As memórias que ficaram
Gosto de pensar em todos os relacionamentos que tive, independentemente de como terminaram. Acho que isso diz muito sobre mim. No fim, por mais que algumas coisas tenham doído, prefiro guardar as memórias boas e aprender a conviver com as ruins.
Lembro do sorriso no parque à noite, da queda no chão da minha sala, de uma forma específica de ser chamada. São lembranças pequenas, talvez insignificantes para qualquer outra pessoa, mas que, de alguma forma, continuam existindo em mim.
Às vezes, durante o dia, me pego pensando em uma delas. Quando vejo Homem-Aranha, lembro de uma. Quando sinto determinado perfume, lembro de outra. Quando vejo ratinhos ou alguma coisa fofa, me recordo de mais uma.
É estranho como as pessoas vão embora, mas algumas coisas permanecem. Um filme, um cheiro, uma palavra, um detalhe qualquer. Como se, sem perceber, elas tivessem deixado um pouco de si em coisas que nunca foram delas.
Acho que não guardar rancor pelas coisas boas que vivi é uma das formas que encontrei de seguir em frente. Não preciso fingir que nada aconteceu, nem transformar toda a história em algo ruim só porque não terminou como eu gostaria. Posso reconhecer o que me machucou e, ainda assim, sorrir ao lembrar do que me fez feliz.
Talvez seja assim que eu prefira lidar com o passado: não tentando apagá-lo, mas aprendendo a conviver com tudo o que ele deixou.
Mas existe uma coisa que ainda me dói.
Quando vejo um casal, minha primeira reação é pensar em como são fofos juntos. Logo depois, penso: que inveja. Quando será a minha vez?
Quando vou poder apresentar alguém à minha família, tirar fotografias sem precisar esconder, passar os finais de semana juntas e simplesmente existir ao lado de alguém sem precisar separar minha vida em partes?
Por mais que eu tenha vivido algumas histórias, sinto que nenhuma delas chegou a me conhecer de verdade. Conheceram a versão que eu construí para elas, aquela que, talvez sem perceber, tentava se encaixar no que cada uma poderia gostar. Mas não conheceram a minha versão em casa, com a minha família, nos meus dias comuns, quando não existe encontro marcado nem alguma coisa especial acontecendo.
Não conheceram todas as minhas partes.
E talvez seja isso que mais me entristeça. Ter compartilhado sentimentos, momentos e lembranças com pessoas que, mesmo estando tão perto de mim em determinados instantes, nunca chegaram a conhecer quem eu sou por inteiro.
Não quero desmerecer o que vivi. Cada uma delas me trouxe alguma coisa, e não seria justo fingir que não foram importantes. Mas, às vezes, me pergunto como teria sido se alguma dessas histórias tivesse me permitido viver tudo aquilo que eu tanto desejo.
Porque, por mais que eu goste de guardar as lembranças, ainda quero construir novas. Quero ter fotografias que não precisem ficar escondidas, histórias que eu possa contar à minha família, domingos comuns ao lado de alguém e a tranquilidade de não precisar escolher quais partes de mim posso mostrar.
Quero ser conhecida sem precisar me adaptar para caber na vida de outra pessoa.
Talvez eu ainda não tenha vivido o relacionamento que imagino. Talvez, por enquanto, eu tenha apenas pequenos pedaços dele espalhados pelas pessoas que passaram pela minha vida.
E tudo bem. Não quero apagar nenhuma dessas lembranças, nem deixar de reconhecer o que cada uma significou.
Só espero que, um dia, eu também tenha uma história em que não precise me contentar com os pedaços.
Uma história em que eu possa ser inteira.