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Capítulo 07 - A Essência

KazzTeles
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Arken havia deixado de parecer uma cidade, as ruas estavam tomadas pelo caos, pessoas corriam em todas as direções enquanto os soldados tentavam organizar uma defesa contra algo que ninguém…

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Égua, o João largando a espada no chão só com o olhar do Alexander. Se esse menino morrer eu paro de ler, já aviso.

Égua, o João largando a espada no chão só com o olhar do Alexander. Se esse menino morrer eu paro de ler, já aviso.

Conteúdo da publicação

Arken havia deixado de parecer uma cidade, as ruas estavam tomadas pelo caos, pessoas corriam em todas as direções enquanto os soldados tentavam organizar uma defesa contra algo que ninguém conseguia entender, e acima das muralhas a coluna negra continuava se expandindo pelo céu, escondendo as estrelas como uma ferida aberta na noite.

Não era uma tempestade comum, não havia vento suficiente para explicar os movimentos das nuvens, e ainda assim elas giravam em torno daquele ponto como se alguma coisa estivesse puxando o próprio firmamento. A cada poucos segundos, uma onda escura atravessa o céu e fazia as construções vibrarem, vidros quebravam, animais se agitavam e, de algum lugar distante, vinha um som grave semelhante a um batimento cardíaco

Daiquiri permanecia parado no centro da rua, olhando para aquela manifestação, incapaz de desviar os olhos. Havia alguma coisa naquele céu que parecia familiar demais, embora ele soubesse que nunca tinha visto nada parecido. Era como reconhecer um rosto depois de passar anos sem lembrar de onde o conhecia.

A energia dentro dele respondia à presença de Azoth, não exatamente com dor, mas com uma espécie de atração involuntária. Seu corpo parecia querer caminhar em direção àquela coisa, e foi necessário apertar os punhos até as unhas marcarem a pele para permanecer onde estava.

— Não fica olhando por muito tempo — disse Marina, se aproximando dele. — Você está reagindo ao chamado dele.

— Eu sei...

— Não, você não sabe. Está ficando mais difícil de controlar, não é?

Daiquiri fechou os olhos, respirou fundo e, lentamente, a pressão diminuiu. Quando tornou a abrí-los, a cidade ainda estava ali.

— Como faço isso parar?

Marina observou com atenção antes de responder, e por alguns segundos pareceu escolher cuidadosamente as palavras.

— Não sei, mas sei que continuar olhando para aquela coisa está fazendo a energia dentro de você responder. Quanto mais tempo você permanecer conectado a ela, maior será a chance de Azoth perceber exatamente onde estamos.

João apareceu ao lado dos dois carregando uma espada curta que havia pegado de algum soldado ferido.

— Adoro quando a resposta para uma pergunta importante é "não sei"... Passa muuuuuuita segurança.

— Você pegou uma espada que nem sabe usar — respondeu Marina.

— É claro que eu sei usar espada, não sei Alexander?

Alexander olhou para a arma, olhou para a João e virou de costas.

— Não sabe.

João observou a lâmina, depois olhou para Alexander de forma teatral e jogou a espada fora.

Mesmo naquele momento, Daiquiri conseguiu sorrir. Foi breve, mas suficiente para lembrar que ainda eram os mesmos quatro, apesar de tudo que havia acontecido, ou quase os mesmos quatro. Alexander, Marina e João estavam ali, mas ele começava a sentir que talvez uma parte dele não estivesse mais.

— Precisamos sair da cidade — disse Alexander. — Os soldados não vão conseguir conter isso.

Edran concordou imediatamente.

— Existe uma passagem ao norte que leva para fora das muralhas, se atravessarmos as antigas minas, podemos alcançar as colinas antes que os seguidores de Azoth fechem os acessos. Não podemos permanecer aqui esperando que ele termine de despertar.

— E para onde vamos? — Daiquiri olhou para a coluna negra.

— Para qualquer lugar onde Azoth não possa encontrar você — disse o velho sem pestanejar.

João soltou uma risada curta e olhou para o velho.

— Considerando que ele acabou de acordar e provavelmente consegue sentir o Daiquiri a quilômetros daqui, talvez precisamos começar a procurar um lugar fora do planeta, ou... — ele olhou para a bolsa de Marina. — Dá pra esconder o Daiquiri aí?

Marina recuou e escondeu a bolsa.

— É brincadeira, irmã...

