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O Silêncio da Saudade

AllyneMaia
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CAPÍTULO 1

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CAPÍTULO 1

O Silêncio da Saudade

Janeiro de 2023

Cecília tinha nove anos e ainda acreditava que os dias eram feitos para brincar.

Naquela tarde, ela corria pela varanda de casa com Valentina, sua irmãzinha de apenas três anos. As duas riam por qualquer coisa, inventavam brincadeiras, corriam de um lado para o outro e, vez ou outra, paravam apenas para recuperar o fôlego antes de começar tudo novamente.

A mãe observava as duas com um sorriso.

A tia, que morava com a família, também estava por perto.

Era uma casa cheia.

Cheia de gente, de vozes, de movimento e, principalmente, de amor.

Para Cecília, aquele era o mundo inteiro.

Até que, ao meio-dia, algo ainda melhor aconteceu.

Seu primo apareceu na rua empurrando o carrinho de sorvete.

Os olhos das duas meninas se iluminaram imediatamente.

— Sorvete! — Cecília gritou.

Valentina correu atrás dela, rindo.

As duas já sabiam que poderiam escolher o sabor que quisessem. E, para duas crianças, não havia presente maior do que aquele.

Por alguns minutos, nada existia além das duas, dos sorvetes e das risadas.

A infância cabia inteira naquele momento.

Mais tarde, quando o sol começou a baixar, as duas ouviram um barulho conhecido.

O pai estava chegando.

Cecília e Valentina correram para a porta.

Era sempre assim.

O retorno do pai era uma espécie de ritual.

Por alguns instantes, o mundo parecia parar quando elas corriam para os braços dele.

Era ali que Cecília se sentia segura.

Nos braços do pai, nada parecia grande demais. Nenhum medo conseguia alcançá-la. Ela ainda era apenas uma menina de nove anos, protegida pelo abraço daquele homem que, para ela, parecia capaz de resolver qualquer coisa.

Naquele dia, porém, depois das conversas habituais, ele contou que precisaria viajar para trabalhar.

Não havia outra solução.

Cecília ouviu em silêncio.

Ela não gostava da ideia de ficar longe do pai, mas não imaginava que precisasse ter medo. Afinal, adultos viajavam. Pais trabalhavam. E pais sempre voltavam.

Era assim que o mundo funcionava.

Pelo menos era assim que ela acreditava.

Talvez por isso não tenha dado importância às pequenas coisas.

Não tenha pensado em quanto tempo ficaria longe.

Não tenha imaginado que deveria guardar aquele abraço por mais alguns segundos.

Não tenha percebido que algumas despedidas só parecem comuns porque ainda não sabemos que são despedidas.

Para Cecília, ele iria embora.

E depois voltaria.

Como sempre.


Os dias seguintes passaram aparentemente normais.

Até que chegou o dia da despedida.

Naquela manhã, Cecília acordou e correu para ver o pai partir.

Mas, quando chegou, ele já estava distante, no meio da estrada.

Ela parou.

Por alguns segundos, apenas ficou olhando.

Seu coração apertou porque queria correr até ele, mas já não havia tempo.

Não conseguiu dar o último abraço.

Não conseguiu dizer tudo o que talvez tivesse dito se soubesse.

Então levantou a mão.

Acenou.

De longe, procurou os olhos do pai.

E encontrou.

Aquele olhar ficou guardado dentro dela.

Naquele momento, Cecília não sabia.

Não poderia saber.

Aquele seria o último olhar que receberia dele.

Ela ainda era pequena demais para compreender que algumas memórias só ganham importância depois que se tornam as últimas.

Se soubesse, talvez tivesse corrido.

Talvez tivesse gritado para ele esperar.

Talvez tivesse pedido mais um abraço.

Mas crianças não vivem pensando no último.

Elas vivem acreditando no próximo.

E Cecília acreditava que haveria outro abraço.


Os dias continuaram passando.

Até que chegou 20 de janeiro.

Cecília estava sentada no sofá, assistindo televisão.

Valentina estava na varanda da cozinha, junto da tia.

A casa seguia sua rotina.

E foi justamente isso que tornou tudo ainda mais difícil.

Porque a vida estava acontecendo normalmente quando, de repente, deixou de ser normal.

O telefone tocou.

O som atravessou a casa.

Sua mãe atendeu.

Cecília continuou olhando para a televisão, mas alguma coisa mudou no ambiente.

Ela percebeu.

Não sabia o quê.

Não entendia as palavras que chegavam do outro lado da ligação, mas percebeu o silêncio entre uma frase e outra.

Percebeu a voz da mãe mudar.

Percebeu que havia alguma coisa errada.

