O perito chefe Dr.Carvalho,chega acompanhado de um técnico.Carregando duas maletas visualmente pesadas,nas quais se guardam tudo-pinças,luvas e uma chave universal mestra.O silêncio do corredor é ensurdecedor,é possível escutar as luzes amareladas piscando e o som de cada passo parece se tornar mais alto.
— Tranca velha-Murmura Carvalho ao se aproximar da porta- Tipo Yale, modelo setenta e poucos. Isso aqui abre com o sopro certo.
Os dois peritos apontam uma pequena luz em direção a trancha e começa a chavear metodicamente.Brandão observa,encostado na parece,uma gota de suor cai sobre sua testa.O sargento Lobo masca mais um filtro de cigarro,angustiado.
— Cuidado, doutor, esse quarto já deu problema — diz Elias, o dono do hotel, suando frio.
— Problema é comigo se você continuar falando, — retruca o perito sem olhar pra ele.
O cloque da fechadura soa como um tiro abafado.
A porta não abre de imediato. Carvalho empurra, mas algo parece segurá-la — não trancada, mas pesada, como se o ar lá dentro tivesse densidade própria. Ele força mais uma vez. Um estalo seco.
Um fio de sangue escorre novamente, renovado, como se o quarto respirasse.
— Segura a respiração, — diz Carvalho.
Ele empurra devagar. A fresta se abre. O cheiro sai primeiro — ferro, mofo, e algo adocicado. Augusto reconhece na hora: o cheiro de corpo.
O corredor inteiro parece recuar.
Lobo segura o lenço no nariz.
Elias dá um passo pra trás.
Carvalho empurra a porta com a luva coberta de suor.
A luz do corredor entra e revela… uma sombra pendendo do teto. Mas ninguém ainda entra. O perito para, engole seco e diz:
— Tragam a lanterna maior. Ninguém encosta em nada ainda.
O técnico se aproxima de Carvalho com uma lanterna Wester em uma das mãos e sacos de evidência na outra. Augusto entrou primeiro, o olhar atento, os músculos tensos. O sargento Lobo seguia logo atrás, o maxilar travado, olhos semicerrados. Carvalho, o perito experiente, com seus óculos encardidos e lanterna em sua mão esquerda , avançava com
cautela, enquanto Marquinhos, seu assistente jovem e nervoso, segurava o kit de perícia como se fosse a última âncora da realidade.
— Ninguém encosta em nada ainda — avisou Carvalho, a voz firme, mas sem conseguir disfarçar a tensão que carregava. — Cada detalhe importa.
O silêncio era absoluto. Até a própria respiração soava invasiva, e Augusto sentiu cada passo reverberando no corredor, ecoando pelas paredes envelhecidas. As sombras dançavam, ampliando o medo que ele tentava conter, e a sensação de que o quarto 203 não era apenas um espaço físico, mas uma presença, um ente que os observava, ficava cada vez mais intensa.
Quando alcançaram a porta, Brandão percebeu a textura da madeira envelhecida, marcada por anos de desgaste e pequenas manchas que o sangue recente destacava de forma grotesca. Um cheiro adocicado misturado a ferro escapou, atingindo Augusto de forma quase física, provocando um arrepio que subiu pela espinha.
O quarto estava abafado, quente, carregado de uma densidade quase tangível. A luz do corredor se misturava à penumbra interna, criando um contraste que transformava cada objeto em algo suspeito, vivo, atento. No centro, sobre a cama antiga, jazia Lívia Andrade. O corpo estava disposto de maneira ritualística: flores murchas espalhadas pelo chão, uma fita vermelha enrolando suavemente o pulso, um rádio antigo chiando baixo, criando uma cadência quase hipnótica.
Augusto sentiu o peito apertar. Detalhes impossíveis se insinuavam: a posição do pescoço, o alinhamento dos braços, o ar de que algo havia sido calculado para provocar impacto psicológico. Ele sabia, naquele instante, que sua mente poderia estar brincando com ele, que algumas percepções poderiam ser fruto de uma alucinação desencadeada pelo horror.
— Caralho… — murmurou Lobo, a voz baixa, quase um sussurro. — Isso aqui não tá certo.
Carvalho aproximou-se, tentando manter a postura profissional, mas o desconforto era visível. Marquinhos segurava a lanterna com as mãos trêmulas, a luz saltando de sombra em sombra. Augusto avançou mais um passo, observando o corpo e o quarto, tentando discernir o real do imaginário, mas cada detalhe parecia amplificar a sensação de que o hotel estava vivo e consciente.
O chiado do rádio, o rangido do piso, o cheiro metálico misturado ao adocicado das flores, tudo conspirava para criar uma atmosfera sufocante. Augusto notou a fita vermelha pulsando levemente, um detalhe que ninguém mais parecia perceber. Seu coração acelerou, cada batida ecoando pelo quarto, amplificada pela tensão que preenchia o ar.
