Sabe uma coisa que não entendo?
Como alguém, com cheiro de flores e ervas, pode ser cruel ou mentiroso?
Como alguém que conhece a delicadeza de uma pétala consegue esmagá-la sem perceber o som que faz?
Como um artista, que sente tanto, que observa tanto, que consegue transformar sentimentos em cores, formas e matéria, pode ser capaz de criar tanta dor justamente em alguém que um dia tentou compreender suas próprias cores?
Talvez seja isso que mais me confunda.
Não consigo transformar você em um monstro porque me lembro de todas as coisas bonitas que também existiram.
Lembro-me do cheiro. Das mãos. Da maneira como certas palavras soavam quando vinham de você.
Lembro-me de como seus olhos procuravam detalhes que outras pessoas sequer percebiam. De como você conseguia enxergar diferenças mínimas entre tons, como se o mundo tivesse sido feito para ser observado através de uma paleta que somente você conhecia.
E então olho para tudo o que aconteceu e não consigo conciliar as duas coisas.
Como os mesmos olhos que sabiam discernir tantas cores puderam se moldar tão rapidamente para caber em uma nova versão de si?
Como alguém tão cuidadoso com aquilo que criava pôde ser tão descuidado com aquilo que deixava dentro de outra pessoa?
Talvez eu tenha cometido o erro de acreditar que sensibilidade significava necessariamente cuidado.
Talvez não signifique.
Talvez alguém possa sentir profundamente e, ainda assim, ferir profundamente.
Talvez alguém possa compreender a tristeza de uma personagem, pintar a solidão de uma tela, escrever sobre uma dor que nunca viveu e, mesmo assim, não perceber a dor que está produzindo ao lado.
Isso é o que não consigo entender.
Como pode existir tanta percepção em uma pessoa e, ao mesmo tempo, tamanha cegueira?
Lembro-me de ouvir muitas histórias sobre um irmão que tinha vício em mentir. Eu escutava aquilo como se recebesse uma informação sobre outra pessoa.
Sobre ele. Sobre alguém distante de nós.
Mas hoje me pergunto: será que aquilo pertencia somente a ele?
E, pior, será que aquilo que eu ouvia sobre ele era realmente apenas sobre ele?
Talvez algumas histórias sejam contadas justamente para que ninguém perceba quem também está dentro delas.
Recordo-me das perguntas certeiras e das respostas esquivas. Do meu medo. Da minha paranoia.
Daquela sensação incômoda de que havia alguma coisa que eu não conseguia alcançar, mesmo quando estava diante de mim.
E recordo-me também da verdade aparecendo depois. Não porque eu tivesse inventado tudo.
Não porque minha cabeça tivesse simplesmente criado um inimigo onde não existia nada.
Mas porque, em algum momento, aquilo que eu temia deixou de ser apenas uma possibilidade e passou a existir fora de mim.
Lembro-me daquele dia em que desejei que você recebesse tudo aquilo que havia causado.
E você, de forma doce, respondeu que não desejava isso.
Claro que não. Nós erramos. Cada um à sua maneira.
E você entendeu o que eu estava dizendo.
Mas não era sobre errar tentando acertar.
Não era sobre duas pessoas que fizeram o melhor que podiam e, mesmo assim, acabaram se machucando.
Era sobre errar, mentir, ocultar.
Sobre esconder até aquilo que já estava deixando marcas.
Era sobre não falar sobre elas.
Não completamente.
Porque talvez você dissesse, com a mesma sinceridade que tantas vezes usou comigo: “Eu nem percebi isso.”
E talvez esse seja um dos maiores abismos entre nós.
Porque você era capaz de não perceber o sentimento enquanto já estava beijando outra boca.
Capaz de não perceber a dimensão daquilo enquanto alguém do outro lado tentava entender por que determinadas coisas doíam tanto.
Capaz de continuar acreditando na própria delicadeza enquanto deixava atrás de si pessoas tentando recolher os pedaços de alguma coisa que você sequer percebeu ter quebrado.
Do que me vale sua consideração pela metade?
Do que me vale um coração que se dizia íntegro e lento, se o corpo inteiro caminhava por uma rua estranha?
Do que me vale saber que você sentia muito, se sentir muito não impediu você de fazer tão pouco com aquilo que eu sentia?
E talvez seja essa a pergunta que mais me incomoda: do que vale uma alma com tanto potencial para criar?
Do que vale alguém capaz de transformar flores em imagem, silêncio em música, sentimento em cor?
Do que vale uma pessoa que consegue encontrar beleza onde quase ninguém olha, se, no fim, aquilo que ela mais foi capaz de criar dentro de mim foi uma dor que ainda estou tentando aprender a nomear?