Seu corpo pareceu entender antes da sua cabeça.

Então veio o grito.

Um grito que saiu antes mesmo que Cecília pudesse pensar.

Como se alguma parte dela já soubesse que aquela ligação estava levando alguma coisa embora.

A notícia chegou.

Seu pai havia sofrido um acidente enquanto trabalhava em uma barragem.

Seu corpo ainda não havia sido encontrado.

Cecília não compreendeu imediatamente o significado daquelas palavras.

Olhou para a mãe.

Depois para a tia.

Depois para a irmã.

Esperou que alguém dissesse que tinha entendido errado.

Que alguém sorrisse e dissesse que tudo ficaria bem.

Mas ninguém disse.

E foi naquele momento que o medo começou.

Um medo que ela não sabia nomear.

— Cadê meu pai?

A pergunta saiu pequena.

Ninguém respondeu como ela esperava.

— Eles vão encontrar ele, não vão?

Talvez fosse isso que Cecília mais precisasse ouvir.

Que iriam encontrar.

Que ele voltaria.

Que aquele não era o fim.

Mas os adultos também estavam assustados.

E uma criança percebe quando os adultos estão com medo.

A casa, que antes parecia tão segura, ficou diferente.

Havia pessoas entrando e saindo.

Telefonemas.

Conversas baixas.

Olhares preocupados.

Choro.

E Cecília observava tudo sem conseguir compreender completamente.

Ela só conseguia pensar no pai.

No rosto dele.

Na voz dele.

No abraço dele.

Na porta por onde ele costumava entrar.

Talvez, em algum momento, ela tenha imaginado que ele apareceria de repente.

Talvez tenha pensado que tudo aquilo fosse um engano.

Porque aceitar uma ausência definitiva era grande demais para uma menina de nove anos.

Então ela esperou.


Foram três dias.

Três dias que pareceram muito mais longos do que todos os dias que Cecília havia vivido até então.

Ela esperava notícias.

Esperava ouvir alguém dizer que tinham encontrado seu pai.

Esperava que ele estivesse bem.

Cada carro que parava diante da casa fazia seu coração acelerar.

Cada telefone que tocava fazia todos se levantarem.

Cada pessoa que chegava trazia consigo uma nova possibilidade.

E Cecília continuava esperando.

Ela não queria explicações complicadas.

Não queria entender o acidente.

Não queria saber por que aquilo havia acontecido.

Ela queria apenas o pai.

Queria que ele voltasse.

Queria sentir novamente aquele abraço que, até poucos dias antes, parecia algo garantido para sempre.

Em alguns momentos, talvez até tenha se perguntado se poderia fazer alguma coisa para trazê-lo de volta.

Porque crianças costumam acreditar que o amor pode resolver aquilo que os adultos não conseguem.

E Cecília amava o pai o suficiente para acreditar que, de alguma maneira, ele ainda encontraria o caminho de casa.

Naquela espera, a saudade começou antes mesmo da despedida definitiva.

Era uma saudade inquieta.

Uma saudade que não sabia se deveria esperar ou chorar.


Naquela noite, cansada de esperar, Cecília dormiu.

Antes de fechar os olhos, fez uma oração.

Sua fé era pequena, simples e sincera.

Ela não pediu muitas coisas.

Pediu apenas que Deus ajudasse a encontrar seu pai.

Naquela noite, sonhou.

Viu duas pessoas retirando alguém da água.

Não sabia quem eram.

Não sabia explicar como aquilo acontecia.

Apenas viu.

Quando acordou, aquela imagem permanecia em sua memória.

Ela não sabia o que significava.

Talvez fosse apenas um sonho.

Talvez fosse sua mente tentando encontrar uma resposta para aquilo que não conseguia compreender.

Mas, para Cecília, aquele sonho se tornou uma pequena esperança.

Pouco tempo depois, veio a notícia.

Tinham encontrado seu pai.

Por um instante, seu coração talvez tenha acreditado que aquilo significava que ele voltaria.

Mas então vieram os adultos.

Vieram os silêncios.

E, finalmente, chegou o carro.

Cecília olhou para ele sem saber exatamente o que sentir.

Havia uma parte dela que ainda esperava.

Esperava que o pai aparecesse.

Esperava ouvir sua voz.

Esperava que alguém dissesse que tudo tinha sido um engano.

Mas havia um caixão completamente lacrado.

E, diante dele, Cecília começou a compreender aquilo que nenhuma criança deveria precisar compreender tão cedo.

Seu pai não voltaria.

Aquele homem que parecia tão forte.

Aquele abraço que parecia eterno.

Aquela voz que fazia parte de todos os seus dias.