Eles começaram a correr, o trajeto até a saída norte foi feito quase sem falar, a cidade estava em colapso e, apesar de os soldados tentarem conter os seguidores de Azoth, ficava cada vez mais evidente que aquela não era uma invasão convencional.

Os cultistas não precisavam conquistar ruas ou derrubar portões, muitos simplesmente permaneciam parados, olhando para o céu enquanto repetiam orações em voz baixa. Outros seguiam em direção às montanhas, como se soubessem exatamente para onde ir.

Quando passaram pela praça central, Daiquiri viu algo que o fez parar por um instante, uma mulher estava ajoelhada ao lado do corpo de um soldado, chorando enquanto segurava suas mãos, mais adiante, crianças eram levadas por comerciantes para dentro de uma casa, um grupo de guardas tentava levantar uma barricada improvisada, tudo aquilo acontecia porque Azoth havia retornado.

Daiquiri sentiu a energia dentro do corpo reagir novamente.

— Não...

— O que foi? — Marina segurou seu braço.

— Eles vão morrer, nós temos que tentar ajudar.

Alexander se virou e começou a puxá-lo.

— É isso que Azoth quer que você pense! Se ficarmos, nós também podemos morrer! Não confunda querer ajudar com saber como ajudar, você não sabe o que pode fazer. Você está ligado a ele e ainda não sabe controlar o que existe dentro de você, se tentar usar esse poder agora, pode acabar entregando exatamente aquilo que ele precisa.

Uma criança que estava chorando olhou para Daiquiri, e ele desviou o olhar, observando novamente as pessoas na praça. Alexander soltou seu braço e simplesmente disse:

— Vamos.

Continuaram até a saída norte, Edran conseguiu abrir um antigo portão de ferro escondido entre duas construções, revelando uma passagem que levava para um túnel estreito sob a montanha. Assim que todos entraram, Marina fechou o mecanismo atrás deles. O barulho da cidade foi diminuindo até desaparecer completamente, por alguns minutos, só se ouviam a respiração dos quatro e o som dos passos sobre a pedra. João, naturalmente, foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Só pra deixar registrado: eu preferia muito mais quando a parte assustadora da nossa vida eram as dívidas que temos que pagar... Ou até mesmo os monstros da floresta.

Marina olhou para ele.

— Você ainda acha que aqueles monstros eram assustadores?

— Comparativamente? — João pensou durante alguns segundos e respondeu. — Agora eles me parecem até simpáticos.

Daiquiri quase riu novamente, mas permaneceu calado. Caminhava alguns metros atrás deles, sentindo que alguma coisa continuava pulsando dentro de seu corpo. Edran seguia à frente, guiando o grupo, mas de tempos em tempos olhava para trás como se esperasse algo acontecer. Depois de cerca de meia hora, chegaram a uma pequena câmara subterrânea com bancos de pedra nas laterais e restos de equipamentos abandonados no chão.

— Podemos descansar um pouco aqui — disse o velho.

Alexander encostou-se à parede e começou a limpar a própria espada. João sentou-se no chão, enquanto Marina abriu a bolsa e começou a retirar os objetos que havia guardado desde Arken. Daiquiri observou novamente a pequena caixa de madeira que ela havia escondido durante a viagem.

— O que tem aí dentro?

— Aqui? — Marina colocou a caixa sobre o chão. — Ainda não consegui abrir.

— Você tentou? — João se aproximou dela e pegou a caixa do chão.

— Sim, duas vezes, mas não aconteceu nada.

Alexander se aproximou de João e pegou a caixa, observando a tampa por alguns segundos e depois retornou o objeto às mãos de Marina.

— Não tem fechadura. — rugiu.

— Tem — Marina levantou a caixa e apontou para a sua lateral.

Ali havia um pequeno símbolo gravado na madeira, o mesmo que havia aparecido nas pedras da estrada. Daiquiri se ajoelhou ao lado de Marina e passou o dedo sobre a marca.

— É o símbolo de Morvath? — perguntou.

— Não exatamente — Marina balançou a cabeça. — É um símbolo associado a Azoth.

Edran, curioso, se aproximou assim que viu a caixa, sua expressão mudou completamente.

— Onde você encontrou isso? — perguntou.

— Na caravana — ela respondeu. — Estava dentro de uma das carroças.

