Sentado nessa varanda, assisto às nuvens cinzentas se condensarem ainda mais.
Sinto o cheiro da chuva reacendendo aquela velha sensação dolorosa.
Que saudade de casa.
Que saudade do meu lar.
Sinto a tristeza me consumir e me afundar alguns graus a mais do que ela já costuma fazer. A sensação angustiante sobe pela minha garganta e parece apertar meus pulmões. Não consigo respirar direito, como se, por alguns instantes, meu corpo tivesse esquecido como fazer aquilo que deveria saber fazer sozinho.
Respirar assim dói.
E então penso em como seria confortável estar dentro da água. Não como em uma banheira ou em uma piscina. Penso nas águas profundas de um rio. Ou, melhor ainda, no azul escuro do oceano.
Talvez seja estranho chamar isso de conforto, mas existe alguma coisa na ideia de ser completamente envolvido pela água que parece descansar uma parte de mim. Como se, por alguns instantes, eu pudesse deixar de sustentar o peso do próprio corpo. Deixar de sustentar a mim mesmo.
Quero desaparecer ali. Quero morrer afogado.
Quero sentir a água me envolvendo por todos os lugares, apagando aos poucos a distância entre meu corpo e o mundo. Quero sentir a água me segurando gentilmente, invadindo minhas narinas. Descendo por minha laringe, esôfago e enfim preenchendo os pulmões.
Quero sentir a confusão dos meus órgãos não entendendo nada do que está acontecendo.
Quero descer até onde o azul começa a perder a própria cor, onde já não existe horizonte, superfície ou direção.
Meus braços e minhas pernas deixam de importar. Meu nome deixa de importar. Tudo aquilo que me prende a quem eu fui começa a ficar distante.
E, por fim, até minhas cicatrizes do pescoço parecem pertencer a outra coisa, como se fossem marcas de uma criatura que tentou respirar em um lugar onde nunca soube existir. Minhas velhas guelras adormecidas.
Então quero apenas descer.
Mais e mais.
Observar o azul se tornar escuro.
Mais escuro.
Até que já não exista azul algum.
Até que reste apenas a escuridão.