Voltei atrás e continuo na dúvida: o garoto que amaldiçoou ela é o mesmo que ela espera na janela? De Yal eu já desconfio, o cara desenha o sorriso dela nas cartas e nunca perguntou nada dela por dentro.
Capítulo 01 : A coroa
Anos se passaram desde que Enaira desistiu do trono. Aras já completara dezoito anos, a coroa a aguardando - junto ao noivo escolhido dias depois de seu coração ter sido roubado.
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Voltei atrás e continuo na dúvida: o garoto que amaldiçoou ela é o mesmo que ela espera na janela? De Yal eu já desconfio, o cara desenha o sorriso dela nas cartas e nunca perguntou nada dela por dentro.
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Anos se passaram desde que Enaira desistiu do trono. Aras já completara dezoito anos, a coroa a aguardando - junto ao noivo escolhido dias depois de seu coração ter sido roubado.
Ela passava horas olhando da janela de seu quarto para o labirinto que antes fora seu refúgio. Pensava em seu antigo amor, atual algoz, que desaparecera e, até então, não retornara.
Não entendia por que ainda esperava por ele; talvez fosse sua boba fé, torcendo que devolvesse a ela a capacidade de amar. Todas as noites dizia aos pais que os amava, tentando sentir algo - queria que aquele calor no peito voltasse.
Mas não havia nada. Seu interior estava vazio; seu coração apenas bombeava sangue, e seu cérebro agora era inútil diante de hormônios que pudessem despertar amor, paixão, atração ou afeição.
Ela havia lido todos os livros sobre aquela maldição e, algumas vezes, pensou em pedir ajuda aos pais ou aos magos do castelo. Passou por sua mente buscar uma bruxa, feiticeira ou curandeira, na esperança de aliviar aquele vazio.
Porém, era impossível negar que a maldição também poderia ser uma bênção. Se aquele destino fosse inevitável, talvez fosse melhor não ter escolhas. Poderia, quem sabe, tornar o ato matrimonial menos desconfortável, se houvesse ao menos uma faísca de atração.
Ainda assim, a única maneira de amenizar a maldição era praticamente impossível. Alguém precisaria entregar o próprio coração, de forma literal - amar Aras, desejá-la, sentir afeição por ela. Essa pessoa deveria saber que o sentimento não seria correspondido e, mesmo assim, não sentir raiva, ódio, mágoa ou tristeza.
O mais cruel: Aras não poderia pedir, impedir ou consentir. A escolha teria que ser inteiramente da outra pessoa, feita de livre e espontânea vontade, enquanto a princesa estivesse inconsciente ou fora de si, incapaz de interferir.
Jamais seria capaz de acreditar que alguém pudesse realmente fazer isso, em especial seu atual noivo.
Yal era o príncipe herdeiro de um reino há muito inimigo. Um acordo foi fechado entre o imperador e o pai de Yal. O casamento deles já era certo antes mesmo de Aras também herdar o trono. A diferença de cinco anos, no início, parecia um abismo - mas agora? Tudo parecia se encaixar.
Ela não o amava, e ele muito menos, porém havia atração da parte dele. Isso sempre fora deixado explícito nas cartas que ele enviava.
Haviam se visto muito tempo atrás, e ele continuava a elogiá-la, fazendo desenhos de seus olhos, lábios e cachos. O traço que mais recebia destaque - e que Yal mais admirava - era o sorriso de dentes levemente separados da princesa.
Os caninos também ganhavam atenção, assim como a pequena covinha no lado direito da bochecha.
Aras se esforçava nas cartas para aparentar algum interesse pelo príncipe. Infelizmente, tudo soava apenas como agrado, e não como verdadeira apreciação.
Ele era bonito. Bom, segundo suas damas de companhia, Yal era quase celestial. Os cabelos loiros ondulados até os ombros, a pele que brilhava ao sol, e os olhos verdes como esmeraldas, que dependendo da luz lembravam um verde musgo cintilante.
Até as empregadas suspiravam e cochichavam sobre seu porte de guerreiro: alto, imponente, e ainda assim gentil com crianças e animais.
Tudo isso poderia ser verdade, e se fosse, claro que ela ficaria agradecida. Porém, Aras seguia incapaz de se atrair por ele.