O velho tocou a tampa da caixa, mas retirou a mão imediatamente, sua expressão era de medo, seus olhos estavam fixados naquela pequena caixa.

— Não abra... Não sei o que tem aí dentro, mas pode ser que isso reaja à essência — ele se afastou da caixa. — Não sei como conseguiram, mas não abram.

Daiquiri olhou para a caixa por alguns segundos antes de tentar falar, mas Marina foi mais rápida e exclamou em voz alta.

— A pessoa que contratou o Harlan! — seus olhos se arregalaram. — Foi essa pessoa quem colocou essa caixa na caravana!

Daiquiri se aproximou e tocou na tampa da caixa e, no instante em que seus dedos encostaram na madeira, o símbolo gravado em sua superfície brilhou com uma intensidade inesperada. Marina imediatamente segurou seu braço e o puxou para trás, mas a luz desapareceu tão rápido quanto havia surgido, deixando apenas a madeira escura e o silêncio absoluto.

Todos ficaram imóveis por alguns segundos, olhando para a caixa e depois para Daiquiri, como se esperassem que alguma coisa acontecesse novamente. Ele próprio manteve a mão erguida diante dos olhos, tentando entender o que acabara de sentir, enquanto Edran fecha os olhos e soltava um suspiro pesado.

— Então não há duvida — disse o velho.

Daiquiri voltou-se para ele, ainda sentindo um leve formigamento nos dedos.

— Não há dúvidas sobre o quê? Porque, sinceramente, eu já estou começando a perder a conta de quantas coisas nesta viagem parecem óbvias para todo mundo, menos para mim.

— O que quer que tenha colocado isso dentro da caravana sabia exatamente quem você é — Edran abriu os olhos e encarou a caixa. — Não colocaram esse objeto ali por acaso, nem para proteger alguma mercadoria, ele foi levado até você porque reage à essência que existe dentro do seu corpo.

Maria pegou a caixa com cuidado, examinando a madeira, as inscrições e as pequenas marcas na lateral da caixa, e disse:

— Isso não é apenas uma caixa, me parece ser um recipiente de contenção — todos olharam para ela, que continuava a dizer. — Eu nunca vi esse tipo de coisa, deve ser algum objeto criado durante a Grande Guerra do Século Branco para preservar fragmentos de essência sem permitir que eles fosse consumidos, corrompidos ou detectados facilmente por magia comum.

— Irmãzinha, quanto mais você fala, menos eu entendo — João se aproximou, inclinando o corpo para observar melhor. — E o que exatamente eles guardavam nesse recipiente?

Edran olhou para Daiquiri antes de responder.

— Eu já li sobre isso em algum lugar, me parece que guardavam fragmentos de almas, em alguns casos, pequenas porções retiradas de seres poderosos, em outros, restos de energia usados para identificar, rastrear ou até controlar alguém que estivesse ligado a determinada fonte mágica. Se duvidar era o que os grande magos daquele século usavam para batalhar contra os tais "deuses" que afrontavam o mundo.

— Então alguém colocou deliberadamente um recipiente capaz de reagir à essência de Azoth dentro de uma caravana cuja verdadeira finalidade era trazer Daiquiri até Arken — Marina passou o dedo pela superfície da madeira. — Isso significa que eles queriam confirmar alguma coisa—

— Que o Daiquiri era o Morvath! — João a interrompeu, cruzando os braços e fazendo uma pose de alguém inteligente.

— Sim... — concordou Edran. — Ou eles queriam localizar exatamente onde a essência estavam talvez nem mesmo soubessem quem a carregava, talvez eles precisassem de uma reação para ter certeza.

Daquiri voltou os olhos para a caixa, depois de tudo o que já haviam descoberto, já não havia motivos para hesitar.

— Abra — disse ele.

— Você tem certeza? — Marina o encarou durante alguns segundos, claramente tentando decidir se deveria contrariá-lo. — Isso foi criado para trabalhar diretamente com a essência ligada à Azoth, não temos como saber o que pode acontecer quando a abrirmos.

Daiquiri respirou fundo.

— Não temos como saber o que pode acontecer com nada desde que saímos de Valdora — ele olhou para Marina com confiança. — Descobrimos criatura que me reconhecem, descobrimos que meu pai passou anos escondendo coisas de mim, descobrimos que existe uma entidade chamada Azoth e agora alguém colocou isso dentro da mesma caravana que eu. Então sim, tenho certeza, abra.

