sexta-feira, setembro 25, 2026
ATÉ QUANDO ?
Eu, como tantos nascidos na década de 1950, cresci num tempo em que uma expressão parecia resumir boa parte do nosso espírito político:
“Hay gobierno, soy contra.”
Havia governo? Éramos contra.
O governante de plantão, fosse quem fosse, já despertava em nós certa desconfiança. Talvez porque acreditássemos que uma das funções do cidadão fosse justamente desconfiar do poder.
Mas é preciso dizer que nem todos caminhávamos pela mesma calçada.
De um lado estavam aqueles que defendiam a preservação dos costumes e valores comuns à época. Do outro, os que desejavam uma nova ordem e acreditavam que, para alcançá-la, seria necessário conquistar o poder — primeiro pelas armas; depois, pela militância, pela política e pela ocupação dos espaços de influência.
O tempo passou.
As armas foram sendo substituídas pelas palavras, pelas instituições, pelas narrativas e pela disputa das consciências.
E, durante muitos anos, nós, saudosistas daquela irreverência política, ainda podíamos repetir:
“Hay gobierno, soy contra.”
Podíamos.
Hoje, entretanto, em tempos alexandrianos — e não estou falando daqueles vividos na Grécia Antiga —, começo a desconfiar de que a velha expressão perdeu a validade.
Ou, quem sabe, tenha apenas mudado de lado.
O poder parece ter aprendido uma arte que os antigos conheciam muito bem: adversários de ontem podem descobrir inesperadas afinidades quando chegam perto demais das cadeiras que pretendiam combater.
E então aparecem em cena os Huguevarianos, os Craques do Jogo, os Sapos Barbudos e tantos outros personagens desse imenso teatro chamado política brasileira.
Mudam os atores.
Mudam as falas.
Mudam as alianças.
E o cidadão, sentado na plateia, tenta descobrir se ainda está assistindo à mesma peça.
Talvez por isso aquela velha máxima:
“Hay gobierno, soy contra”
tenha encontrado, na minha provocação de cronista, uma versão mais adequada aos nossos tempos:
“¿Hay corrupción? ¡Yo apoyo!”
Não como confissão de quem apoia a corrupção, evidentemente, mas como ironia diante da facilidade com que aquilo que ontem provocava indignação pode, dependendo de quem esteja no poder, encontrar silêncio, justificativa ou conveniência.
Foi então que me lembrei de Cícero.
Não o poeta santista.
O outro.
O cônsul romano que, diante de Catilina, lançou uma pergunta que atravessaria mais de dois mil anos:
“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”
Dois milênios depois, sentado nesta imensa arquibancada chamada Brasil, tomo emprestada a estrutura da pergunta.
Olho para Brasília.
Olho para os poderes.
Olho para nós mesmos.
E pergunto:
Até quando?