O Silêncio do Luto
Eu já conhecia o luto.
Conhecia a ausência deixada pela morte do meu pai. Conhecia o vazio que minha avó havia deixado quando partiu. Mas havia uma diferença entre aquelas perdas e tudo o que viria depois: naquela época, eu ainda tinha minha mãe.
Ela estava ali.
Era o meu colo quando eu não entendia a saudade. Era quem me ajudava a atravessar os dias em que a casa parecia silenciosa demais. Eu podia chorar perto dela. Podia sentir medo. Podia simplesmente ser filha.
Mas entre 2020 e o final de 2021, eu descobri que algumas perdas não chegam sozinhas.
Elas vêm umas depois das outras, como se a vida não desse tempo para o coração entender a primeira antes de apresentar a próxima.
E eu comecei a ter medo de me apegar a qualquer coisa, porque tudo aquilo que eu amava parecia encontrar uma maneira de ir embora.
Foi nesse período que eu vi alguém com quem eu havia me relacionado morrer diante dos meus olhos.
Ainda é difícil colocar em palavras o que aquilo fez dentro de mim.
A morte deixou de ser uma notícia distante. Ela ganhou rosto, presença, silêncio.
Eu precisei lidar com aquela imagem dentro de mim enquanto tentava continuar vivendo normalmente.
E foi justamente naquele momento que minha melhor amiga se tornou ainda mais importante.
Ela não era apenas minha amiga.
Ela tinha sido uma parte bonita da minha adolescência.
Era uma daquelas pessoas que entram na nossa vida e, sem perceber, ajudam a construir quem vamos ser. Com ela, eu ria até perder o fôlego. Chorava sem precisar explicar demais. Contava coisas que não conseguia contar para outras pessoas.
Ela acreditava em mim nos dias em que eu mesma não conseguia.
Fazia a minha adolescência parecer mais leve.
Quando eu estava triste, ela sabia encontrar alguma maneira de me arrancar um sorriso. Quando eu duvidava de mim, ela me lembrava de quem eu era. E quando aquele homem morreu, foi ela quem esteve perto de mim.
Ela me ajudou a atravessar uma dor que eu achava que não conseguiria suportar.
Por isso, quando recebi a notícia de que ela também havia morrido, alguma coisa dentro de mim se rompeu de uma maneira diferente.
Naquela manhã, nós ainda tínhamos trocado mensagens.
Era uma conversa comum.
Daquelas que a gente jamais imagina que será uma das últimas.
Eu não sabia que estava falando com ela pela última vez.
Não sabia que aquelas mensagens seriam, algum dia, lembranças.
E talvez seja isso que mais assuste na morte: ela não avisa quando transforma um momento comum em memória.
Pouco tempo depois, eu estava diante da realidade de que precisava enterrá-la.
Eu já havia chorado a morte de alguém que havia feito parte da minha história.
Agora precisava aprender a viver sem a pessoa que tinha me ajudado a atravessar aquela primeira perda.
Era como perder o lugar onde eu costumava descansar da dor.
E eu me perguntava:
Quem cuidaria de mim agora?
Eu ainda tinha minha mãe.
Mas, naquele período, ela também começava a precisar de mim.
Minha mãe perdeu a visão.
E aquilo mudou completamente a nossa rotina.
A mulher que durante tantos anos havia sido minha segurança começou a precisar que eu fosse seus olhos em algumas situações. Eu precisava ajudá-la, acompanhá-la, estar por perto.
E eu fazia tudo o que podia.
Mas, por dentro, eu estava cansada.
Muito cansada.
Havia dias em que eu queria simplesmente encostar a cabeça no colo dela e chorar como uma criança.
Só que agora era ela quem precisava de mim.
E isso me confundia.
Porque eu amava cuidar dela, mas também sentia falta de ser cuidada.
Ela dizia que era um fardo.
E aquelas palavras me doíam profundamente.
Eu queria que ela entendesse que não era.
Que ela continuava sendo minha mãe.
Que eu não estava perto dela por obrigação.
Eu estava porque a amava.
Mas, ao mesmo tempo, havia uma parte de mim que tinha medo.
