – Quebro o silêncio.
– Depois que a peguei na escola a gente foi tirar um cochilo da tarde, você sabe a nossa pequena rotina, mas aí percebi que ela estava mais cansada que o normal e quando eu toquei nela ela estava com febre e ela reclamou de dores também. – Ouço tudo atentamente com um peso no peito, sinto lágrimas começarem a descer por minhas bochechas e solto um suspiro frustrado. Que merda, não posso chorar agora. – Ei, não, não precisa chorar. Está tudo bem. – Ela dá a volta pela ilha da cozinha até estar do meu lado, escondo o rosto com minhas mãos e desabo.
– Não, não está. Isso é tão frustrante, eu… eu deveria ser mais forte, eu deveria conseguir fazer mais por ela, aquela garotinha que está dormindo no cômodo ao lado está sofrendo agora, tudo porque eu não consegui mais dinheiro para pagar os remédios dela, tudo porque eu não sou capacitada o suficiente para conseguir um emprego decente que tenha ao menos a droga de um plano de saúde… E ainda tem ele… Aquele sanguessuga no qual não tenho nem forças para enfrentar, um problema que eu já deveria ter resolvido mas eu ainda tenho esperanças que ele… Sou um fracasso…
– Ei, você não é um fracasso, Andreia. Eu vejo você lutando dia e noite pela felicidade daquela garotinha, você trabalha de manhã até tarde da noite naquela livraria e ainda por cima passa horas acordada vendo formas de investir por meio de suas fotos. Tudo por aquela menininha que nunca deixa de falar de como a irmãzona dela é descolada e maneira, de como ela é uma garota empenhada e de que um dia ela quer ser como você.
– Eu tenho medo de falhar ainda mais com ela…
– Você não está falhando com ela…
– Sim, eu estou. Ela não deveria viver nesse muquifo, ela não deveria viver sofrendo, ela não deveria estar frequentando aquela escola onde todos são tão crueis com uma garotinha de 6 anos, porra eu deveria ao menos ser capaz de conseguir mudar ela de escola… Isso porque não vamos nem falar de seu progenitor de merda que está a dois meses sem ve-la. Eu deveria ser capaz de proteger ela, deveria ser capaz de dar uma vida decente à ela.
– Andreia olhe para mim… – Ela me vira para olhar em seus olhos cor mel. – Você não deveria se cobrar tanto desse jeito, você só tem 22 anos, você está fazendo tudo o que lhe é permitido. Não pense desse jeito. Lisa te ama, ela é uma criança feliz, porque tendo só a irmãzona dela basta. – Ela encosta nossas testas e eu fecho os meus olhos deixando as lágrimas caírem. – Você trabalha desde dos seus 16 anos, sempre deu o seu máximo para dar uma vida digna para aquela garotinha que te ama tanto. Você teve que amadurecer mais rápido e compreender como funciona a vida adulta ainda tão nova, mas isso não significa que você precisa suportar todo o peso sozinha, você tem o meu apoio. E mesmo que eu saiba que você não vai aceitar nenhuma ajuda financeira vinda da minha parte, quero que saiba que estou aqui do seu lado. Ok? – Balanço a cabeça em confirmação e logo sinto os seus braços me envolverem em um abraço que foi aceito de muito bom agrado.
Ficamos naquela posição até o horário dela precisar ir embora. A levo até a porta e lhe dou um abraço de despedida e um “Bom trabalho”, logo sinto sua mão em meu rosto fazendo um leve carinho e um leve e terno beijo foi depositado em minha testa. Fecho e respiro fundo, pego o pequeno pote fechado que continha os morangos cortados e um garfo pequeno próprio para a minha garotinha de 6 anos, sigo para o nosso quarto e logo a vejo deitada com seu abajur de estrelas aceso do lado. Sento na borda da cama e fico velando o seu sereno sono por alguns minutos, até começar a passar minha mão pelo seu rostinho delicado, com o intuito de acordá-la para fazê-la comer um pouco.
– Dreia… – Ouço ser chamada por aquela vozinha doce cheia de sono e meu coração se enche de paz.
– Oi meu amor, cheguei. – Logo sou presenteada por aqueles olhinhos azuis e um sorriso sonolento com um dentinho faltando.
– Dreia! – Ela se levanta se jogando em mim me dando um forte abraço, equilíbro para longe o pote com o garfo e com o braço livre a envolvo em um forte abraço e deposito vários beijinhos em sua cabeleira castanha acobreada.
– Parece que temos alguém com bastante energia por aqui. Como você está, sunshine?