Ele recuou, sentindo que o quarto 203 respirava junto deles, que cada sombra e cada cheiro faziam parte de um plano maior, quase ritualístico. A percepção de Augusto estava turva, mas o impacto visual e psicológico era inegável. O quarto não era apenas um local de morte, mas uma armadilha para a mente, que brincava com os limites da realidade e do medo.
O ar dentro do quarto parecia pesado, quase líquido. Cada respiração de Augusto era difícil, carregando o cheiro de ferro, mofo e flores murchas. O chiado intermitente do rádio parecia se misturar aos batimentos de seu coração, criando uma sinfonia de ansiedade que preenchia cada canto do quarto. Lobo observava o corpo com olhos semicerrados, quase hipnotizado pela composição ritualística. Carvalho e Marquinhos estudavam cada detalhe, ajustando luzes e ângulos de observação, mas Augusto não conseguia tirar os olhos de um pequeno detalhe que lhe parecia impossível: a fita vermelha em torno do pulso de Lívia parecia pulsar com ele, como se respondesse à sua própria respiração.
— Isso não é normal — murmurou Augusto, quase para si mesmo. — Não deveria parecer… vivo.
Lobo desviou o olhar, incômodo, e engoliu seco. A tensão no ar era palpável. Marquinhos tremia ao segurar a lanterna, e cada movimento de luz sobre o corpo projetava sombras que pareciam se mover por conta própria. Carvalho suspirou e tentou quebrar o clima, apontando para pequenas manchas de sangue espalhadas pelo chão e rodapé:
— A análise preliminar indica que o sangue escorreu de forma lenta, mas controlada. Não há sinais de luta aqui, apenas um arranjo cuidadoso. — Sua voz firme parecia não convencer a si mesmo.
Augusto avançou um passo, sentindo o quarto apertar ao redor. Cada detalhe do ambiente parecia amplificado: o rangido do piso, o chiado do rádio, o leve tilintar de alguma peça de metal que ele não conseguia identificar. Ele percebeu que a posição do corpo não era apenas ritualística, mas quase artística. As flores murchas, o modo como o braço estava dobrado, o pescoço ligeiramente inclinado — tudo parecia calculado para provocar impacto psicológico.
— Tem algo de errado — murmurou Augusto, agora mais alto, sentindo o peso da sala sobre ele. — Algo que ninguém mais percebe.
Marquinhos olhou para ele, assustado:
— O que você quer dizer, Brandão?
— Olhe para o pulso dela — disse Augusto, apontando para a fita vermelha. — Ela… parece respirar.
O silêncio tomou conta novamente. Lobo engoliu seco, desviando o olhar, mas Carvalho franziu a testa, tentando se concentrar em fatos concretos.
— Não há circulação aqui — disse o perito. — O pulso é estático. Qualquer sensação de movimento é psicológica.
Augusto fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Ele sabia que estava sendo afetado pelo cenário, mas a sensação era tão real que não podia ignorar. Um arrepio percorreu sua espinha, e ele abriu os olhos para ver a fita vibrando levemente, como se estivesse sincronizada com sua própria respiração.
O quarto parecia respirar junto com ele. Cada sombra parecia ter vida própria, cada chiado do rádio parecia murmurar palavras que Augusto não conseguia decifrar. O cheiro de ferro e flores murchas se misturava, criando uma sensação quase hipnótica. Ele sentiu vontade de recuar, mas o corpo de Lívia continuava a chamar sua atenção, forçando-o a encarar a cena.
— Precisamos documentar tudo — disse Carvalho, tentando manter a compostura, embora seu rosto mostrasse desconforto. — Cada detalhe, cada objeto, cada mancha de sangue.
Enquanto os peritos avançavam, Augusto percebeu algo ainda mais perturbador: as sombras projetadas pelas lâmpadas não coincidiam com os objetos que as criavam. Era como se o quarto tivesse dimensões próprias, distorcendo a percepção. Ele deu um passo para trás, sentindo a pressão do ar e o peso do quarto sobre ele, mas não conseguia desviar o olhar do detalhe impossível: a fita pulsando.
O rádio chiava em intervalos irregulares, cada interrupção parecia um suspiro do próprio hotel. Lobo tossiu baixinho, olhando para Augusto, compartilhando sem palavras a sensação de que algo estava errado. Marquinhos tentou registrar tudo em fotos, mas a luz das lanternas não conseguia capturar as nuances do ambiente. O quarto parecia brincar com a percepção deles, fazendo cada detalhe parecer maior, mais profundo, mais intenso.