Medo de perdê-la também.
Medo de ficar sozinha.
Medo de que a vida continuasse retirando de mim as pessoas que eu amava.
Foi nessa confusão emocional que eu me envolvi com alguém.
Hoje consigo reconhecer que eu precisava de uma fuga.
Não necessariamente de alguém.
Eu precisava de um lugar onde a dor diminuísse por algumas horas.
E, durante muito tempo, quando eu estava com ele, o mundo parecia mais suportável.
Eu conseguia rir.
Conseguia esquecer.
Conseguia respirar sem sentir o peso de tudo o que estava acontecendo.
Talvez eu tenha confundido alívio com cura.
Mas naquele momento eu não sabia.
Eu só sabia que precisava de alguma coisa que me fizesse sentir que a vida ainda podia ser leve.
Enquanto eu tentava sobreviver emocionalmente, minha mãe continuava lutando.
Até que chegou dezembro de 2021.
Dia primeiro.
Minha mãe já estava passando mal havia alguns dias, mas naquela manhã parecia um pouco melhor.
Eu quis acreditar que era apenas mais um daqueles momentos que passariam.
Até que ela piorou.
Minha irmã estava trabalhando.
Eu lembro de avisá-la que estava levando nossa mãe para o hospital.
Eu não sabia que estava entrando em mais um daqueles dias que dividem uma vida em antes e depois.
No hospital, ouvi da médica que a situação era muito grave.
Eu não aceitei.
Não queria aceitar.
Dentro de mim havia uma menina desesperada dizendo:
“Não. Ela não pode ir também.”
Eu já tinha perdido meu pai.
Minha avó.
Minha amiga.
Eu não conseguia imaginar a vida sem minha mãe.
Eu queria discutir com aquela realidade.
Queria repreender aquela possibilidade.
Queria dizer que Deus não permitiria.
E, de alguma maneira, minha fé foi exatamente o que me segurou.
Minha mãe resistiu por algumas horas.
Durante aquele tempo, uma das maiores preocupações dela não era ela mesma.
Era eu e minha irmã.
Ela queria saber o que aconteceria conosco.
Nós duas estávamos trabalhando apenas com trabalhos temporários. A pessoa que sustentava nossa casa estava ali, diante de mim, preocupada com o que seria de nós se ela partisse.
Eu olhava para ela e tentava parecer forte.
Mas por dentro eu estava desmoronando.
Eu não tinha respostas.
Não sabia como seria o dia seguinte.
Não sabia como pagaríamos as contas.
Não sabia como a casa ficaria sem ela.
Não sabia nem como eu ficaria.
Mas havia uma coisa que eu podia dizer.
Segurei a mão dela e falei que Deus havia cuidado de nós até aquele momento e continuaria cuidando.
Eu não disse porque tinha todas as respostas.
Disse porque precisava acreditar.
E porque, no fundo, eu sabia que Deus ainda estava ali.
Minha mãe queria falar com minha irmã.
Eu estava sem crédito no celular, então liguei para minha prima e pedi que ela entrasse em contato com ela.
Quando minha irmã conseguiu falar com nossa mãe, ela disse para ela ficar tranquila.
Depois daquela conversa, passou mais algum tempo.
E então eu percebi que minha mãe estava partindo.
Sua respiração, que antes era pesada, foi ficando mais tranquila.
Mais leve.
Até que ela se foi.
E o mundo continuou funcionando.
Essa foi uma das coisas mais estranhas que aprendi sobre o luto.
A gente sente que o mundo deveria parar.
Mas ele não para.
As pessoas continuam andando.
Os carros continuam passando.
O sol continua nascendo.
E você está ali, tentando entender como tudo pode continuar existindo quando, dentro de você, parece que alguma coisa acabou.
Eu queria gritar.
Queria chorar.
Queria desabar.
Mas eu não podia.
Havia coisas para resolver.
Havia minha irmã.
Havia a casa.
Havia as responsabilidades.
Havia a pergunta que martelava dentro de mim:
“E agora?”
Minha mãe era a provedora da nossa casa.