Marina permaneceu em silêncio, tocou na tampa da caixa e percebeu que ela estava aberta, provavelmente após ser tocada por Daiquiri, demorou alguns segundos antes de finalmente levantar a tampa.

Dentro não havia joias, armas ou qualquer objeto que parecesse importante à primeira vista. havia apenas uma pequena pedra branca, pouco maior que uma moeda, perfeitamente lisa e sem qualquer inscrição. Parecia completamente comum até daiquiri se aproximar, antes mesmo de tocá-la, ele sentiu novamente aquela atração estranha no peito, como se alguma parte de seu corpo reconhecesse aquela pedra.

— Depois de tudo o que a gente passou, confesso que esperava algo ameaçador — João se inclinou para examiná-la. — Eu esperava um crânio, talvez, ou uma espada amaldiçoada.

Edran não respondeu à piada, seus olhos estavam fixos na pedra.

— Não subestime algo apenas porque parece pequeno.

— É o que eu sempre digo pra elas. — João riu, olhou ao seu redor e soltou um suspiro de decepção, era mais uma piada pronta que ninguém havia dado a devida atenção.

Uma luz começou a surgir lentamente no interior do objeto, Marina percebeu primeiro e estender a mão na direção de Daiquiri. — Não toque.

Daiquiri sequer havia percebido que estava aproximando os dedos da pedra, ela então brilhou ainda mais, respondendo à presença dele, e Alexander deu um passo à frente.

— Garoto! pare!

— Eu já parei — Daiquiri congelou a mão no ar e olhou para Alexander.

— Não é você quem está fazendo isso — continuou Alexander, observando atentamente a pedra. — E é justamente esse o problema, você tá agindo de forma inconsciente.

Marina fechou a caixa e a luz desapareceu imediatamente, deixando-a alguns segundos parada diante do objeto, Então ela ergueu os olhos para a própria bolsa.

— Não precisamos guardar isso. — Ela guardou a caixa dentro da bolsa, fechou a fivela e esperou, nada aconteceu. Nenhuma luz, nenhuma vibração, nenhum sinal de energia. Marina abriu novamente a bolsa para verificar e depois fechou, agora claramente intrigada.

— Curioso.

— O que foi? — Daiquiri ergueu uma sobrancelha.

—A bolsa pareceu neutralizar completamente a presença da pedra — Marina pegou uma pedra e começou a simular a explicação que viria em seguida. — Quando a pedra apareceu, eu senti uma energia arcana vindo dela, provavelmente o João e o Alexander não sentiram pois são guerreiros físicos e não mágicos, ou seja, sem familiaridade com a energia arcana. Porém ao colocar a caixa dentro da bolsa, a energia arcana que ela emanava me pareceu neutralizada... Ela não desapareceu, enfraqueceu ou foi absorvida, ela simplesmente foi neutralizada, eu não consigo sentira energia, apenas a presença da pedra.

— Essa bolsa é um artefato mágico? — Edran aproximou-se com uma expressão pensativa.

— Eu sempre achei que sim — Marina deu de ombros. — Ela consegue guardar muito mais coisas do que deveria caber fisicamente ali, mas nunca procurei entender o por quê. Meu pai encontrou enquanto visitava uma masmorra, mas a equipe dele não quis pois achava ser um item bem inútil, mas para mim, é uma ferramenta bastante útil.

Marina segurou a alça e observou o objeto por alguns segundos, como se pela primeira vez tivesse percebido que talvez houvesse alguma coisa muito mais estranha ali.

Edran não insistiu, voltou ao livro que estava aberto sobre a mesa improvisada e virou algumas páginas até encontrar uma ilustração antiga. Duas esferas estavam desenhadas lado a lado, uma branca e outra negra, ambas envoltas em símbolos que Daiquiri não conseguia compreender.

— Precisamos entender uma coisa antes de sair daqui — disse o velho. — Estas são as duas essências de Azoth — Edran apontou para a esfera negra. — Eu acho que essa é a que está com o Daiquiri.

Marina franziu a testa e apontou para a esfera branca.

— E essa?

— Me parece ser a parte que permaneceu entre os humanos durante os séculos seguintes, ela foi fragmentada, escondida e protegida de diferentes maneiras, mas continuou existindo sem a presença completa de Azoth.

— Então por que ele precisa justamente da que está comigo? — Daiquiri voltou os olhos para a esfera escura.

