Eu tenho raiva de perceber
que o meu desejo escrito
foi tão bem descrito
que virou espelho de muitos —
e eu só queria
que você se reconhecesse nele.
Eu tenho raiva de ver
que a minha sede do teu corpo
foi capaz de reunir tantos rios,
enquanto nenhuma gota sequer
me tocou a língua.
Tanta gente encontrou palavras
para a falta de alguém
justamente onde escrevi
a falta que você me faz.
E eu tenho raiva.
Porque não te desejei
para escrever bonito.
Eu queria a tua boca
interrompendo o verso,
o teu corpo tão perto
que eu precisasse afastar os lábios
da tua pele
para dizer qualquer coisa.
Mas foram as letras
que romperam a represa.
Jorraram,
viraram oceano dos outros.
E eu fiquei deste lado,
sedento,
vendo tanta gente
se encontrar
naquilo que não fomos.
E no fim, deram certo
os versos
menos nós.
Tomaz Villar