E, de repente, eu precisava pensar em sobrevivência quando tudo o que eu queria era simplesmente ser filha dela mais uma vez.
Foi naquele momento que eu conheci o verdadeiro silêncio do luto.
Não era apenas o silêncio da casa sem a voz dela.
Era o silêncio dentro de mim.
Eu continuava falando.
Continuava andando.
Continuava resolvendo as coisas.
Mas alguma parte de mim parecia ter ficado parada naquele hospital.
Eu estava cansada de perder.
Cansada de ser forte.
Cansada de ouvir que tudo ficaria bem quando eu mesma não conseguia enxergar como.
Houve dias em que percebi que estava entrando em um lugar emocional muito escuro.
Eu quase me perdi dentro daquela tristeza.
Não porque eu não tivesse fé.
Mas porque ter fé não significava não sentir dor.
Eu chorava.
Sentia saudade.
Sentia medo.
Sentia uma solidão que eu não sabia explicar.
E, algumas vezes, parecia que eu estava apenas existindo.
Mas foi justamente ali, naquele lugar em que eu me sentia mais distante de tudo, que Deus permaneceu mais perto do que eu conseguia perceber.
Ele não impediu todas aquelas perdas.
Não apagou minhas lágrimas.
Não fez a saudade desaparecer.
Mas me sustentou quando minhas próprias forças já não eram suficientes.
Ele estava nos pequenos detalhes.
Na pessoa que apareceu para ajudar.
Na comida que não faltou.
Na porta que se abriu.
Na força que apareceu quando eu achava que não tinha mais nenhuma.
Na manhã em que eu consegui levantar mesmo sem vontade.
No abraço que chegou na hora certa.
Na lembrança de uma palavra que minha mãe havia dito.
Na certeza silenciosa de que eu não estava sozinha.
Dois meses depois, ainda tentando entender como viver sem minha mãe, percebi que também não tinha mais notícias daquela pessoa que, durante aquele período, havia se tornado meu escape.
Até descobrir que ele também havia falecido enquanto trabalhava.
Eu fiquei sem palavras.
Era como se a vida tivesse colocado mais uma perda diante de mim antes que eu conseguisse compreender as anteriores.
Perda atrás de perda.
Saudade atrás de saudade.
Silêncio atrás de silêncio.
Por algum tempo, eu me perguntei quantas vezes um coração poderia quebrar antes de simplesmente desistir de sentir.
Mas Deus continuava comigo.
E, olhando para trás, percebo algo que naquele momento eu não conseguia enxergar:
Eu não atravessei aquele período sozinha.
Eu atravessei com Deus.
Quando eu não conseguia orar, Ele continuava sendo Deus.
Quando eu não conseguia entender, Ele continuava cuidando.
Quando eu não conseguia enxergar um futuro, Ele já estava lá.
Quando eu achei que havia perdido tudo, Ele ainda estava segurando aquilo que restava de mim.
O luto me ensinou que existem dores que não podem ser apressadas.
Existem saudades que aprendemos a carregar, não porque deixam de doer, mas porque encontramos forças para continuar.
Eu aprendi que sentir falta não significa estar presa ao passado.
Que chorar não significa falta de fé.
Que precisar de ajuda não significa fraqueza.
E que Deus não precisa retirar a dor para provar que está presente.
Às vezes, Ele simplesmente permanece conosco dentro dela.
Foi assim que sobrevivi àqueles anos.
Não porque fui forte o tempo inteiro.
Eu não fui.
Houve momentos em que quase me perdi de mim mesma.
Mas, quando minhas forças acabaram, Deus me sustentou.
E quando eu já não conseguia enxergar saída, Ele continuou escrevendo uma história que eu ainda não conseguia compreender.
Hoje, quando penso naquele período, não vejo apenas mortes.
Vejo também a menina que continuou.
Vejo a mulher que nasceu no meio da dor.
Vejo uma fé que não deixou de existir mesmo quando eu não entendia os caminhos de Deus.
E entendo que, em meio ao silêncio mais profundo que o luto poderia produzir, havia uma voz que nunca deixou de me chamar:
“Eu ainda estou aqui.”
E Ele estava.
O tempo inteiro.