Edran olhou para o garoto e demorou alguns segundos, suspirou fundo e respondeu:

— Porque a parte que está em você é a que permite que Azoth volte a ser completo e não aquele ser etéreo que vimos agora a pouco. A essência que permaneceu entre os humanos carrega a consciência que sobreviveu à separação, mas o fragmento ligado a você carrega uma concentração muito maior da força vital que ele precisa para recuperar aquilo que perdeu.

— Então ele poderia existir sem mim? — perguntou Daiquiri com as mão tremendo.

— Sim, poderia — respondeu. — Mas ele jamais seria o mesmo de séculos atrás, você não é aquele que ele quer possuir, você é justamente o pedaço que falta dele.

João ficou alguns segundos em silêncio, antes de cruzar os braços.

— Espera, então quero entender isso direito — a voz de João estava fina e estridente, de forma que incomodava os ouvidos, ele tossiu, respirou fundo e continuou em voz normal. — Se Daiquiri não é apenas o recipiente, mas também o que está impedindo Azoth de recuperar o que perdeu, significa que ele não quer simplesmente entrar no corpo dele e assumir o controle, ele quer recuperar a própria forma de séculos atrás, certo?

— Exatamente — Edran assentiu, João deu um grande sorriso e olhou para sua irmã buscando reconhecimento pela sua fala inteligente, mas Marina estava olhando para o livro e nem o percebeu.

Marina foi a primeira a perceber a consequência daquele explicação, Daiquiri não era apenas um receptáculo, ele era o próprio corpo de Azoth.

— E se Azoth me encontrar... — Daiquiri baixou os olhos.

— Ele não vai apenas possuir seu corpo — Edran o encarou sem desviar o olhar. — Ele vai recuperar sua forma física, e, depois disso, nada garante que exista qualquer coisa capaz de detê-lo, o único que talvez conseguisse, está morto agora.

João respirou fundo, pela primeira, não havia nenhuma piada pronta para aquela situação, ele apenas tocou o ombro de Daiquiri e disse: — Então precisamos apenas impedir que ele chegue perto de você.

— E como fazemos isso? — Alexander guardou a espada e apoiou uma das mãos sobre o cabo.

— Descobrindo como separar a essência dele do corpo do Daiquiri — Marina fechou o livro e viu Edran balançar a cabeça negativamente. — Eu sei que ninguém conseguiu fazer isso durante o Século Branco, mas nós seremos os primeiro!

— Não é simples, garota — respondeu o velho.

— Eu sei que não! — ela gritou. — Eu sei que não... Nada é simples, na verdade, talvez seja uma das coisas mais difíceis que já tentamos fazer como equipe, mas ficar sentado aqui com medo não vai mudar nada... Ainda não sabemos como funciona essa conexão, nem o quanto dela está integrada ao corpo do Daiquiri e também não sabemos se a separação precisa necessariamente destruí-lo. Enquanto existirem perguntas sem respostas, existe alguma coisa que possamos fazer para encontrar a resposta — Marina olhou para o grupo e deu um pequeno sorriso. — Eu estou tão desesperada quanto vocês, mas não vejo utilidade em demonstrar desespero antes de termos um motivo para desistir.

— E é exatamente por isso que a mamãe diz que você é a mais inteligente — João sorriu e olhou para Daiquiri. — Eu meio que já sabia tudo isso aí que ela falou, mas eu queria deixar ela descobrir sozinha, sabe como é né? Coisa de irmão.

Daiquiri riu, foi uma risada curta, mas verdadeira, e durante alguns minutos a pequena câmara subterrânea pareceu quase normal. Eles continuavam sendo quatro pessoas tentando entender uma situação que nenhum deles havia pedido para enfrentar, quatro pessoas que tinham começado aquela viagem pensando apenas em atravessar uma estrada, proteger uma caravana e receber o dinheiro no final. Agora estavam escondidos sob uma cidade em ruínas, carregando um livro proibido, uma pedra ligada a uma entidade antiga e a responsabilidade de impedir eu uma criatura que havia sobrevivido por séculos recuperasse aquilo que lhe faltava.

A normalidade havia desaparecido fazia algum tempo, e todos sabiam disso, mas ainda conseguiam encontrar pequenos momentos em que pareciam apenas amigos, foi então que o chão tremeu.

A pedra acima deles soltou poeira e uma pequena rachadura apareceu na parede, Edran se levantou imediatamente.