– Estou bem, a tia Helena cuidou de mim com muito carinho – Diz, alegre. Sorrio diante da revelação. – A gente tirou o nosso cochilo, depois ela me deu banho e me fez massagem para aliviar a dorzinha, depois ficamos assistindo e desenhando. – Ela fala empolgada, sorrio e fico admirando o seu rostinho, que já estava com a famosa marcação borboleta em suas bochechas e nariz. – O que é isso na sua mão? – Pergunta apontando para o pote.
– Um passarinho me contou que nossa pequena astronauta não estava se sentindo muito bem, então fui em uma grande missão interestelar procurar algo que pudesse ajudá-la. – Falo estendendo o pote em sua direção, ela pega o mesmo e abre para logo direcionar aquelas orbes que carregavam uma galáxia inteira e falar animada.
– Morangos! – Ela deixa o pote de lado e me abraça forte – Obrigada, irmãzona!
– De nada, minha pequena astronauta.
Ela se afasta e pega o pote que estava do lado e começa a comer com gosto cada rodela de morango que havia ali — para quem não estava com apetite, isso já é o começo — a observo devorar a fruta, enquanto ouvia ela falar sobre o seu dia animada. Quando ela terminou a ajudo a se ajeitar na cama e dou um beijo de boa noite, estava prestes a sair do quarto quando ela me chama, dizendo algo que quebrou o meu coração.
Je te laisserai des mots- Patrick Watson
– Dreia, porque as outras crianças não gostam de mim?
– Como assim? – Volto para o seu lado e deixo o pote no criado mudo.
– As crianças não gostam de mim. Elas dizem que eu sou doente e posso passar a doença para elas, algumas até dizem que eu vou morrer cedo. Isso é verdade? – Respiro fundo. Aquilo era muita crueldade.
– Não, claro que não. Você não vai morrer, meu amor. Essas crianças não sabem de nada. Lisa, o Lúpus, não é contagioso e tem tratamento, os remédios que você toma são justamente para te ajudar. Essas crianças são burras e mesquinhas ao acharem que só por você ter Lúpus te torna uma pessoa no qual elas não possam gostar, mas o azar é delas por não se permitirem gostar da garotinha, doce, amável, divertida e inteligente que você é, entendeu? – encosto minha testa na sua – Você é a melhor irmãzinha que eu poderia pedir. – Deixo um beijo em sua testinha.
– Canta pra mim? – Pergunta com a sua vozinha baixa. Aceno com a cabeça e começo a fazer um carinho em seus cabelos. Tomo fôlego e canto baixinho a música que a nossa mãe cantava:
– “Je te laisserai des mots
En-dessous de ta porte”
Sua vozinha começa a me acompanhar.
– “En-dessous de les murs qui chantent
Tout près de la place où tes pieds passent
Cachés dans les trous de ton divan
Et quand tu es seule pendant un instant
Ramasse-moi
Quand tu voudras
Embrasse-moi
Quand tu voudras
Ramasse-moi
Quand tu voudras”
“E eu fiquei ali, velando o sono da minha doce menina, enquanto eu cantarolava a melodia da música até eu ter certeza que ela tinha pegado no sono. Observava o rosto sereno daquele pequeno raio de sol e pensava em mil e uma formas de melhorar a sua vida, de nunca mais deixar que as pessoas não gostassem dela por causa da doença… Algo naquela noite mudou, uma nova determinação jovial me dominou por completo, que só cresceu ainda mais, quando eu me lembrei da conversa que tive com Helena. Eu iria fazer algo a respeito.”
“E o que você fez depois disso?”
“ Fiz uma promessa silenciosa na calada da noite para o meu raio de sol, uma promessa que daria a minha vida para cumprir…”
– Eu prometo, sunshine! Eu te prometo que a irmãzona vai te dar a melhor vida possível, e você vai poder realizar o seu sonho. – Deixo um beijo em sua testa e saio do quarto com meu computador em mãos e a determinação renovada.
Thoughts
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PermalinkAnsioso pelo próximo capítulo 💫
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PermalinkQue capítulo. Ficou comigo mesmo.
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PermalinkAquele momento com a Dona Dolores na conveniência é tão pequeno mas tipo, tudo o que o texto é: gente notando gente, sabe.
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PermalinkVocê escreve isso tudo com um cuidado meio raro. Quer dizer, Lisa é baseada em alguém real ou é só a criatividade mesmo?
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PermalinkAcho que Andreia é daqueles personagens que a gente quer abraçar. Tipo, ela é forte mas tipo, ainda é uma menina tentando carregar tudo sozinha, sabe.
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PermalinkMeu Deus, essa Helena é tipo aquele amigo que a gente precisava ter 😭
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PermalinkVejo gente lutando sozinha demais. Mas diz aí, depois dessa determinação, o que Andreia vai fazer? Como continua?
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PermalinkLúpus é tipo aquele negócio que a gente vê as pessoas falando mas não sabe bem o que é? A Lisa tem mesmo desde pequena ou apareceu do nada?
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