Nem mesmo sua personalidade a cativara. Não era culpa dele; pelas cartas, era evidente seu esforço para ser agradável, seus interesses eram... interessantes. Ele a tratava com respeito intelectual, sem subestimá-la. Não elogiava nada além da aparência, algo que a princesa relevava. Afinal, quem era ela para exigir que alguém se interessasse de verdade por sua pessoa?
Aras estudava o máximo possível sobre relacionamentos. Tanto em livros sérios quanto em romances e fantasias. Também não poupava esforços ao observar todos ao seu redor, escondendo-se para descobrir coisas inadequadas para uma nobre dama como ela.
Isso a divertia, mesmo que seguisse sem de fato desejar nada daquilo. Havia curiosidade, mas não aquela chama de experimentar, sentir na pele, vivenciar cenas, situações ou momentos íntimos.
Ela escrevia cartas para si mesma, narrando o que presenciava e tentando supor como deveria ser o sentimento em determinados momentos. Escondia tudo, mesmo sabendo que provavelmente uma das várias empregadas já tinha conhecimento de seu segredo.
Sentia certo alívio ao perceber que essa empregada aparentemente não dava importância a assuntos libidinosos - e que, para ela, eram completamente vergonhosos. Aras já se perdia em divagações sobre sua própria capacidade de sentir prazer. Chegara ao ponto de testar a si mesma em segredo, como algumas jovens do castelo faziam discretamente.
Foi assim que descobriu: sim, era capaz de sentir prazer - e, aparentemente, de forma insaciável. Mas sua condição dificultava tudo. Sem atração por ninguém, alcançar o prazer tornava-se mais complicado, exigindo dela ainda mais esforço e paciência que aparentemente a normalidade.
Isso a irritava profundamente. Rezava, de maneira quase irônica, que Yal fosse pelo menos bom naquilo, como tantas fofocas e piadas sussurradas pelos habitantes do palácio sugeriam sobre outros casais.
Então era isso. Aras olhou ao redor de seu quarto: tudo havia mudado, e no dia seguinte ela iria andar até o altar.
Finalmente cumpriria seu papel. Quem sabe assim tudo daria certo. Quem sabe, enfim, sentiria alguma satisfação.
A noite caiu, e o dia raiou. Logo cedo, já a preparavam para o momento tão aguardado.
Seus cabelos foram presos em um coque alto, apenas algumas mechas soltas emoldurando seu rosto oval. Suas damas de companhia destacaram seus olhos castanhos acizentados, e seus lábios receberam um toque adocicado de mel e morango.
O véu foi ajeitado com cuidado, o tecido feito de uma renda extremamente delicada. O vestido era simplesmente sublime: a seda suave contracenava bem com as anáguas, e o corpete era tão apertado que a noiva quase não poderia se mover sem perigo.
Joias, sapatos, luxo - o melhor que seus pais poderiam lhe oferecer.
Ainda assim, sentia-se inadequada. Seus pensamentos deveriam estar voltados ao noivo, à decoração, à própria beleza e perspectiva de vida. Mas, no fundo, perguntava-se: seria finalmente o dia em que aquele garoto que a amaldiçoara reapareceria?
E se ele aparecesse, devolveria sua capacidade de amar ou traria algo ainda pior?
Thoughts
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PermalinkVoltei atrás e continuo na dúvida: o garoto que amaldiçoou ela é o mesmo que ela espera na janela? De Yal eu já desconfio, o cara desenha o sorriso dela nas cartas e nunca perguntou nada dela por dentro.
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PermalinkVou na segunda noite disto e passei das três páginas por causa do labirinto que ela olha da janela. Gostei muito dessa parte.
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PermalinkA condição da maldição é cruel de um jeito que eu não vi vir: alguém precisa entregar o coração enquanto ela está fora de si, sem poder pedir nem impedir. Tirou dela a escolha e ainda assim a culpa vai sobrar pra ela. Obrigado por trazer isso pra cá, já quero o capítulo 2!
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PermalinkFiquei presa nessa regra de que ela não pode pedir, nem impedir, nem consentir. É a coisa mais dura do capítulo, porque tira dela até o direito de querer. E ela escrevendo carta pra si mesma, supondo como devia ser o sentimento, isso eu conheço de gente sem maldição nenhuma, que passa a vida imitando o que os outros sentem pra não ficar de fora.
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