Tudo agora existia apenas na memória.

Cecília não sabia como reagir.

Não havia palavras suficientes para aquilo.

Ela podia chorar, mas o choro não explicava.

Podia perguntar, mas nenhuma resposta seria capaz de devolver o que havia perdido.

Podia olhar para os adultos, mas eles também estavam sofrendo.

Então restou ficar ali, tentando entender como alguém podia estar tão presente em seu coração e, ao mesmo tempo, não estar mais ali.

Talvez aquela tenha sido a primeira vez que Cecília percebeu que sentir saudade podia doer.

E doía ainda mais porque ela não tinha conseguido dar aquele último abraço.

Por muito tempo, aquela lembrança voltaria.

A estrada.

O pai se afastando.

Ela acenando.

Aquele olhar.

E a pergunta silenciosa que uma criança talvez carregue sem conseguir dizer:

Por que eu não corri até ele?

Cecília ainda não sabia que não precisava carregar aquela culpa.

Ela só sabia que queria ter tido mais um minuto.

Mais um abraço.

Mais uma oportunidade de dizer que o amava.


Depois disso, o cemitério passou a fazer parte de sua rotina.

Todo fim de semana, Cecília voltava para visitar o pai.

No começo, talvez esperasse que, de alguma forma, ele pudesse ouvi-la.

Contava coisas.

Pensava em histórias que gostaria de contar.

Lembrava dos momentos em casa.

E, mesmo sem saber exatamente como lidar com a ausência, encontrou naquele lugar uma maneira de continuar próxima dele.

Porque, para ela, o amor não havia acabado.

Apenas não tinha mais onde se apoiar.

À noite, antes de dormir, havia outro ritual.

Cecília pegava a fotografia do pai.

Segurava-a com cuidado.

Passava os olhos pelo rosto dele.

E dava um beijo na imagem.

Depois a colocava perto de si.

Era um gesto pequeno.

Mas fazia diferença.

Porque, por alguns segundos, olhando para aquela fotografia, ela conseguia imaginar que ele ainda estava ali.

Não fisicamente.

Mas em algum lugar que a saudade conseguia alcançar.

Talvez fosse assim que Cecília encontrou uma maneira de continuar sendo filha.

Mesmo sem poder mais correr para a porta.

Mesmo sem poder mais esperar pelo som da chegada dele.

Mesmo sem sentir seus braços ao redor dela.

Ela guardou o pai nas pequenas coisas.

Na fotografia.

Nas lembranças.

Nos abraços que ainda conseguia recordar.

No som da sua voz que, aos poucos, precisaria aprender a reconstruir dentro da memória.

E assim, todas as noites, Cecília beijava a fotografia do pai.

Sem saber que aquele gesto era mais do que saudade.

Era sua maneira de dizer:

“Eu ainda lembro de você.”

E talvez fosse justamente isso que uma criança pudesse fazer diante de uma perda tão grande:

lembrar.

Amar.

Esperar.

E tentar entender.

Cecília tinha apenas nove anos.

Mas alguma coisa dentro dela havia mudado para sempre.

A menina que antes corria pela varanda sem pensar no amanhã agora começava a descobrir que a vida também podia tirar aquilo que parecia eterno.

E foi assim que a saudade entrou em sua infância.

Primeiro, silenciosa.

Depois, cada vez mais profunda.

Sem que Cecília soubesse, aquela saudade seria apenas o primeiro capítulo de uma história muito maior.

Uma história sobre ausência.

Sobre silêncio.

Sobre tudo aquilo que ela aprenderia a esconder.

Mas também sobre tudo aquilo que, um dia, aprenderia a dizer.

Thoughts

  • Simao

    O sonho das duas pessoas a tirarem alguém da água, antes da notícia. Numa história destas não contava com isso, e fui ler outra vez para ter a certeza.

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  • lteixeira71

    A menina entende pelo silêncio entre uma frase e outra da mãe no telefone, antes de qualquer palavra. Isso eu acredito sem precisar de fonte nenhuma: criança lê a sala antes de ler o que foi dito.

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  • Ovid

    Começar com o primo empurrando o carrinho de sorvete ao meio-dia e terminar com a fotografia beijada toda noite me lembra que as fotos que a gente mais segura quase sempre são das coisas mais comuns. Aposto que muita gente vai se reconhecer na Cecília. Obrigado por começar a contar a história dela aqui, @AllyneMaia.

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  • academiadobairro

    O primo aparecendo na rua com o carrinho de sorvete ao meio-dia! Casa cheia assim, com tia morando junto e primo passando, é o tipo de lugar que segura a Cecília depois, aposto.

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