— Azoth... Azoth está se movendo.

Outra vibração atravessou a câmara, mais forte que a anterior, dessa vez, Daiquiri fechou os olhos e sentiu aquela presença novamente. Ela não parecia distante, nem acima deles, parecia estar exatamente ao seu lado, como uma voz sussurrada junto ao ouvido: "Porfiam em ocultar-vos de minha vista. Todavia, não o lograrão..."

Ele abriu os olhos.

— Ele sabe onde estamos — disse sem demora.

— Então vamos sair antes que ele chegue — Alexander puxou a espada imediatamente.

Edran começou a recolher suas anotações enquanto Marina prendia a bolsa ao corpo e João pegava seu arco. Daiquiri ainda permaneceu parado por alguns segundos, tentando compreender aquela voz, quando uma sensação completamente diferente atravessou a sua mente, não era a presença de Azoth, era uma lembrança que não parecia pertencer ao presente.

Por um instante, ele viu um campo coberto pela luz do fim da tarde. Duas crianças corriam entre a grama, uma mais velha tentando alcançar a outra enquanto as duas riam. Ao fundo, um homem chamava pelos dois, primeiro de maneira paciente, depois com uma urgência que não combinava com uma brincadeira comum, então a imagem desapareceu, deixando apenas o silêncio. Daiquiri abriu os olhos com uma expressão confusa e os olhos marejados.

— Daiquiri? — chamou Marina, aproximando-se dele. — O que aconteceu?

— Eu vi... — Ele demorou alguns segundos antes de responder. — Eu vi meu irmão, eu vi o Polaris... Eu não sei por quê, eu não lembrava dessa momento antes.

— Talvez Azoth estava despertando memórias que não pertencem apenas a você. — O velho sustentou seu olhar por alguns segundos. — Significa que talvez você esteja começando a lembrar de coisas que seu pai passou a vida inteira tentando fazer você esquecer. A essência não está apenas reagindo a Azoth, ela esteve dentro de você por muito tempo, e talvez certas memórias tenhas sido enterradas junto dela.

Daiquiri olhou pro chão, pela primeira vez, o nome de Polaris não pareceu apenas o nome de alguém que havia morrido. Parecia uma porta que começava a se abrir, e atrás dela havia uma parte inteira da vida de Ezekiel que ninguém ainda havia contado.

Os quatro deixaram a câmara e começaram a a caminhar novamente pelo túnel. Marina manteve a bolsa presa junto ao corpo, protegendo a pequena caixa que agora carregava, enquanto Daiquiri seguia alguns passos atrás, tentando compreender a lembrança que acabara de receber. Muito acima deles, alguma coisa continuava se movendo sob as montanhas, a presença de Azoth se espalhava lentamente pelo mundo, procurando o fragmento de sua própria essência que permanecia escondido dentro de um garoto que ainda não compreendia a extensão do destino que carregava, mas Azoth sabia exatamente onde procurar.

Thoughts

  • EsquinaDaLeitura

    Égua, o João largando a espada no chão só com o olhar do Alexander. Se esse menino morrer eu paro de ler, já aviso.

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  • tintaDeTerca

    A cena da praça mexeu mais comigo que a coluna negra no céu. A mulher segurando a mão do soldado, as crianças sendo levadas pra dentro, e o Daiquiri tendo que desviar o olhar de uma criança chorando porque o Alexander puxou ele dali.

    O Alexander tem razão e mesmo assim fiquei com raiva dele o resto do capítulo. Aposto que essa criança ainda volta na cabeça do Daiquiri.

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  • Ovid

    O João ficando sem nenhuma piada pela primeira vez, justo quando o Edran explica que o Daiquiri é o pedaço que falta do Azoth, me fez pensar que o humor dele virou a régua do perigo no grupo. Aposto que daqui pra frente a gente vai medir o tamanho da ameaça pelo silêncio dele. Obrigado por seguir com a série, dá gosto acompanhar.

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  • soleioanoite

    Aquela memória do campo no fim da tarde, dois meninos rindo e um homem chamando cada vez mais aflito, pra mim é o dia em que o pai enterrou a essência no Daiquiri. E tô desconfiando que a pedrinha branca da caixa é pedaço da outra esfera, a que ficou entre os humanos. Se for isso, a bolsa da Marina vai virar a coisa mais importante da viagem.

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