O detetive percebeu que não era apenas a visão ou o cheiro — era uma sensação completa, uma percepção ampliada que se infiltrava em todos os sentidos. O quarto 203 não era apenas um local de morte, mas um espaço que moldava a realidade ao redor, uma presença quase consciente que testava os limites de sua mente. Cada movimento, cada som, cada detalhe visual reforçava a sensação de ritual, de que o corpo de Lívia não estava ali apenas morto, mas como parte de um cenário criado para mexer com quem o observava. O quarto parecia um organismo vivo, pulsando com a respiração de Augusto. Cada sombra se movia com intenção própria, cada som reverberava nos ossos, ampliando o peso da atmosfera. O cheiro metálico misturado ao adocicado das flores murchas enchia o ar, quase saturando os sentidos. O chiado do rádio antigo ecoava irregularmente, lembrando a Augusto o ritmo de um coração que não pertencia a ninguém ali.
— Que inferno… — murmurou Lobo, mais para si do que para qualquer um, as mãos nos bolsos, tremendo levemente.
Carvalho e Marquinhos anotavam detalhes, tentando manter a compostura, mas a tensão era inegável. Cada movimento de luz das lanternas criava padrões estranhos nas paredes, ampliando a sensação de que o quarto tinha vida própria. Augusto avançou mais um passo, fixando o olhar na fita vermelha no pulso de Lívia. O leve pulsar que só ele parecia perceber continuava, sincronizado com sua própria respiração.
Ele engoliu seco, o coração batendo rápido. A fita parecia irradiar uma energia quase tangível, e cada segundo parecia alongar o tempo, tornando a percepção de Augusto mais intensa e desconcertante. Ele sabia que aquilo não era real, e mesmo assim, sentia medo — medo do que poderia ser verdade, medo do que poderia estar apenas em sua mente.
— Brandão, cuidado — disse Carvalho, percebendo a tensão no rosto do investigador. — Não se deixe levar pela percepção… estamos aqui para fatos.
Augusto desviou o olhar, mas não conseguia ignorar o quarto. Cada detalhe parecia preparado para confundir, manipular. O corpo de Lívia estava perfeitamente posicionado, mas o arranjo das flores, o rádio chiando, e até a disposição dos móveis criavam uma sensação de ritual macabro, que apenas intensificava a alucinação dele.
Ele se aproximou mais, sentindo o chão sob os pés tremer levemente, embora não houvesse movimento. Um frio percorreu sua espinha, e ele percebeu algo impossível: a sombra projetada pelo braço de Lívia se movia de forma independente, alongando-se pelo quarto, insinuando figuras que não existiam.
— Eu… eu não sei se isso é real — sussurrou Augusto, a voz quase quebrando. — Algo aqui não bate.
Marquinhos segurou a lanterna com força, tentando iluminar cada canto. Carvalho examinava o corpo, mas seus olhos traíam desconforto. Lobo apenas observava em silêncio, sentindo o mesmo peso psicológico que Augusto carregava, mas sem ter coragem de expressar.
De repente, o chiado do rádio se intensificou, quase como se tivesse reconhecido a presença de Augusto. Ele deu um passo para trás, engolindo seco. A fita vermelha no pulso de Lívia pulsava com mais força, sincronizada com o seu próprio medo. O quarto parecia expandir-se e contrair-se, respirando com uma cadência impossível.
Brandão sentiu que o mundo real se dissolvia por um instante; o quarto era um espaço fora do tempo, onde a morte e o ritual se misturavam à percepção distorcida. Cada detalhe ritualístico que ele via era amplificado pela mente, mas tão convincente que parecia tangível, cruelmente tangível.
— Já chega… — murmurou Lobo, afastando-se, respirando pesado. — Não sei se aguento mais aqui.
Carvalho assentiu, tentando acalmar os ânimos, enquanto Marquinhos mantinha a lanterna firme. Augusto, porém, não conseguia desviar o olhar do detalhe impossível: a fita pulsando no pulso de Lívia, uma lembrança de que, mesmo sem perceberem, o quarto 203 exercia influência sobre a mente deles.
Ele engoliu seco e fechou os olhos por um instante, tentando reconectar-se com a realidade. Quando abriu novamente, notou algo que ninguém mais parecia perceber: pequenas marcas no chão formavam um padrão geométrico quase imperceptível, levando até um canto escuro do quarto. A percepção de Augusto dizia-lhe que ali havia algo mais, algo que ainda não tinham descoberto.
O chiado do rádio cessou por um instante, e o silêncio absoluto tomou conta do quarto. Cada um dos presentes ficou imóvel, absorvendo o peso do momento, ciente de que o mistério estava longe de ser resolvido. O quarto parecia observar, esperando, guardando seus segredos, testando a resistência de quem ousava entrar.