Cheguei antes do horário.
Talvez cedo demais.
Disse a mim mesmo que era porque meu treino havia terminado.
Mas eu sabia que não era apenas isso.
Eu queria estar ali quando ela chegasse.
Quando ela entrou na academia, meu coração acelerou.
Ela não percebeu.
Ou pelo menos fingiu não perceber.
Observei enquanto ela guardava suas coisas e começava a se preparar para o treino.
Por um instante, voltei aos dezessete anos.
Mas rapidamente me lembrei:
Ela não é mais aquela menina.
E eu também não era mais aquele garoto.
Quando me aproximei, disse que já havia terminado meu treino e que voltaria para buscá-la.
Ela apenas assentiu.
Parecia nervosa.
Eu também estava.
Saí.
Durante aquela hora, tentei não pensar demais.
Mas pensei.
Pensei no que diria.
Pensei no que ela poderia perguntar.
Pensei no que eu deveria explicar.
Quando voltei, fiquei esperando.
Até que ela apareceu.
E naquele momento tudo ficou estranho.
Eu conhecia aquele rosto.
Mas não daquela maneira.
Havia alguma coisa nela que me fazia perceber quanto tempo havia passado.
Ela estava mais madura.
Mais segura.
E, ainda assim, havia pequenos gestos que me lembravam daquela garota de anos atrás.
Ela desceu as escadas.
Eu a vi ajeitando o cabelo.
No último degrau, ela se desequilibrou.
Instintivamente, segurei-a.
Foi rápido.
Mas aquele pequeno acidente acabou quebrando toda a tensão.
Ela brincou sobre continuar estabanada.
Eu ri.
Era familiar.
Era como se quinze anos tivessem desaparecido por alguns segundos.
Mas não tinham.
Eles estavam ali.
Entre nós.
Entramos no carro.
Perguntei para onde ela queria ir.
Eu poderia ter escolhido.
Mas não queria.
Durante muito tempo, nossas decisões haviam sido influenciadas por coisas que nenhum dos dois sabia dizer em voz alta.
Naquela noite, eu queria ouvir o que ela queria.
Ela escolheu o parque.
Seguimos.
O silêncio dentro do carro era diferente.
Não era desconfortável.
Era cheio de lembranças.
Perguntei se ela ainda gostava de sertanejo.
Quando ela me olhou surpresa, percebi que ela não esperava que eu lembrasse.
Mas eu lembrava.
Eu lembrava de pequenas coisas.
Mais do que ela provavelmente imaginava.
Coloquei uma música.
E continuei dirigindo.
Por fora, parecia tranquilo.
Por dentro, eu estava tentando entender como aquela mulher diante de mim ainda conseguia despertar lembranças que eu acreditava ter deixado para trás.