Eu estava a mais de 151 quilômetros de ti.
E talvez tu nunca tenhas compreendido o que isso significava para mim. Porque distância não se mede apenas em números, em placas nas estradas ou no tempo que o relógio insiste em marcar. Existem distâncias que começam muito antes do primeiro quilômetro e terminam muito depois do último. Distâncias que moram na saudade, na incerteza, nas palavras que não conseguem abraçar e nos sentimentos que, mesmo sem tocar, encontram um jeito de permanecer.
Eu estava longe de ti, mas havia uma parte de mim que já tinha chegado.
Enquanto meus pés ainda pertenciam a um lugar, meus pensamentos já percorriam o caminho até onde estavas. Eu imaginava o encontro, ensaiava possibilidades, inventava respostas para perguntas que talvez nem precisassem ser feitas. E, no meio de tantos pensamentos, existia uma pergunta que eu não conseguia calar:
Como pode alguém estar tão longe dos meus braços e, ainda assim, tão perto de tudo o que sinto?
Então, eu fui.
Atravessei quilômetros que, vistos no mapa, eram apenas números, mas que dentro de mim carregavam o peso de uma escolha. Porque ir ao encontro de alguém é também sair do lugar seguro das possibilidades. É abandonar, por algumas horas, o conforto de imaginar e aceitar o risco de descobrir. É permitir que a realidade toque aquilo que, até então, só existia dentro do coração.
E eu precisava descobrir.
Precisava saber se o que parecia tão grande à distância também teria força quando estivéssemos frente a frente. Se o silêncio entre duas mensagens poderia se transformar em paz. Se os olhares diriam aquilo que as palavras, tantas vezes, deixaram incompleto.
Eu não queria mais construir um encontro apenas com a imaginação.
Eu queria a verdade de estar contigo.
E foi assim que os 151 quilômetros começaram a ficar para trás.
Cada estrada me aproximava de ti, mas também me aproximava de uma resposta. Porque, no fundo, chegar até alguém nunca é somente uma questão de geografia. Às vezes, é preciso percorrer um caminho inteiro para descobrir se existe um lugar onde dois sentimentos possam, finalmente, descansar.
E então aconteceu.
Os 151 quilômetros se tornaram 100, depois 50, depois menos ainda…
Até que o mundo, que antes parecia tão grande entre nós, coube em apenas 250 metros.
Duzentos e cinquenta metros.
É quase inexplicável pensar que tanta distância pode desaparecer no horizonte e, de repente, restar tão pouco chão entre duas pessoas que passaram tanto tempo existindo uma na saudade da outra.
Mas há algo ainda mais profundo nisso.
Porque os 250 metros não significavam apenas que eu estava perto de ti. Significavam que, pela primeira vez, já não era a estrada que precisava decidir por nós.
Agora, éramos nós.
Nós e a possibilidade de transformar a espera em presença, a vontade em gesto, as palavras em momentos que não precisassem terminar com uma despedida.
E talvez seja justamente aí que o amor comece a revelar sua verdadeira grandeza: não quando duas pessoas sonham com a possibilidade de ficarem juntas, mas quando a possibilidade deixa de ser um sonho e se torna uma escolha.
Porque chegar perto é fácil quando comparado a permanecer.
A estrada pode nos levar até a porta de alguém, mas somente a vontade de duas pessoas pode construir um caminho para que ambas queiram ficar. E eu não sei tudo o que o amanhã nos reserva. Não conheço as respostas que ainda teremos de encontrar, nem posso prometer que o mundo será gentil com aquilo que estamos prestes a descobrir.
Mas sei por que vim.
Vim porque alguns encontros merecem sair do campo das hipóteses. Porque há sentimentos que precisam da coragem de existir fora das palavras. Porque, em algum momento, a gente precisa parar de perguntar como seria e permitir que a vida nos mostre o que pode ser.
Eu não atravessei 151 quilômetros para exigir um destino.
Atravessei para encontrar uma possibilidade.
A possibilidade de que tudo aquilo que nos aproximou à distância pudesse encontrar raízes na realidade. De que o que sentimos não precisasse viver eternamente de intervalos, despedidas e promessas de um próximo encontro.
E agora estou aqui.
Apenas 250 metros de ti.
Tão perto que a distância já não pode explicar o que sentimos. Tão perto que o próximo passo não depende de uma estrada, de um mapa ou de horas de viagem. Depende daquilo que nenhum quilômetro é capaz de responder: a vontade de nos encontrarmos de verdade.
Talvez, daqui a algum tempo, a gente olhe para trás e sorria ao lembrar desses 250 metros. Talvez eles se tornem apenas uma pequena lembrança no começo de uma história que ainda nem sabemos contar.
Ou talvez a vida nos ensine algo diferente.
Mas, independentemente do que vier, existe algo bonito em ter chegado até aqui: eu tive coragem de trocar a distância da dúvida pela proximidade da verdade.
E isso, por si só, já significa alguma coisa.
Porque existem viagens que fazemos para conhecer lugares, outras que fazemos para reencontrar pessoas. E existem aquelas que fazemos porque alguma coisa dentro de nós se recusa a deixar uma história inteira sem ao menos descobrir como ela poderia terminar.
A minha foi por ti.
Foram mais de 151 quilômetros para chegar onde estás. E agora, entre mim e ti, restam apenas 250 metros.
Mas talvez esses 250 metros sejam os mais importantes de toda a viagem.
Porque os quilômetros que ficaram para trás exigiram coragem para partir. Esses poucos metros, porém, exigem coragem para começar.
E eu já não quero que a nossa história seja feita apenas da distância que vencemos, das saudades que sentimos ou dos encontros que imaginamos.
Quero descobrir o que acontece quando duas pessoas deixam de ser uma possibilidade distante e se permitem ser presença na vida uma da outra.
Quero que, um dia, a gente se lembre de quando havia 151 quilômetros entre nós e compreenda que não foi a estrada que nos trouxe até aqui. Foi a decisão de tentar.
E se alguém me perguntar o que existe de tão especial entre 151 quilômetros e 250 metros, eu direi:
Existe uma viagem inteira de coragem.
Existe a saudade que se transformou em movimento.
Existe o instante em que a distância deixa de ser desculpa e a presença se torna possível.
E existe uma pergunta que agora já não precisa ser respondida com palavras, mas com a vida:
E se tudo aquilo que sonhamos à distância for apenas o começo do que ainda podemos viver de perto?
Eu percorri mais de 151 quilômetros para chegar até ti.
Agora, só existem 250 metros entre nós.
E talvez o mais bonito não seja ter chegado tão perto…
Mas descobrir que, depois de tanto caminho, ainda temos a estrada mais importante para percorrer: aquela que começa quando dois corações, finalmente, escolhem caminhar na mesma direção.